O Drama da Literatura Paraense - Conto de Gigio Ferreira
O Drama da Literatura Paraense - Conto
Finalmente após longos
anos penando como funcionário público...férias prolongadas, não apenas os
trinta dias previstos durante o ano
trabalhado, mas sim uma merecida licença especial de 12 meses, excepcional
oportunidade para eu fazer o que quisesse, e uma das coisas que eu vinha
alimentando com bastante entusiasmo era sentar a bunda num canto quieto e
mandar bala para escrever alguns livros
necessários, sabe aquele desejo enorme de tentar fazer
chover ? Pois é, isso aumentava toda vez que era convidado para
algum sarau e ao final alguém indagando..."Porra,você tem livro publicado? " e eu com cara de jabuti triste respondia "Não, não tenho tempo, trabalho
demais...quem sabe no futuro" Isso
é uma das mais perigosas respostas que o ser humano possa dar, pior quando se
trata de um artista, meu irmão, artista que é artista arruma tempo nem que
seja dormindo...aliás, durante o sono
você tem a obrigação de sonhar, servem também pesadelos, coisas absurdas são
muito apreciadas no mundo das artes,
pois já existem pessoas demais ocupadas
em fazer dinheiro voar, pessoas que se ocupam em guardar
dinheiro...e essas tarefas são
enfadonhas...toda essa montanha de papel quer ganhar os rumos do teatro, do cinema, das telas,e por
fim... dos livros loucos, onde o amor é livre, as
personagens passam para trás maridos bobalhões, malucos vão viajar dentro de
baleias velozes, mortos voltam a viver,onde ninguém é infeliz...onde o amanhecer sempre retorna com esplendorosas
poesias...e a grana que eu tinha dava
para viver essa idílica experiência, sem esperar mais eu liguei para um agente imobiliário, queria um
lugar calmo mas que fosse perto dos
corredores culturais da cidade, então eu
liguei para ele naquela manhã:
- Paulo...aqui é o mestre Gigio falando...
- Ah, sim...fala Gigio,
minha secretária já me deu os papos, acho que tenho um lugar especial para
você!
- Sério?
- Sim...você pode vir
aqui hoje?Olha, traga todos os documentos necessários, pois gosto tudo preto no
branco!
- Tá certo cara...estou
indo agora para aí...
O lugar era no centro da cidade, perto de cafés
e teatros, ideal para mim, gosto do
pseudo isolamento, então levei minha pequena mobília e uma porrada de
livros...no primeiro dia apenas arrumei
tudo, no segundo já estava escrevendo, pelos meus cálculos eu iria produzir
três livros...um romance,um de poesia, e se desse uma peça de teatro...no
terceiro dia eu desci para umas biritas, mas ao descer percebi que o
apartamento ao lado estava de portas
abertas, estranhei, resolvi xeretar empurrando de leve a porta, lá dentro um
jovem rapaz estava sentado ao lado de uma espécie de mala preta comprida...ele
era ruivo, ainda com espinhas na cara, o que me levou a concluir que tinha pouca idade...quando me
viu sorriu amarelo, tinha aqueles aparelhos nos dentes...então eu quebrei o
gelo:
- E aí
bicho? Tudo bem? Sou Gigio
Ferreira...
- Fala brother! Sou
Thiago!
- Tá chegando agora de
viagem? Essa é a sua mala?
- Não...é o meu estojo...sou músico!
- Ah...legal, sou artista
também cara...
- Você toca que
instrumento?
- Nenhum...sou escritor!
- Mas escritor não é
artista!
- TEU CU!
Foi um mal presságio
aquele nosso papo...o garoto ao que parecia era um completo ignorante, encerrei
o papo com ele e desci para umas cervejas...só bebo sozinho, quando estou no
boteco eu viajo sozinho em meus delírios...quando alguém puxa algum papo eu já
saco logo que é algum solitário que ainda não teve a oportunidade de ser apresentado, pois possivelmente é um dos donos do
lugar...mais tarde quando se tornar
teu íntimo, é bem provável que
você pague pedágios para entrar e beber
nesse tal boteco, entrei e sentei, bebi a primeira...a segunda...a
terceira...foi aí que um desses donos surgiu com a mesma conversa mole dos viciados em álcool alheio:
- E aí meu
patrão....tudo em riba!
- Fala!
- Torce pro
Remo ou Paissandu?
- Nenhum dos
dois...detesto futebol, aliás detesto qualquer
esporte!
- Quer dizer que o
senhor nunca jogou uma
pelada na sua infância?
- Não...sempre fui um
garoto DOENTE!
- Mas não da cabeça...ou
o senhor é daqueles que rasgam dinheiro também?!
- TAMBÉM...TIVE ALTA ONTEM DO
HOSPITAL PSIQUIÁTRICO!
- Hummm...mas o meu patrão gosta de tomar uns
tragos de vez em quando né?
- Gosto...mas eu misturo
com os meus remédios controlados ...CÊ QUER UM COPO ?!
Ele apenas virou a cara
torta para mim e deu no pé...ora porra, a gente não pode botar uma roupa melhor e se sentar
sozinho num boteco da vida...desconfio que isso é uma
"Profissão"...quando retornei fui direto para o Notebook
trabalhar...durante esse período
adquiri hábitos de vampiro, dormindo
durante o dia e trabalhando a noite, a noite é mais charmosa...o dia pertence
ao patronato...as indústrias funcionam melhor durante o dia,então fui direto trabalhando
sem parar, quando começou a clarear...a
grata surpresa,justo no momento em que o meu corpo já estava se
agasalhando eu ouço o que parecia ser
uma buzina de automóvel em pleno engarrafamento, era o garoto ruivo fazendo
solfejos em seu estridente trompete americano...PUTA QUE PARIU! Resultado, não dormi porra nenhuma...então fui tentar falar
com ele:
- Brother...não me leve a
mal...
- Se o senhor veio aqui
pedir para eu parar de ensaiar....tire o cavalinho da chuva!
- Porra cara...sacanagem
sua! Nem profissional você é ainda!
- TEU
CU!
Liguei para o cara da
imobiliária:
- Paulo...porra Paulo, cê é
foda cara, foi você que alugou aquele apartamento para o garoto
com arames nos
dentes?
- Foi...mas o que está acontecendo?
- Porra esse moleque é trompetista...agora
ele está lá..soprando aquela merda bem
alto!
- Mas ele me falou que
era apenas professor de música...só
isso!
- SÓ ISSO ? Porra...não tem como me arrumar
um outro lugar ?
- Só pagando a rescisão contratual !
- Eu pago
essa merda...mas me arranje um
outro lugar...por favor!
Dois dias depois eu já me encontrava no novo endereço,
igual ao apartamento anterior, perto da boemia, era assim que eu queria...na
primeira noite foi uma maravilha, arrumei os diálogos da peça que estava escrevendo...tudo
estava nos trilhos, que maravilha, então veio o
primeiro final de semana, eu estava dormindo quando quase caí da
cama com gritos pavorosos de uma mulher e de um homem , fiquei nervoso
e liguei para a central de polícia:
- Alô...é da central de
polícia?
- Sim...o que o senhor
deseja?
- Amigo,está acontecendo
um homicídio aqui ao lado do meu apartamento, tem um cara esganando
uma mulher...
- Me confirme o
seu endereço.
Quando os Hominídeos
chegaram, foram direto ao meu apartamento, bateram na porta com aquela
costumeira educação:
- Foi o senhor que nos acionou?
- Foi sim...
- E o que
está acontecendo?
- O problema é aí ao lado...tem um cara matando por asfixia uma mulher!
Então da mesma forma
educada, só que com mais ênfase eles
bateram na porta...quando a porta
se abriu a surpresa...era um lindo
casal...todos maquiados, disseram para a guarnição policial que eram atores
e que estavam ensaiando umas cenas de
uma peça muito foda! Os
canas apenas sorriram para
mim...um deles com uma estrela nos
ombros ainda me repreendeu dizendo:
- O senhor procure
averiguar antes a situação....se o senhor tivesse primeiro perguntado, o senhor
saberia que não se tratava de homicídio!
- Sei lá...tanta gente
maluca andando por aí,achei melhor pedir apoio aos especialistas!
- Tenha um bom dia...
- Igualmente...bom
trabalho pra vocês!
E todo final de semana
tinha ESGANADURA...TAPAS...BERROS....GRITOS
PAVOROSOS...GEMIDOS...GRITINHOS...CHOROS....GARGALHADAS! Não suportei o
teatro dos horrores e liguei para o
filho da puta do Paulo:
- Paulo! Porra Paulo...tu me mete em cada
cagada...
- O que foi
agora Gigio?
- PORRA...NO APARTAMENTO
AO LADO TEM UM CASAL DE ATORES....PORRA,
NÃO SEI SE É APENAS ENCENAÇÃO...A COISA
ESTÁ MUITO REAL...É GRITO, É GEMIDO,
PORRA...QUERO PAZ!
- O que é que você quer
eu faça?
- PORRA....ME ARRUME UM OUTRO LUGAR!
- Só pagando a
rescisão contratual
- Tá bom...eu pago
essa merda!
Antes de ir para o novo endereço eu fiz umas
sondagens antes...porra, não é possível
encontrar de novo esses malucos
em meu caminho, achei um cantinho
e pedi ao filho da puta do Paulo para
fecharmos o contrato, tudo resolvido e a nova morada abria o seu largo
sorriso para mim...que felicidade! Voltei a escrever bem de novo, dormia pela manhã com as janelas
abertas, ventos frescos e sadios invadiam
o meu quarto, tinha sonhos eróticos
maravilhosos...acordava de pau
duro e tomava o meu banho, isso sempre
quando a noite aparecia...conclui a peça
de teatro com sucesso, agora era partir
para o misterioso romance...então
já cansado fui dormir, quando o sol
chegou veio a novidade....um outro
músico,um cara que tocava violão e cantava
na noite, seu horário de trabalho era semelhante ao meu,
portanto...elas por elas, certo?Certo porra
nenhuma, esse cara era um PRIÁPICO! Toda vez que chegava do seu expediente ele trazia
uma garota para
transar com ele, não se importava
se feia
ou bonita....tinha que ter
VAGINA!E ao que parece ele tinha uma PICA MONSTRUOSA, pois nenhuma menina que trepava
com ele apenas gemia, não, ELAS GRITAVAM DE
DOR! URRAVAM, juro! Era muita
gritaria meu deus! Aquilo dava medo...não é sacanagem não, porra, no início eu
aceitei a brincadeira, até escrevi uns contos muito engraçados, mas isso se
tornou uma rotina diária, sem
contar o cheiro de baseados
sendo queimados de manhã, de tarde e sobretudo
a noite! Acho que esse cara estava tentando se matar,porra,ele não
dormia,quando não estava fodendo, tava
fumando maconh....cansei
dessa sua vida porra louca e liguei para o
filho da puta do Paulo:
- Paulo....PUTA QUE PARIU!
- Que foi dessa vez
CARALHO?!
- PUTA QUE PARIU...TÔ
MORANDO AO LADO DE UM PORRA LOUCA!
- ORA PORRA...TU
QUERIAS O QUÊ ? ARTISTA É ASSIM MESMO
BROTHER.
- Porra...cê num arruma um outro lugar pra mim?
- SÓ PAGANDO A
RESCISÃO CONTRATUAL!
- Tá
bom....eu pago essa MERDA!
Quando fui ao banco tive
uma surpresa...a minha conta estava no vermelho, falei com o gerente e ele foi camarada esticando a minha dívida,
pedi um empréstimo e ele quase me disse um não, mas no final acreditou na minha lábia de
escritor e liberou uma quantia bem
bacana...passei no supermercado e praticamente levei o estoque de cervejas importadas, levei também muitas garrafas de
cachaça mineira...estava bem na foto agora, abri a porta do novo apartamento e fui entrando...me esbarrando em tudo que via,
era o primeiro dia claro que eu
enxergava, trabalhei em vários textos até que enfim o sono bateu, e pela primeira vez não ouvi os
ruídos humanos...que estranho, a
luz do apartamento ao lado estava sempre ligada, mas eu não ouvia
barulhos estranhos...muito estranho não ouvir nada...que diabos acontecia nesse
apartamento?! E olha que passei mais de
dois meses sem ouvir porra nenhuma...não conseguindo mais suportar a
curiosidade eu apertei a campainha do apartamento vizinho...ele abriu a porta,
sorridente, estava de avental todo sujo de tintas, concluí que se tratava de
um artista plástico, ele era já velhão,
cabelos brancos e um bigodão enrolando
nas pontas,mandou eu entrar, respondi
que ele esperasse um pouco, pois
eu iria apanhar umas cervejas pra gente
prosear...quando voltei e entrei de fato em seu apartamento, dei de cara com
uma modelo viva...estava NUA, em
pé,imobilizada...era incrível o seu
profissionalismo, linda...super gostosa...ele riu um pouco e me disse o
seu nome... Jamille! Mas logo me
adiantou que ela não trocava uma palavra quando "Entrava em cena"
ficava assim, completamente imóvel...feito uma verdadeira estátua!Ele era muito
culto,falava diversos idiomas, e quando não estava trabalhando ele amava ler livros de poesia, sabia de cor vários poemas
famosos, porra isso me encheu de alegria, ta aí uma amizade que estava
valendo a pena, todas as noites após o meu trabalho eu apertava a campainha do
velho, que sempre me recebia com um largo sorriso nos lábios, eu sempre levava
umas cervejas geladas, após muitos minutos de papo ele simplesmente me pedia
silêncio e partia para a sua
pintura...eu ficava apenas olhando a sua
modelo...depois me pedia para ir embora, pois estava cansado,
compreensível, ele estava velho, mas um baita de um artista...até que
fiquei semanas sem ir visitá-lo, e quando eu o fiz fui recebido por uma estranha mulher,
ela me disse que o Dr Romildo estava
internado no hospital central, pedi o
endereço e fui visitá-lo, porra ele era gente fina, gostava das nossas cultas
conversas, e lá fui eu ao
Hospital Central, quando adentrei o
vi quase imóvel em cima de sua cama hospitalar, ele fez um lento sinal
com uma das suas mãos me chamado:
- Gigio...caro amigo, te
tenho como um filho! Quero te pedir um imenso favor! Posso?
- Claro doutor!
- Ah...pare de me chamar
de doutor...eu sei que estou morrendo...sou médico! Estudei muito
para isso...
- Sim, diga lá!
- NÃO DEIXE QUE A
ENTERREM!
- Quem doutor?
- A JAMILLE!
- Mas ela é uma grande profissional, jamais será enterrada
artisticamente!
- Ô homem de Deus, preste
atenção, a Jamille foi minha esposa, ela está, digamos...conservada!
- Me desculpe
doutor...mas ela ainda é um brotinho!
- Você não entendeu,
a Jamille está...EMBALSAMADA!
- PUTA QUE PARIU ! Quer
dizer que todo esse tempo...
- Sim...entenda que fiz
isso por amor...não queria ficar longe
dela!
- Porra...que merda!
E ela
morreu quando? Morreu de quê ?
Não vá me dizer que o senhor matou
essa menina...
- CIÚMES...mas eu a amava
muito, éramos jovens quando tudo isso aconteceu...só que o tempo
passou...e hoje estou velho nessa cama...esperando a morte me
levar...você me perdoa?!
- Porra....que maluquice
é essa?!
- Você me promete que não vai deixar que eles
a enterrem?
Saí daquele hospital
voando, será que ainda havia tempo de me mudar? Então liguei para o filho da puta do Paulo:
- Paulo...seu
tremendo filho de uma puta!
- AH NÃO...PORRA GIGIO,
SOSSEGA OS COLHÕES, PORRA!QUE FOI
DESSA VEZ?
- Cara...cê não está
entendendo nada...sabe aquele apartamento lá
próximo do teatro da Paz? Ele ainda está sem inquilino? Lembra dele? Aquele que você me
alugou logo no início do ano, lembra
dele?
- LEMBRO...E
AÍ?
- Quero morar
lá de novo...
- SOMENTE PAGANDO A
RESCISÃO CONTRATUAL! PORRA, CÊ SABE DISSO!
- Tá bom ....eu
pago essa MERDA!
Quando cheguei naquele velho apartamento com a mobília e os
livros me deparei com uma cantora lírica
exercitando sua linda voz....que passarinho canoro, linda, que corpaço, que
lindos cabelos ondulados....estava cantando foi
boto sinhá!
Gigio Ferreira é dramaturgo, contista, cronista e poeta. Nascido em Belém do Pará. Cursou letras na UFPA. Tem diversos livros publicados.
Variações: revista de literatura contemporânea
I Edição, n. 01 vol. 01 - outras margens, nenhum limite
curadoria e editoração:
Marcos Samuel Costa
Marcos Samuel Costa
2020

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