"Metamorfos" - poema de Paulo Nunes

***
Sei de teu enjoo
sobre a cama:
repetitivo gesto;
e gramas no estorvo de uma dívida
ou a casca desse incômodo epitelial.
Bates a porta atrás de ti, sais;
um nevoeiro em poeira rui
E te deixa tonto e espirrante.
Persegue-te uma duplicata entre tantas, e
ela, logo logo,
a vencer te fará vencido.
(Suor escorrega entre
o fato e a pele)
Sim, o governo é mau,
mas e daí?...
E as noites já não são tranquilas, embora
a tua casa de abrigue, ainda, no retorno da faina.
Dentes lavados
Pijamas quase limpos.
Deitas, mas pra quê?
Grigório Samta de Matos,
e o teu sono arredio,
nem é chumbo, eu sei.
A todos a insônia inebria:
Que país é este?
A bexiga cheia: vais ao banheiro;
Na volta, de novo
O enjoo...
Doem teus braços, pernas,
a cabeça moi,
O pulmão é
todo sobressalto.
Teus dedos – estás pasmo? –
enchem-se de pelos.
E diante do espelho baço,
desanoitado e à revelia,
Vives a vida numa atrofia.
Se acordasses um homem de bem - um bálsamo
-,
nem saberias o que é educar,
feito a metamorfose
de Franz K.
[ ]
(Belém, Pará)
Paulo Nunes é Paraense de Belém; pesquisador
da Universidade da Amazônia, Belém-Pará; Autor de didáticos, integrou, com Josse
Fares e Josebel Akel Fares o grupo Texto e Pretexto; autor de uma trilogia de
poemas para Belém: Banho de Chuva (em 7 edições), O Mosquito qu’Engoliu o boi e
Baú de Bem-querer. Traço-Oco, livro de poemas, foi listado entre 0s 44
semifinalistas do prémio Oceanos de Língua Portuguesa, em 2019.
Variações: revista de literatura contemporânea
I Edição, n. 01 vol. 01 - outras margens, nenhum limite
curadoria e editoração:
Marcos Samuel Costa
Marcos Samuel Costa
2020
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