Para não morrer tanto - poemas de Franck Santos

(fotografia de Elza Lima)
Para não morrer tanto
Este tempo é de coisas que nos deformam
Como seres das espécies pelágicas
Vivemos acima dos sedimentos
Mas ainda há pele tua sobre os lençóis, nos discos acumulados, nas fotografias, nos meus dentes.
Seremos sempre deslocados na geografia
Como a cicatriz que deixaste, como uma tatuagem, uma explosão, uma catástrofe,
O lobo que fugiu da sua alcateia
E guardei no pulmão.
Das viagens guardo recordações que agora vão preenchendo as paredes
Quase como a massa de água dos oceanos
Mas ainda compro flores, ameixas, melancias, morangos e tangerinas
Antes que a esperança não seja só o calendário
O verão vá embora e leve esse cheiro de chuva e maracujá dos nossos corpos.
Para não morrer tanto
Deixarei acesa a lâmpada do corredor
Doce de caju na geladeira
Tudo que é de algodão nos armários do quarto
Nossa serenidade sem paralelo.
Retrato em branco e preto
Há
um ciborgue daltônico chamado Neil Harbisson que vive em Barcelona
Que
cansado de ver tudo cinza
Instalou
uma antena na sua cabeça que funciona como um sensor de cores
Um
terceiro olho
Para
cada cor um som diferente.
Fiquei
pensando nele e em como ele veria as fotografias de Elliott Erwitt
Quase
todas em preto e branco
cheias
de ironia e situações bizarras do cotidiano
como
ele ouviria os sons que Elliott emite quando fotografa
uivar
igual a um cão
tocar
uma buzina ou a cena de uma dança em Cuba
quando
ele fotografou Alicia Alonso
mesmo
cega e com mais de noventa anos coreografava e dirigia o balé nacional do país.
Há
um ciborgue daltônico na Espanha
Há
um fotografo francês que mora em Nova York
Havia
uma bailarina cega que viveu e morreu em Cuba
Há
um pseudopoeta que se encontra num fim de tarde numa praia de uma cidade no
nordeste brasileiro
Qual
o mais solitário dos quatro?
Cena
13:
Desperto
às cinco da manhã para perceber que na minha rua já ninguém dorme de janelas
abertas
Quantas
pessoas desertaram?
Nesses
amanheceres de dias vazios o tempo não tem asas
Tenho
membros pesados como os dos sonâmbulos ou dos afogados
Sinto-me
um inseto enorme sem cérebro.
Ensinem-me
de novo a respirar, caminhar por ruas movimentadas, olhar janelas abertas, sem
tédio ou morte ou desertores.
Nessas
manhãs que a solidão come sucrilhos e maças argentinas, contemplo nas janelas
fechadas, nas flores, nos ossos que aparecem sob a pele como após uma longa
doença
Camadas
de orvalhos
E
canto baixinho uma canção de amor.
Ele
era Deus
Na
trigésima volta de bicicleta
Ele
deixou de acreditar nos dias santos
Ladainhas
Igrejas.
Descobriu
que trazia catedrais nos pés, coxas e órgãos genitais.
Adentrou
na autoestrada
Correndo
na velocidade de sua solidão que nada tinha a ver com círculos, quadrados,
retângulos, linhas retas, paralelos.
Era
Deus.
A
bicicleta voltou vazia.
Os
olhos de minha avó
Houve
um tempo em que eu não amava ainda
Mas
as canções de amor traziam em mim uma nostalgia longínqua
Longínqua
como os olhos de minha avó
Aos
sessenta e cinco recordando os dezesseis.
Eu
disse-lhe: não é você, é outra aquela que se esgueira defronte seus olhos.
Mas
ela insiste em dizer: sou eu mesma.
Há
quem nasça com a dor dentro de si
Como
a semente de memórias.
Não
quero aos sessenta e cinco recordar meus dezesseis
Minha
dor é a de hoje
Não
a dos anos longínquos
Em
que não serei mais eu.
A
visita
Na
tarde que Matilde me visitou
Encontrou-me
folheando revistas e vendo programas na tevê sobre decoração de interiores.
Caia
uma tempestade sobre a cidade.
Ficamos
olhando o espetáculo da chuva e dos raios que acontecia ao nosso alcance
Na
varanda onde ficamos.
A
maquiagem de Matilde permanecia intacta sob a chuva.
Na
tarde que Matilde me visitou e eu estava folheando revistas e vendo programas
na tevê sobre decoração de interiores
Disse
que não queria mais saber de casas perfeitas, reformas espetaculares e de
programas sobre o assunto.
Recomendou-me
Piet Outot e seu conceito de ver beleza na feiura
Nas
flores que estão murchando
Que
a ideia de beleza não pode ser previsível, que eu desconfiasse das palavras
belo e delicado.
Na
tarde que Matilde me visitou
Sua
maquiagem permaneceu intacta sob a chuva e tive uma vontade insana de
convidá-la para comer rabanadas, nem era natal.
Encostei
devagar minha urgência no vazio da tarde, na tempestade, no brilho dos trovões,
dos raios, no rosto maquiado de Matilde.
Franck Santos é um homem comum, ilhado em São Luís, cidade
esta que tem mar, porto, muitas histórias, sol e céu azul o ano inteiro, mas
prefere dias nublados e chuvosos, uma casa no campo, vinho e blues.
Variações: revista de literatura contemporânea
I Edição, n. 01 vol. 01 - outras margens, nenhum limite
curadoria e editoração:
Marcos Samuel Costa
2020
I Edição, n. 01 vol. 01 - outras margens, nenhum limite
curadoria e editoração:
Marcos Samuel Costa
2020

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