A saudade e o silêncio - poemas de Ana Meireles


                 

A SAUDADE E O SILÊNCIO

O silêncio era a resposta mais próxima que havia ficado na calçada entre o muro e o jardim onde as línguas emudeceram. Estava trabalhado, definitivamente, o véu que compunha as notas de um desprendimento amortecido. Ainda podia ser que se encenasse novos risos e se forjassem outras formas possíveis de palavras, mas já não havia tempo num tempo que se fechara em antes e durante, ignorando um depois. O depois não era nada, era só uma página virada...
A rua, incólume, embora por vezes quase beijasse as calçadas, seguiria o seu trajeto, dobraria as esquinas e buscaria o contorno da luz a fim de se iluminar no cruzar incessante dos caminhos.



TEMPO ZERO

Está tudo deserto nesta visão
Em que meu olhar se alonga
Numa única direção.
As xícaras continuam lá sobre a mesa
E também os copos, os talheres, as panelas.
Ontem mesmo foram lavados
E em cima da pia empilhados.
Mas, novamente, foi preciso usá-los
Todos os dias era preciso.
Porque com o uso e conteúdos diários
Sujavam-se por dentro e por fora.
Lavar, limpar e secar era uma precisão, uma necessidade
Como é todos os dias acordar e levantar.
Ver tudo sempre igual, um dia após o outro
E tentar vencer o tédio que toma conta da visão
Para que não transforme a existência, as situações vivenciais
Numa caricatura de cemitério, um coronavírus
Voraz, um tempo de desejo zero.





Ana Meireles é poeta e cronista - nasceu em Icoaraci Distriro de Belém do Pará em um belo domingo de Páscoa como dito por sua querida mãe Leila. Atualmente é servidora pública com formação em psicologia pela UFPA. Tem diversos livros publicados, entre poesia e crônica, esse ano faz sua publica seu primeiro livro infantil. 



                                          Variações: revista de literatura contemporânea 
I Edição, n. 01 vol. 01 - outras margens, nenhum limite 
curadoria e editoração:
Marcos Samuel Costa

2020

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