RESENHA: Em agosto nos vemos - por Gutemberg Armando Diniz Guerra
RESENHA
Garcia
Marques, Gabriel. Em agosto nos vemos.
Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2024.
Gutemberg Armando
Diniz Guerra*
A literatura tem o poder de nos levar
muito mais longe do que costumamos acreditar. Autores como o colombiano Gabriel
Garcia Marques (1927-2014), consagrado pelo romance “Cem anos de solidão”
(1967) e pelo prêmio Nobel de Literatura em 1982, teve numerosos textos das
quais a última e mais recente de suas publicações, a que vem classificada como
contos por ele mesmo quando ainda em vida, em uma entrevista, e também pelos
filhos, no Prefácio, e pelos editores
no livro “Em agosto nos vemos”. Teria sido recomendada por ele mesmo a
destruição desse texto por não estar finalizado e nem à altura do que o autor
considerava razoável para conhecimento do grande público leitor. Os filhos,
entretanto, depois de sua morte, autorizam a publicação e justificam no Prefácio a traição ao desejo confessado
pelo pai, esperando que o sucesso dessa edição os redima dessa desobediência.
Em uma espécie de posfácio intitulado como Nota
da edição original, o editor Cristóbal Pera oferece detalhes sobre a
construção da obra e o percurso na tentativa de finalização feita pelo autor e
seus auxiliares. A meu ver, não tivessem eles confessado os questionamentos e
insatisfações de Gabriel Garcia Marques, sobre esse escrito, a obra seria lida
e muito bem recebida pelo público, reconhecendo-se a genialidade expressa em
aspectos como o protagonismo feminino, os detalhes com que descreve o ambiente
e os sentimentos dos envolvidos na narrativa, os elementos simbólicos
mobilizados como a ilha, o casamento aparentemente estável e feliz, estradas,
hotéis, lagos, túmulo, cemitérios, flores, vida e morte, fidelidade e traição.
Uma hipótese plausível que não sei se foi levantada, é que o autor teria a
intenção de construir outros capítulos com variações dos casos amorosos de sua
protagonista, a cada agosto, em um número maior do que os seis apresentados.
Ao meu ver um dos elementos centrais desse
livro é o questionamento da fidelidade tanto feminina quanto masculina, nos
marcos da instituição do casamento no mundo ocidental. Embora coloque uma
mulher como protagonista do que eu chamaria de romance, ele questiona a
fidelidade tanto da mulher como dos homens, colocados ambos no mesmo patamar. O
enredo se desenvolve com a justificativa de uma senhora de classe média,
bonita, muito bem casada, com um homem com atributos de beleza e sedução, profissionalmente
bem sucedido, em uma relação aparentemente muito estável, mas que visita
anualmente o túmulo de sua mãe, enterrada em uma ilha, e se dá o direito de
viver noites tórridas com amantes que escolhe ou se deixa escolher nessas
viagens.
Os capítulos primam pelos detalhes da
indumentária e do ambiente em que esses encontros acontecem, tanto quanto pela
descrição detalhada dos sentimentos contraditórios que Ana Magdalena Bach vive
nessas, digamos assim, escapadelas. O erotismo refinado vem nos detalhes das
carícias descritas, das frases trocadas entre os amantes, dos olhares e do
gestual sugerido pelo narrador. Os amantes não são nominados, mas são descritos
como tipos diferenciados, com virtudes e defeitos que ora mobilizam, ora deixam
a mulher em dúvida se a aventura vale ou não a investida, dado o limitado tempo
que ela tem para cada noite de liberdade naquela clandestinidade que ela vive a
cada mês de agosto.
O casamento vivenciado pelos personagens
centrais é descrito como calcado no respeito e cumplicidade, com limites
estabelecidos, embora as desconfianças sejam mantidas à distância de
constatações ou confissões, até o momento em que elas se revelam em um diálogo
de pessoas aparentemente maduras e preparadas para esse confronto. O
desnudamento dos sentimentos provocados pelas revelações de transgressões a que
se permitem tanto a mulher quanto o seu marido, expõe as fragilidades da
instituição e o grau de hipocrisia com que essa construção absorve e se mantem
no conjunto da sociedade. Uma interpretação possível é do quanto a vida em sociedade
condiciona e controla os comportamentos dos indivíduos, levando-os a
sofrimentos pelo tolhimento de suas emoções e sentimentos, forçando-os a
cumprir regras ditadas pela cultura, religião e costumes. Esses elementos
aparecem explicitados e sequenciados em mulheres de três gerações: 1 a
protagonista que visita o túmulo de 2 sua mãe enterrada em uma ilha, e 3 uma
filha do casal que tem um perfil contraditório, qual seja o de namorar um
músico de jazz, ser irreverente em sua vida desregrada, mas ter a pretensão de
se tornar religiosa em um convento, o que finalmente realiza contra a vontade,
mas para alívio de Ana Magdalena, sua mãe.
Nada vem aleatoriamente no texto dividido
em seis capítulos, sem títulos nem subtítulos. O nome Ana Magdalena Bach da
protagonista se conecta imediatamente com o da bela mulher de vida livre que se
notabiliza nos Evangelhos por sua proximidade com Jesus Cristo. O sobrenome
Bach a vincula ao marido e à música por evocar imediatamente o famoso
compositor alemão. Se tomado ao pé da letra, o significado de bach, em alemão, como
riacho, rio, igarapé, nos faz imaginar um fluxo linfático de vida e movimento. O
primeiro prenome, Ana, não pode ser ingenuamente analisado pois é um dos mais
usados para denominar mulheres no ocidente e tem em hebraico a aura da beleza e
graça na sua etimologia. Da mesma forma, gladíolos depositados no túmulo
remetem a origem europeia e a campos floridos dos Países Baixos e teriam sido
ofertados também à mãe de Ana Magdalena por um amante misterioso que se deixa
revelar em um gesto contínuo de homenagens, depositando flores durante os
períodos em que Magdalena se faz ausente. O nome da mãe de Ana Magdalena não
aparece em nenhum momento. O marido se chama Domenico Amaris, demarcando um
senhorio patriarcal, enquanto a filha mencionada carrega o nome de Micaela,
quiçá acenando para um anjo que, embora guerreiro, nada tenha de tão rebelde
como o rebento do casal. Curiosamente, ou muito provocativa é a forma como
Gabriel Garcia Marques constrói essa filha de Ana Magdalena e Domenico Amaris
como uma fêmea precoce na prática do sexo, o que leva a mãe a lhe chamar
sonoramente de puta por que ela, servindo-se da amizade com um médico, ter
implantado um dispositivo anticoncepcional quando tinha apenas 15 anos,
prevenindo-se contra possível gravidez em suas noitadas eróticas. O que a mãe
se permitia na maturidade utilizando métodos mais conservadores, a filha
praticava com recursos tecnológicos mais sofisticados. A empregada da família,
que aparece pontualmente no segundo capítulo é Filomena, amiga da força, se nos
apegarmos à etimologia. Aquiles Coronado, um advogado, amigo de juventude de
Ana Magdalena e de seu marido, casado, a encontra na ilha e tenta realizar um
desejo antigo de namorá-la, colhendo renovada frustração. Ela se nega a criar
laços com conhecidos que lhe façam se conectar às convenções que ela pode
romper quando está na ilha. Esse fato, porém, revela que a traição não é uma
exclusividade dela enquanto indivíduo do gênero feminino, mas se estende e é
permitida com muito mais complacência quando o infrator é do gênero oposto.
O anonimato dos amantes é mantido no
romance, sem que eles sejam nominados, a meu ver para reforçar o caráter
clandestino das ações de Ana Magdalena e a liberdade que ela supõe possível apenas
na ilha e se feita de maneira escondida. Fico na dúvida se na narrativa, esse
elemento – a clandestinidade – não teria sido utilizado para dar um toque de
excitação erótica, pela tensão que desperta por ser proibido.
O embarcadouro, os motoristas de taxis, as
estradas e caminhos tortuosos e precários, os hotéis que escolhe para se alojar
e ser cortejada são as pontes para as noites de realização do desejo contido
pelas amarras sociais que estão no continente. A mãe, no túmulo, é cumplice e
confessora de suas fugas, compensada pelas flores de sua predileção,
cuidadosamente adquiridas a cada ano em floriculturas especializadas ou
floristas comuns mas eficazes na oferta da espécie de seu agrado.
O livro me caiu em mãos como presente de
natal e já tinha sido objeto de um grupo de leitura composto apenas por
mulheres. Fui informado que, conforme comentado naquele grupo, o tema tem
desenvolvimento similar em romances e filmes de outros autores como Tostói no
livro “Anna Karenina” e Clint Eastwood no filme “As pontes do Rio Madison”.
O texto é revelador da sensibilidade de
Gabriel Garcia Marques tanto quanto de sua atualidade no que se refere ao
exercício da sexualidade e da liberdade das mulheres contemporâneas no que
concerne ao domínio do próprio corpo e sentimentos. Chocará, certamente, os espíritos
conservadores e provocará reflexões sobre a psicologia dos casais e as relações
intergeracionais aos que estejam abertos a questionar modelos e
condicionamentos da sociedade contemporânea.
_______________________________________________________
Variações: revista de literatura contemporânea
XIII Edição - vidas fantasmas: poéticas assombrológicas
Curadoria e Edição:
Bruno Pacífico
e Marcos Samuel Costa
2026
.jpg)

Comentários
Postar um comentário