A PERIGOSA ILHA DA UTA! - CONTO de Gigio Ferreira

Van Gogh



PREÂMBULO

Na verdade seis ilhas formavam um grande arquipélago. A maior ilha era justamente a Ilha da Uta. E ao redor dela, outras ilhas igualmente aprazíveis e belas. A mais próxima da ilha da Uta era a próspera ilha de Ôdasse.
Em Ôdasse a vida cultural era mais pujante e mais requintada que as demais. Com o tempo, as outras ilhas foram perdendo prestígio e, eventualmente algum status no turismo, base maior da economia em todo o grande arquipélago.

AS PRIMEIRAS INTRIGAS

Com a crescente onda de corrupção generalizada em praticamente todas as ilhas, a democracia foi ficando fragilizada. E não demorou muito tempo ao surgirem aventureiros de todos os cantos com as suas panaceias na ponta da língua. Alguns tinham discursos manjados, velhos e decadentes contra o comunismo e, para isso, alegavam que os tais comunistas agrediam o direito à propriedade, bem como os valores da tradicional família. Tudo lorota, mas havia quem caísse nessas lábias de camelô de porta de igreja. Outros até que se esforçavam ao requentarem o ódio e o desprezo pelas políticas de proteção social. E como os antigos governantes pouco ou nada fizeram pela educação e pela cultura, esses boquirrotos começaram a ganhar força, popularidade e prestígio em várias ilhas do grande arquipélago.
Como a cultura e a educação estavam solidamente fincadas e estabelecidas na ilha de Ôdasse, esses boquirrotos acabaram expulsos da ilha ensolarada de conhecimento e de arte. Mas como fizeram muitas propagandas e arruaças, acabaram eles todos conseguindo asilo e amparo na ilha da Uta. E sendo todos mesquinhos e belicosos, juraram vingança contra a ilha de Ôdasse.

CAUSOS EM ÔDASSE

Na ilha de Ôdasse reinavam a paz, a arte, a concordância e o respeito mútuo pelas minorias e por todas as diferenças. O único funcionário público que por lá andava com arma de fogo na cintura era o velho Odair. Mas essa arma era uma verdadeira piada. Era uma velha garrucha de dois canos curtos... Tão velha e obsoleta, que certo dia, para afugentar um enorme jacaré que havia invadido uma escola, Odair teve de fazer uso de sua arma, mas ao sacar e disparar contra o feroz jacaré, Putz! A munição dentro da arma nem estampido fez; o que os estudantes e professores viram foi apenas um catolé de bala de revólver. Espoletas estragadas e vencidas ocasionam isso. E essa falha, os mais antigos conhecem e apelidam de: PEIDO DE VELHA! Após o disparo contra o réptil, uma grossa e espessa fumaça de pólvora queimada formou-se em torno da cabeça do velho Odair. E por pouco o jacaré não comeu as suas finas e cabeludas pernas... Sorte que conseguiu correr, apesar dos cambaleantes setenta e cinco anos de provecta idade. As vaias e as gargalhadas foram ensurdecedoras e inevitáveis nesse dia memorável na ilha de Ôdasse.

O DIA A DIA EM ÔDASSE

Em Ôdasse tinha-se a impressão que todos os habitantes eram artistas ou artesãos. Em qualquer rua que caminhasse você sentia aquele agradável odor de incenso queimando. E em muitas residências a gente só ouvia tocar Reggae quase o dia todo. Em Ôdasse, a vida era mais lenta por conta da prosódia pastosa e arenosa dos seus habitantes. As ruas não tinham pavimento asfáltico. Mas todas as vias eram arborizadas; o que dava a sensação deliciosa e abundante de sombra e água fresca. Todos se conheciam e todos se cumprimentavam, tanto de dia quanto de tarde. Quando a noite chegava, os moradores faziam fogueiras para espantar muriçocas e insetos diversos; não raro os mais idosos contavam histórias de assombração e mitologias para adolescentes e crianças. Nessas noites aconchegantes sempre aparecia algum morador empunhando um violão ou uma flauta doce. E assim surgiam gerações inteiras de poetas e compositores na ilha de Ôdasse. Ninguém ligava para a vida de ninguém em Ôdasse. Cada qual no seu cada qual. Ninguém perguntava a sua idade ou muito menos a sua ocupação profissional. Lá o que contava mesmo era a imensa liberdade pública de ir e vir por todo o seu ensolarado e idílico território insular.
Ninguém brigava ou porfiava na política doméstica em Ôdasse. Até porque os cargos públicos eram remunerados com apenas um salário mínimo e ponto final. Ser político com mandato não constituía uma profissão, esse era o entendimento maior e coletivo em Ôdasse. Por isso o político eleito para algum cargo público não gozava de privilégios ou vantagens salariais. Em Ôdasse os políticos não eram melhores ou piores que os artistas, os médicos e os professores. Interessante também era o slogan cosmopolita do governo local que dizia assim em letras garrafais: “ÔDASSE PARA O MUNDO!”. E por favor, sem ambiguidades nos trocadilhos infames, né?!
E a vida era levada assim, sem qualquer preocupação com o crescimento vertiginoso do PIB ou da expansão das geopolíticas. A vida em Ôdasse valia a pena ser vivida com imensa felicidade e facilidade todos os dias. Tinha-se o que comer e tinha-se o que beber. E essas duas coisas se amalgamavam perfeitamente em com a benéfica política habitacional da ilha. Pois cada habitante pagava apenas irrisórias mensalidades quando adquiria a sua casa própria. Comer bem, beber o que quisesse e ter direito à moradia digna, era um compromisso real com a cidadania em Ôdasse. E nem iremos contar aqui que a educação pública de qualidade era considerada uma referência no grande arquipélago. E isso enchia de orgulho os habitantes, bem como despertava ódios gratuitos contra a idílica Ôdasse.
Mas enquanto em Ôdasse a preocupação era a eubiótica, na outra ilha quase em frente, a preocupação era outra, bem diferente das inclinações artísticas e libertárias de Ôdasse.

DIÁLOGOS INTRANQUILOS NA BAÍA DOS BURROS

Não foram poucas as manhãs em que alguns habitantes de Ôdasse assistiram a uma movimentação atípica de vários navios de grande porte atravessando a Baía dos Burros. Tudo isso acabou chamando a atenção e intrigando alguns políticos de Ôdasse.
E no Boteco da famosa cafetina Jucicléia, os dois políticos mais influentes na ilha de Ôdasse iniciam um preocupante diálogo. Um era o deputado, líder do governo, apelidado de: AREIAMIJADA. E o outro era o líder da oposição, carinhosamente apelidado de: ENRABAMULA. Então Enrabamula disse para o Areiamijada em tom de quase segredo:
(ENRABAMULA) Em pé e com um copo de cerveja na mão esquerda. Fixa um olhar preocupado ao encarar o deputado Areiamijada. Sua voz é pausada:
-Não sei você... Mas ultimamente venho observando coisas estranhas, muita estranhas em Ôdasse!
(AREIAMIJADA) Em pé e com um copo de cerveja na mão direita. Esboça um esgar de riso moleque nos lábios ao encarar o deputado Enrabamula. Sua voz é pastosa:
-O que você anda vendo, fantasmas? A oposição parece viver disso, né?!
(ENRABAMULA) Em pé e segurando o copo de cerveja na mão esquerda. Afasta-se do balcão do bar com seis passos. Seu olhar volta-se ao infinito do horizonte. Sua fala é lenta, porém preocupada:
-Não! Não se trata disso, nobre colega, mas essa quantidade toda de gigantescos navios indo para a ilha da Uta! É isso que anda tirando o meu sono por aqui!
(AREIAMIJADA) Em pé e já despejando nova dose de cerveja em seu copo. Continua junto ao balcão, porém volta o seu olhar para o deputado Enrabamula. Sua voz é pastosa:
- Sim, bem notado e, tem mais, não são navios comerciais, não!
(ENRABAMULA) Em pé e segurando com a mão esquerda o copo já vazio. Ao ouvir o que o deputado Areiamijada lhe dissera, retorna ao balcão de madeira. Sua voz agora é quase trêmula de nervosa:
- Não?! Você agora virou terrorista de nervos?!
(AREIAMIJADA) Em pé e segurando o copo de cerveja com a mão direita. Seu olhar é inquisidor e sua voz é pastosa:
- Não, que é isso, homem, largue de besteiras! Mas concordo com você, sabe, outro dia vi passar pela Baía dos Burros pelo menos uns três navios de guerra!
(ENRABAMULA) Em pé e enchendo novamente o seu copo com a garrafa de cerveja que está em cima do balcão de madeira. Seu olhar é esbugalhado e sua voz é alta, nervosa e estridente:
- GUERRA?! QUE PORRA DE GUERRA?!
(AREIAMIJADA) Em pé e enchendo novamente o seu copo com cerveja. Seu olhar é meio abobalhado e sua voz é pastosa:
- Sim senhor... Navios de guerra!
(ENRABAMULA) Em pé e segurando com a mão esquerda o seu copo contendo cerveja. Seu olhar é duro e fixo. Sua voz é nervosa e macia:
- Mas quem aqui quer fazer guerra? Vamos, me diga?!
(AREIAMIJADA) Em pé e enchendo novamente o seu copo com cerveja. Mas agora muda de mão e segura o seu copo com a mão esquerda. Seu olhar é claro e preciso. Sua voz deixa de ser pastosa e fica forte e dura:
- Você já esqueceu aqueles sujeitos que viviam por aqui fazendo baderna e confusão?
(ENRABAMULA) Em pé e agora segurando o seu copo de cerveja com a mão direita. Seu olhar é curioso e lento. Sua voz é dura:
- Lembro sim... Mas que a verdade seja reconduzida ao seu pedestal maior... Não passavam de agitadores profissionais comandados por estranhos espectros políticos da ilha da Uta!
(AREIAMIJADA) Em pé e segurando com a mão esquerda o seu copo de cerveja. Seu olhar é duro e sua voz é decidida e cortante:
- E com o apoio das bestas, acabaram dando um golpe de Estado na ilha da Uta!
(ENRABAMULA) Em pé e segurando com a mão direita o seu copo de cerveja. Seu olhar é meio abobalhado e sua voz é lenta e parcimoniosa:
- Hummmm... E o que isso tem a ver com Ôdasse?
(AREIAMIJADA) Em pé e despejando novamente cerveja em seu copo. Agora troca novamente de mão e passa a segurar o seu copo com a mão direita. Seu olhar é meio perdido e sua voz torna a ficar pastosa:
- Ouvi uns boatos por aí que eles estão se preparando para invadir Ôdasse!
(ENRABAMULA) Em pé e também despejando cerveja em seu copo. Mas também troca de mão e começa a segurar o seu copo com a mão esquerda. Seu olhar continua perdido e sua voz é lenta:
- Mas em Ôdasse há somente artistas, professores e artesãos! O único sujeito que anda armado por aqui é o velho e pobre Odair!
(AREIAMIJADA) Em pé e solicitando da proprietária do estabelecimento uma nova garrafa de cerveja. Quando a dona Jucicléia coloca a cerveja sobre o balcão, fala em tons de brincadeira:
(JUCICLÉIA) Em pé e atrás do balcão. Seu olhar é duro e sua voz maviosa:
- Esse trabalho de parlamentar aqui em Ôdasse é uma benção... Uma benção! Vamos trabalhar meus senhores! Vamos trabalhar!
(AREIAMIJADA) Ainda em pé acaba despejando dentro do seu copo a cerveja servida pela dona Jucicléia. Apanha o seu copo com a mão direita. Seu olhar é de alguém curioso e sua voz é pastosa. Então primeiramente responde para dona Jucicléia:
- Mas o trabalho parlamentar é esse mesmo, dona Jucicléia... O de parlar sem parar sobre todos os assuntos! Agora cuide do seu trabalho que cuidaremos do nosso!
E o deputado Areiamijada retorna o diálogo com o deputado Enrabamula:
(AREIAMIJADA) Em pé e segurando o seu copo de cerveja com a mão direita. Seu olhar está meio perdido e sua voz é trêmula e pastosa:
- Mas você sabe muito bem que é a ganância que move as pessoas estúpidas, né?! Eles possivelmente já descobriram através dos seus arapongas as nossas minas de diamantes raros. E Ôdasse corre sim, muito perigo!
(ENRABAMULA) Em pé e também servindo- se da garrafa de cerveja sobre o balcão de madeira. Segura o seu copo com a mão esquerda. Seu olhar está perdido e sua voz é lenta:
- Hummmm... Não estou gostando muito dessa conversa...
(AREIAMIJADA) Em pé e segurando o seu copo com a mão direita. Seu olhar está atônito e sua voz continua pastosa:
- Pois é... Eu também não, querido colega!
(ENRABAMULA) Em pé e segurando o seu copo de cerveja com a mão esquerda. Seu olhar agora é duro e sua voz é decidida:
- O presidente já sabe disso?
(AREIAMIJADA) Em pé e segurando o seu copo de cerveja com a mão direita. Seu olhar está meio perdido e sua voz é pastosa:
- Creio que sim... Mas ele está preparando o seu novo disco de Reggae!
(ENRABAMULA) Em pé e segurando o seu copo com a mão esquerda. Sua voz é decidida e sua voz é firme:
- Gosto das músicas dele! Mas diante dessa possível crise, isso não era hora para ficar compondo Reggaes por aí, né?!
(AREIAMIJADA) Em pé e bebendo a sua cerveja ao segurar o copo com a mão direita. Seu olhar é duro e sua voz é firme:
- Sabe, eu também gosto muito das músicas dele... Mas nesse momento, sou obrigado a concordar com vossa excelência!
(ENRABAMULA) Em pé e segurando o seu copo com a mão esquerda. Dá uma generosa golada em seu copo contendo cerveja. Seu olhar é amistoso e sua voz é decidida:
- Mas seria de bom alvitre, avisá-lo, né!?
(AREIAMIJADA) Em pé e trocando novamente de mão. Passa a segurar o copo de cerveja com a mão esquerda. Seu olhar é firme e sua voz torna a ficar pastosa:
- É verdade! É verdade nobre companheiro! E vamos sem demoras avisá-lo do que está acontecendo!
(ENRABAMULA) Em pé e também trocando de mão. Passa a segurar o seu copo de cerveja com a mão direita. Seu olhar é firme e sua voz dura e forte:
- Então depois dessa rodada de chope, iremos pessoalmente ao Palácio do Aralho avisá-lo! Ele precisa ter ciência dos fatos!
(AREIAMIJADA) Em pé e segurando o seu copo de cerveja com a mão esquerda. Seu olhar é de quase alegria e satisfação. Sua voz é maviosa e macia:
- Combinado! Nessas horas de aflição, deixemos de lado nossas tênues diferenças e discursos... Afinal, o que está em jogo é a democracia!

O PALÁCIO DO ARALHO

Quando os dois políticos chegaram ao Palácio do Aralho, encontraram o presidente Tabaco Nervoso fumando um cigarrinho nativo e dedilhando a sua guitarra. Na verdade o nome de batismo dele era pomposo demais para um cantor de Reggae: Caio Tibério de Aveiros Porto. Mas na vida artística ele acabou ganhando um apelido inusitado: TABACO NERVOSO! Não sei dizer quem teve essa ideia, mas que era diferente, ah isso era. Então os dois políticos encontraram o presidente ensaiando as músicas do seu novo trabalho. Era um disco todinho de Reggae. Minto, havia duas baladas românticas com levadas soul. Quando os dois políticos acabaram de escutar a composição inédita que o presidente Tabaco Nervoso havia executado, aplaudiram efusivamente a bela canção romântica. E o deputado Areiamijada pediu a palavra e dialogou com o presidente:
- Presidente... Não sei se o senhor já está sabendo...
- Sabendo o quê?
- Todo dia passam navios de guerra no rumo da ilha da Uta!
- Ah já me avisaram...
- E o que o senhor pretende fazer?
- EU?!
- Sim, presidente!
- Bem... Eu fiz umas músicas bem maneiras, cê quer ouvir?
- Mas presidente... Ôdasse corre sérios perigos!
- Corre não...
- Mas já há boatos que a ilha da Uta irá invadir Ôdasse!
- Mas é exatamente disso que gostaria de falar para você!
- Não estou entendendo o senhor...
- Seguinte... Cê quer dar um trago no meu cigarrinho?
- Não, muito obrigado!
- Relaxe cara...
- Já bebi umas cervejinhas na Baiúca da Jucicléia!
- Então relaxe e sente-se aí que eu irei mandar buscar mais umas cervejinhas no boteco do poeta Cotonete!
- Presidente... Não sei onde o senhor arruma tanta tranquilidade numa horas dessas!
- Relaxe a cuca... Fiz uns mantras arretados... Você precisa escutar!
- Mantra não vence canhão e bombas!
- Vence sim... Quem foi que te falou que não vence?!
- Presidente, o senhor vai me desculpar... Mas o senhor está viajando!
- Confie em mim... JAH PROTEGE SEUS FILHOS!
- Tudo bem... Então mostre como o senhor irá defender a ilha de Ôdasse?!
- Meus caros irmãos, a salvação está no nome do nosso país! A nossa salvação está no nome do nosso país!
- Como?!
- Fiquem em silêncio... Mente tranquila e absoluta... Ouçam isso que eu fiz agora mesmo!
E foi aí que aquele negão maravilhoso medindo quase dois metros de altura começou a cantar o mantra mágico que havia escrito em longas horas de sua meditação:
Ôdasse pra ti ...
Ôdasse pra eles...
Ôdasse pra todo mundo...
E repetiu com vigor:
Ôdasse pra ti...
Ôdasse pra eles...
Ôdasse pra todo mundo...
Depois tornou a cantar, só que dessa vez, o fez com grande intensidade e ênfase no manejo de sua guitarra:
ÔDASSE PRA TI...
ÔDASSE PRA ELES...
ÔDASSE PRA TODO MUNDO...
ÔDASSE PRA TI...
ÔDASSE PRA ELES...
ÔDASSE PRA TODO MUNDO...
Quando Tabaco Nervoso acabou de cantar o mantra que havia composto, os dois políticos começaram a chorar, mas chorar de emoção lírica. Mas passada a emoção, o deputado de oposição, Enrabamula, interveio:
- Mas presidente como iremos enfrentar os filhos da Uta?
- Simples, meu caro, quando um de vocês ficarem frente a frente com um filho da Uta, basta invocar JAH! Mas tem de cantar bem alto esse mantra que eu acabei de mostrar para vocês!
- Basta isso?
- Sim!
-Olhe lá... Isso está me parecendo uma grande viagem!
- Garanto que é tiro e queda... Não vai ficar um filho da Uta para contar história!
E não é que o presidente Tabaco Nervoso tinha total e ampla razão?!
Quando as primeiras tropas fascistas começaram a desembarcar cedo da manhã nas formosas e idílicas praias de Ôdasse, foram surpreendidos por vários elencos de artistas e artesãos cantando o mantra que o cantor-presidente havia lhes ensinado no dia anterior. E isso foi fatal para a derrocada das tropas fascistas. Pois o mantra de Tabaco Nervoso era quase um veneno nos ouvidos daquelas hordas.
E em pouco tempo, todos os habitantes acabaram se juntando aos artistas e artesãos. E todos em uníssono cantaram:
ÔDASSE PRA TI...
ÔDASSE PRA ELES...
ÔDASSE PRA TODO MUNDO...
E a cantoria não parou naquela histórica manhã... Até as crianças e os idosos cantaram com amor e verdadeiro patriotismo:
ÔDASSE PRA TI...
ÔDASSE PRA ELES...
ÔDASSE PRA TODO MUNDO...
E assim Ôdasse se viu livre de todas as ameaças apenas cantando uma simples música:
ÔDASSE PRA TI...
ÔDASSE PRA ELES...
ÔDASSE PRA TODO MUNDO...
Viu como as coisas difíceis são fáceis? Então Ôdasse para mim e Ôdasse para você também...E quer saber mais? Ôdasse para o mundo!


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Gigio Ferreira é dramaturgo, contista, cronista e poeta. Nascido em Belém do Pará. Cursou letras na UFPA. Tem diversos livros publicados.



                                           Variações: revista de literatura contemporânea 
I Edição, n. 01 vol. 01 - outras margens, nenhum limite 
curadoria e editoração:
Marcos Samuel Costa

2020

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