Resenha: INESQUECÍVEL “PIRÃO DE CHARQUE E AVUADOS” de Gigio Ferreira - por Ana Meireles



INESQUECÍVEL “PIRÃO DE CHARQUE E AVUADOS” Do Escritor Contista e Cronista  Gigio Ferreira


   De verdade, eu nunca havia experimentado um “Pirão de Charque”. Muito menos com o acréscimo de um Pirão Avuado. Experimentei agora por estes dias e não foi difícil perceber no sentido verbal do paladar, que o pirão tinha uma consistência visual geradora de complexos sentidos. Mastigar o charque, engolir o pirão, tornou-se tarefa de extrema abstração. A mente, não se pode duvidar, é um reservatório de material proveniente das elucubrações diárias proporcionadas pela percepção no trabalho de observar e transmutar o que vê e, como o autor fez, oportunizar o nascimento de uma laboriosa coletânea de textos-ficção da realidade. Refletindo sobre isso à mim indago: O que se passa no universo mental de um escritor de contos como é Gigio Ferreira ?
Para um primeiro esboço de resposta tenho que o mundo mental é um universo de ideias e pensamentos que se esbatem e conflitam propiciando a construção de narrativas em forma de prosa, muitas das quais com as vestes de uma paródia da realidade que cotidianamente nos cerca. 
Encetei leitura com a boca dos olhos bem abertas, experimentando certo receio de vir a engasgar-me com algum pedaço de charque mastigado avuadamente. Felizmente isso não aconteceu, porque quando parecia que não passava a metáfora da palavra, logo o pensamento buscava viajar nas espumas negras, tornando a charada presente no pirão um enigma deglutível.
O autor sem sombra de dúvida é abundante, digo da materialidade ao construir sua obra com porções das facetas humanas nas relações que estabelece: Ambição, ganância, a obtuosidade de sentimentos como ciúme, inveja, preconceito. Incluindo o amor, o sexo, a traição,a excentricidade de personagens bêbados e drogados.Gigio Ferreira vai além e envereda pela crítica político-social poematizando a morte de uma árvore que permitia aliviar a fome de famintos meninos. E volto para lembrar o que já havia anteriormente mencionado: Estou comendo este PIRÃO DE CHARQUE E AVUADOS agora. E de repente me dei conta que é um prato que em alguns momentos requer argúcia na mastigação mental. Confesso que algumas vezes me senti literalmente avuada, porque encarar a “consistência” das metáforas é coisa de aprofundar num verdadeiro pirão e apreciar. Uma hora, já adiantei, achei que ia mesmo me engasgar e era no bago da farinha. Não havia boia ou qualquer outro instrumento de salvação para aquela espécie de afogamento que me levava a sucumbir no sentido múltiplo de implicação das palavras. Na mente o revirar de pensamentos e concomitante excitamento, adrenalina na corrente sanguínea. Sucede, então, o momento triunfal da digestão em que a veia crítica do Escritor toma as feições relaxadas na expulsão de um poderoso palavrão. Ah, embarquei no clímax!
A brisa que soprava na Ilha de Mosqueiro tinha o contorno de uma morena espumante. O autor é a presença física, no texto, de uma excepcional capacidade de ser satírico, espirituoso, sarcástico e com um humor de levantar o ânimo do leitor. 
E para finalizar este deguste prazeroso não poderia deixar de trazer à lume o som imaginário da risada-gargalhada do autor. Ela se constitue em elemento cativante, uma marca, um símbolo, dentro da tessitura do texto. Um símbolo que ecoa  longa e profundamente  no reduto da mente provocando novos risos e gargalhadas. SENSACIONAL!


                         

ANA MEIRELES - é poeta e cronista - nasceu em Icoaraci Distriro de Belém do Pará em um belo domingo de Páscoa como dito por sua querida mãe Leila. Atualmente é servidora pública com formação em psicologia pela UFPA. Tem diversos livros publicados, entre poesia e crônica, esse ano faz sua publica seu primeiro livro infantil. 



                                           Variações: revista de literatura contemporânea 
I Edição, n. 01 vol. 01 - outras margens, nenhum limite 
curadoria e editoração:
Marcos Samuel Costa

2020

Comentários

Postagens mais visitadas