05 POEMAS DE ROSA WATRIN
O estômago viveu como um frigorífico
o corpo habitado era oco
expelindo cheiro de pólvora.
As interpretações quase em grito
riscavam as melhores faixas do vinil.
Um atrito civil
era um diz-que-diz
congelando os suspiros.
Um tempo querendo dizer que era dois
com paredes vazadas
era um tudo sem nada.
Um sentido imoral de vazio
arrotando um estado normal de vogal a vogal
um sabor esquisito
masturbando o lado de fora.
Foram pacotes de março
de infinitos febris
o correio
o email vazio.
Não foi um
nem dois
são estados que preenchem e exterminam.
Atração Líquida
Amar depois da chuva
não me enche de culpa
exorciza- me.
Amar depois da chuva
transforma a libido em liquidez
boca molhada
líquida tez.
Chuva...
Chuva...
Ousada vez!
Mulheres – talheres e fé-
Na casa de muitas mulheres
além do zunir dos talheres ofuscando a conspiração dos mistérios
existe colo
desejos
redobrando a esperança com a delícia do beijo.
Não vivemos um tempo digno de glórias
o barulho do tiro lá fora
já não determina a hora do medo.
O homem zonzo
sem meios
não percebe ao seu lado quem chora
ignora o sentido do feito
o compromisso desfeito
e desprovido de ser
pouco ora.
Neste ínterim que bagunça e desponta
os minutos são horas...
Horas! Horas!
Impiedoso tempo que invade e devora
vai embora
por favor! Vai embora!
Porque o barulho sonoro de dentro
permanece
apavora.
No ranking que vive o mundo
muitos perdem o sentido dos rumos
a vida
outros vendem bagulhos com grifes bordadas em suas camisas.
Na casa que o som ecoa os decibéis sem o ranço da amargura
que a palavra ressoa doce e sem fissuras
a própria dor nela cura.
Se ainda houver fé e concórdia
talvez a equidade humanística
quebre o barulho invisível das portas.
Existe gente!
Existe gente que a vida ocupa
existe gente que da vida nem ousa tentar.
Existe gente que cobra
gente que manda cobrar.
Existe gente que na investida da noite
de tudo
tenta se apropriar
na retaguarda da vida
existe uma efetiva galera dotada a vetar.
No campo silvestre
há flores com o vento do leste.
No chão agreste
ainda existe gente com juros redobrados tentando plantar.
A cobiçada Amazônia
tem muita gente querendo patrocinar
com jogos manchetes
com gritos
com fórceps
com leques
além da morte que veste.
Existe gente
luta
chão.
Um chão de verde universo
que em verso
faz o homem repensar.
Existe gente que da vida experimental faz vendaval
sem perceber a própria fala
tampouco a leitura estrutural.
Existe gente que a vida unifica o humano em um todo
com olhares de lutas
independente do lugar
que a vida não quer ocultar.
A vida não admite intervalos.
A vida
como um processo constituinte
não admite intervalos
e nenhum tipo de grito louco que cale.
Nas trincheiras deste mundo acelerado
plural e de aspecto blindado
um verso sem métrica e sem rima
não merece ser aniquilado
porque no contexto da leitura atual
existe muito cacique letrado
ante a ética do alfabeto trocado.
Na luta da existência humana
resistir ao anonimato
qualquer cidadão hoje sabe:
– nunca fique calado. –
A metodologia humana que cultua culturas
escreve sob e sobre a textura silábica da fala.
Quanto à prática?
Joga-a na vala.
- A vida inóspita abocanha a pobreza e a elite
infiltrando a loucura das façanhas. –
Vida histórica
vida umbigo
neste veio palavra
drena os descalabros
o momento trágico
expande a visão
a fé
o justo chão
cessa o impávido jogo
unta de humano a alma
fomenta dia a dia um veio novo.
Rosa Virgínia Watrin, psicóloga, professora, poeta e compositora.
Autora dos livros “Hipostasiando”, “Contudo... Tudo!” e “Alguns Datados”, Rosa não nasceu para ser podada e admirada até que morra, sua escrita urgente e polida pulsa e sangra os saberes que sua vida e profissão lhe proporcionaram, o comportamento distinto dos seres, dores e prazeres, todos muito bem retratados a ponto de soltar em direção ao leitor de forma latente – seja branda ou rigorosa -, a escrita de Rosa é sempre certeira no incômodo de nos mostrar exatamente quanto humanos somos.
No Ano de 2020 Rosa Watrin fecha parcerias com a editora paulista TREVO, que lançará dois de seus novos livros infantis - “Pijamas e Detalhes” e “Fases e Dentes” - além da parceria com a Pará.grafo Editora, por onde lançará o poético-científico “Diante de Vários Depois”.


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