[rolar na lama] - poemas de Matheus Felipo

(fonte: Google imagens)
[filme
do Van Damme]
o filme do Van Damme é super legal.
ensina karatê para resolver problemas.
ensina karatê, ao em vez de diálogos,
pra não problematizar.
problemas são bonitos,
mas problemas mais do que bonitos é
quando tem insulto,
porradaria, ossos rompidos. sangue,
muitas vezes.
meu soco é bem dado em ti.
um soco seguido de outro, no meio da
cara,
sem motivo.
te soco pra me divertir, sem motivo.
te dou uma rasteira, sem motivo.
melhor, e mais bonito, claro,
é sem motivo.
[bumerangue]
todo bumerangue,
uma vez lançado, vai e volta,
é o que diz a física
mas não sei pra que a física serve.
pra que teorias, números,
big-bang, pra que a física inventou ultrassom,
tomografia,
túnel e fotos
pra que detector de metais, lâmpada, monitor de pc,
pra que prever tufões e maremotos
pra que, Einstein? me diz!
todo bumerangue,
uma vez lançado, tem que voltar,
senão voltar,
eu extingo a física
a parto em duas
[miojo]
o
miojo é instantâneo. tá escrito na embalagem.
instantâneo
é o que?
não
sei, não faço ideia. tiro o miojo da embalagem. ele é concentrado e cru.
posto-o
na panela, com três
copos
de agua.
tá
escrito na embalagem pra ferve-lo no fogão
em
três minutos.
esperai,
porque o fogão? e não o sol? afinal inventaram o fogão
pra
imitar o sol. mas o sol é maior e aquece bem mais.
posto
o miojo nos raios solares.
pra
cozinha-lo deixo a tarde inteira ao invés de três minutos. ora, três minutos?
esse tempo cozinha o que?
estranho:
o miojo permanece concentrado e cru
mas
tá saboroso, molhadinho
o
miojo sacia a minha fome
é
isso que importa
ao
leste, o sol se põe
[cloro]
tomo cloro
até me intoxicar
ai vejo seios azuis
cogumelos brancos
e rosas
tomo cloro
e desaprendo a diferença
entre o que é diferente
e o que não é
[baleiro-giratório]
giro o baleiro até eu ficar
incapacitado, a ponto de não conseguir
desembrulhar uma bala. e desembrulhar
uma bala é muito elogiável.
trás a sensação dever cumprido.
um obstáculo que foi devidamente
superado.
se indagarem o que me marcou mais,
o que me fez ver a vida distinta,
falarei convicto: foi o baleiro-giratório.
[rolar
na lama]
rolar
na lama, todo o corpo,
de
um lado e outro, rolar na lama,
como
se não houvesse a manhã, além
de
um lado e outro. a pele toda marrom,
a
roupa toda marrom, um cheirinho de terra,
lembra
quadra de saibro. entrar lodoso na casa,
passar
na cozinha, quartos, banheiro e sala.
a
casa inteira com barro. sentar no sofá,
de
dois lugares, sujando-o, e mesmo assim
não
ser repreendido, ouvir um rap.
Biografia: Matheus Felipo nasceu em 1986, em Presidente Prudente, interior de São Paulo. É formado em História pela Unesp. Escreve, tira fotos de bonecos e faz malabares como hobby. Tem textos publicados em várias revistas eletrônicas, entre elas: Ruído Manifesto, Abacana (de Portugal), Literatura e Fechadura, Plástico Bolha e Arribação. Fido Dido me deu uma voadora é seu primeiro livro.
Variações: revista de literatura contemporânea
I Edição, n. 01 vol. 01 - outras margens, nenhum limite
curadoria e editoração:
Marcos Samuel Costa
Marcos Samuel Costa
2020

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