UM CONTO DE JEAN JAVARINI
Jean Javarini. Hospedar o que falta: o quarto que continuava Depois que Marta foi embora, o quarto permaneceu. Não no sentido material — a cama arrumada, o guarda-roupa fechado, a janela entreaberta para o mesmo quintal de sempre —, mas como uma instância ativa da casa. Um território que operava por silêncio. Um lugar onde nada acontecia, e exatamente por isso tudo acontecia demais. Durante semanas, Paulo evitou passar pelo corredor. Sabia que o quarto não o chamava. Ele apenas estava ali, cumprindo sua função de ausência. Ainda assim, o piso rangia de modo diferente quando ele se aproximava, como se a madeira soubesse medir distâncias emocionais. Marta não morreu. Isso seria mais simples. Marta decidiu não ficar. Levou livros, roupas, o violão esquecido atrás da porta e um caderno de capa azul que Paulo nunca leu. Deixou o cheiro — isso ninguém consegue levar — e deixou o hábito, que é sempre mais difícil de erradicar. Todas as noites, às vinte e duas, Paulo ainda pensava: Marta j...






