Salgada água do mar agitado - ficção de Marcos Samuel Costa
![]() |
| (ver-por-dentro - Douglas Oliveira) |
Salgada água do mar agitado
Celton passou o resto da manhã sozinho. Ainda saiu, mas não se demorou. Haviam pesos maiores na brisa do dia que se demorava em passar. Logo voltou para sua casa, para sua solidão, seu mundo que se fazia mudo. Revirando a memória e com um peso deitado sobre as lembranças, tudo passava. Não deixou partir o quem deveria ter partido pela manhã, logo cedo com a viagem do barco. Ao contrário, deixou em si uma presença impossível, como as sombras dos pássaros que ficam, quando longe eles já voam. Seja por seu lado mais humano, seja por sua grande tolice em querer acreditar no amor que ainda era capaz de sentir, deixou.
Na noite de quinta-feira da semana que passou, Celton ligou para Pedro, depois de muitos dias, aliás, depois de meses de silêncio e afastamento. Aquele início de conversa duro. Como se procurasse palavras, motivos, algo que ajudasse com que as coisas avançassem. Eram mais de oito horas da noite, as janelas da sala estavam abertas e vinham muitos barulhos da rua. Não tinha mais ninguém na casa além de Celton, isso lhe deixou mais à vontade para ligar.
– Alô, Pedro? Tudo bem? Estou te ligando para te... – então ficou mudo, não achava o motivo real de ter ligado e não soube mentir.
– Oi, sim, sou eu Celton! Estou bem e tu? Falar sobre o que rapaz?
– E aí cabeção, falar sobre tua vinda aqui na ilha – Celton falou tentando quebrar o gelo.
– E aí? Ah sim, minha ida, fiquei te defendo essa realmente – disse Pedro um pouco seco, parece que a tentativa de Celton não dera certo.
Celton estava um pouco nervoso. Sentou no sofá e respirou um pouco antes de retomar a conversa. Parecia que era muito difícil para ele.
– Pois é... Te liguei para perguntar, porque tu me bloqueaste no WhatsApp?
– Não te bloquei – disse Pedro um pouco firme.
– Bloqueou sim, eu vi que estou bloqueado.
– Não, eu não te bloqueei. Só apaguei teu número.
– Como pode ter só ter apagado meu número? Só? Isso é pouco?
– Tu ficaste estranho também, não falavas comigo. Achei melhor me afastar.
– Certo, tudo bem. Me aborreci contigo, tu disseste que verias me visitar e não veio, te esperei em vão.
– Não deu certo. Tive outro compromisso.
– Tudo bem. Se quiseres podes vir amanhã, ficas em casa comigo e minha família. A gente conversa um pouco sobre nós dois, e tudo que não aconteceu e tudo o que ainda pode acontecer. Tu sempre dizes que me amas, acho que essa é a hora de me mostrar, provar alguma coisa, atravessar e vir me ver. Preciso de algum gesto teu também, sempre sou eu que vou atrás e te procuro.
– Tá certo então, eu vou. Para falar a verdade, ando com saudades de ti. Tens dias que passo o dia todo lembrando de nós dois. Não consigo te esquecer e não encontrei outra pessoa, um sexo igual ao seu... Cansa conhecer outros caras, cansa. Os caras e suas mentiras. Parece que é sempre a mesma coisa...
– Tens razão, cansa procurar outra pessoa e sempre acabar em suas piscinas rasas de mentiras e máscaras. Bom, sabes como chegar aqui, vou te esperar.
Na sexta pela manhã Pedro chega. Celton o recebe em casa, com cada cômodo arrumado. Com cada parte do seu corpo um pouco estável, estava nervoso. Estava preste a completar um ano que tinham se separado e cada um vivendo num lugar diferente. Poucas vezes se viram depois disso. Agora Pedro tinha vindo lhe visitar. No meio da tarde foram para a praia de moto. Pedro parece tão meigo e carinhoso. Por algumas horas tudo parecia uma continuação do que foram, do que se perdeu.
A praia estava com o mar alto. Deixaram os chinelos, as camisas e a bolsa na areia e foram mergulhar. O silêncio das ondas. Das águas. Na parte maior de toda a criação. Tudo lhes invadia o corpo numa chama azulada. Se olhavam como dois garotos descobrindo a sexualidade, mesmo não sendo mais garotos, mas sim dois homens solitários. Celton sente no ar o cheiro que sempre encontrou na pele de Pedro e pensa com carinho sobre isso. Todo o mar. As profundas maneiras de se amar, mesmo quando tudo deu errado, mesmo quando houve traição e uma voz ferida grita em lembrança essas dores. Celton sente que é necessário fechar os olhos e só sentir. Salgada água do mar agitado. Então disse, em meio sussurros e gritos contidos, sempre aproximando e abraçando o outro:
– Continuas com o mesmo cheiro, nunca esqueço, é então bom, tão bom. Ter você aqui é tão bom...
Pedro pergunta que cheiro é esse. Celton só lhe diz: – É o teu cheiro, o cheiro de sempre, o cheiro que sempre sinto quando deitávamos juntos a noite para dormir, o cheiro que estava na casa quando eu acordava ao teu lado, o cheiro presente a cada vez que voltávamos porres das baladas. O cheiro que nem o álcool era rapaz de afastar, nem o sexo, nem a fumaça dos cigarros. O teu cheiro de homem. – Depois baixou os olhos por alguns segundos e percebeu a águas correndo lentamente, levantou os braços e abraçou Pedro. Pedro lhe diz – Eu sei muito bem do que falas, também sinto teu cheiro. O perfume de sempre, só teu, que existe só na tua pele, com ou sem mar e sal, com ou sem raiva, o teu cheiro que sempre lembrou o amor. Como no dia que tirastes minha virgindade, teu toque suave, tua pele molhada e o cheiro forte do homem que passei a amar, tu Celton. – Quando Pedro parou de falar, deixou seus lábios tocarem os de Celton. A tarde estava preste a se findar, tinham poucas pessoas na praia e os dois abraçados dentro do mar balançavam com as ondas. Não era preciso falar nada, só os beijos eram suficientes, os toques, o profundo abraçado carregado de amor e saudade.
***
Depois do almoço voltou para o continente, na última viagem do dia. Necessário. Seu cérebro fervilhava. Pensou consigo mesmo que não poderia continuar ali, tinha que fazer alguma coisa para distrair. Além dragas, das fugas. Arrumou sua mochila. Poucas roupas. Olhou na carteira e tinha dinheiro, o suficiente. Não tinha ninguém para avisar de sua ida. Sua família estava fora. Ainda em viagem, antes do barco aportar em Belém, passou mensagem para um amigo, lhe convidando para sair. Caique aceitou o convite e ficaram de se encontrar antes na casa de Celton. Só a noite sairiam para uma festa. Quando chegou em sua casa, quarto pequeno numa vila na periferia da cidade, abriu as janelas. O cheiro de mofo era muito forte, embriagava mais sua dor. Depois trocou de roupas e sacudiu os panos da cama. Se sentou e ficou olhando para suas pilhas internáveis de livros, livros e mais livros. Tudo só e na solidão. Foi até a cozinha e encheu sua taça com Campari. Bebericou levemente.
Antes do fim da tarde, Caique chegou, trouxe mais bebidas. Celton já tinha tomado banho e feito outra refeição. Trocaram conversas, falaram um pouco da universidade e os planos de futuro, e quase todos estavam ligado as mudanças para o interior. Caique era um rapaz de origem indígena, baixinha e com os olhos finos, há pouco menos de um ano se formou em engenharia. Foi no passado quase namorado de Celton, mas hoje apenas amigos. Caique lhe pergunta enquanto segura sua bebida nas mãos e colocava música para tocar, confundido os sons:
– Sim, amigo, me conta: como foi a ida do Pedro até a ilha contigo? Vi que rolou altas fotos – deu um riso fino – até fiz prints dos status que tu postasses nas redes sociais.
– Na verdade, na verdade foi até um fim de semana bom, gostoso, não posso negar. Mas me sentir bastante usado, pareceu que ele só queria passear. Chegou com a conversa que me ama, que não sabia mais viver sem mim, que eu era tudo para ele – Celton já tinha bebido o suficiente para falar a verdade sem medo, estava sentado e seus olhos pareciam profundos, como se cavalos o pisassem ao correr, deu uma pausa ao beber e continuo, tanto mais profundo, como se as palavras fosse leves – mas era só eu falar em namoro... Em relacionamento sério, ausência de traições e mentiras, que ele se afastava, dizia que não estava preparado, que era jovem demais, que precisava de tempo. Mas que tempo? Estamos há meses separados..., mas o pior mesmo, é que no fim das contas, tive que suportar ele falando que seus amigos me acham um homem ruim para ele, como, como é possível?
– Mas amigo, o Pedro sempre foi assim, sempre te usou demais e nunca mostrou quem ele é de verdade perto dos amigos dele. Mas não fica assim. Vamos beber mais um pouco. Eu não preciso eu te lembrar o quanto tu és especial, não é? li sua crônica que saiu essa semana no jornal, sobre luto e o amor, extremamente foda, perfeitamente foda, tu és foda amigo. Ah, lamento a morte do teu pai em meio a essa pandemia.
– Que bom que tu leste, amigo. Mas vamos para de lamento. Hoje preciso ser feliz. Let’s go, let’s go my friend.
– Come on!
Chegaram um pouco cedo para a balada, ainda não tinha ninguém na frente. Estranharam o fato de não ter fila. Celton olhou no Facebook a página da casa noturna para ver se estava certo o horário. E estava. Ficaram conversando e chegou mais uma pessoa, um rapaz magro que ficou fumando próximo, e disse que estava esperando mais alguns amigos. Com um pouco mais de meia hora, tinham pessoas suficiente para abrir. Celton e Caique compraram um combo de caipirinhas e tomaram violentamente. Ainda estava cedo e a maioria dos gays na festava parados conversando, só eles dois estavam dançando freneticamente na pista. Quando um copo secava logo era trocado por outro. A festava estava começando mais cedo e acabaria mais cedo, chegaram no fim da tarde e ficaram próximo ao bar e um pouco mais longe da pista de dança. As paredes eram escuras e as luzes ganhavam um efeito maior. Celton fechava os loucos e dançava, como se permitisse que toda a dor saindo. O álcool ia anestesiando, os pés pareciam leves, assim como todo o corpo com toques profundos, como se fosse num lugar distante e voltasse.
A noite passou. Ambos beberam muito. O darkroom estava aberto, Celton apesar de ter se prometido que não entraria mais naquele tipo de lugar, entrou. Sentou, sua cabeça estava girando. Tinham alguns casais se beijando, e que depois se beijaram entre si e as roupas iam sendo tiradas. Alguém puxou Celton pelo braço e lhe beijou, enquanto outro cara passava as mãos por seu corpo, e ele passou as mãos em alguém, estava muito escuro, só se podia sentir as presenças, mas não ver quem era quem. As coisas foram ficando quentes. Beijos e mais beijos que depois iam descendo pelo corpo e de repente sexo oral. Exatamente não teria como dizer quantas pessoas estavam ali se envolvendo. Celton se permitiu sentir tudo, e da maneira que fosse capaz de esquecer tudo que por dentro doía. Porém, dentro do escuro, sobre o ritmo do instinto e do sexo, alguém se aproximou mais, lhe empurrou para a parede e lhe beijou, o tirando do meio da orgia, alguém naquela escuridão queria só ele, beijar por algum momento, só sua boca. O beijo. As mãos que desciam e subiam. Camisas no chão. Calças nos pés. De repente um penetra no outro, tão natural, que nem precisou de aviso ou luz, como se o amor fosse um segundo de perdição. Celton sentia como se fosse tocado com afetividade, com carinho, com desejo, sentiu como se alguém fosse capaz de encontrar nele as coisas que ele mesmo tinha perdido na sua submissão, no seu medo, na sua tristeza e insistência em algo que só lhe fazia sofrer. O rapaz era um pouco mais alto e tinha os cabelos lisos, por onde Celton passava os dedos e sentia um pouco úmido. O rapaz lhe sussurrava aos ouvidos, mas nem sempre era possível ouvir, a música lá fora estava alta demais, Celton queria um nome e pediu dele, ele disse, disse que seu nome era Thiago, Celton disse o seu. Mas sabia que tudo deveria terminar ali mesmo, mas também sabia que poderia aproveitar o máximo possível, então esqueceu as horas e se entregou ao rapaz.
Saiu do dark bem depois com as roupas amassas e o cabelo bagunçado. Olhou para os lados procurando Caique. E o encontro vomitando num lixeiro, tinha passado dos limites como sempre, “até ele naquela noite tinha passado dos limites” pensou Celton. Caique lhe pegou pelos braços e disse que deveriam ir embora, que ele não estava bem. Desceram as escadas cambaleando. Chamaram um uber e foram dormir. Pela manhã quando Celton acordou sentia uma dor de cabeça muito intensa e no peito um mar calmo de emoções, seu o amigo ainda dormia bêbedo ao seu lado.
Marcos Samuel Costa é
escritor, poeta e editor. Vive entre as cidades de Ponta de Pedras/Ilha de
Marajó e Belém do Pará. É ribeirinho e de origem quilombola e indígena. Cursa
Serviço Social na UFPA. Ganhou o Prêmio Dalcídio Jurandir em 2020 com o romance
"O cheiro dos homens"(Inédito), e tem 12 livros publicados. Sua
escrita trabalha muitas das vezes com temática homoafetiva e raciais.

.jpg)

Comentários
Postar um comentário