Nossa senhora da maniva cozida - conto de Gigio Ferreira
Lá para dentro de um rio chamado Paracadaúma, já quase na curva final de uma grande ilha conhecida em toda a região como Pontal dos Sapateiros, localiza-se uma comunidade muito conhecida chamada: Furo dos Barqueiros. Essa comunidade é formada por mais ou menos trinta e cinco clãs familiares, quase todos negros e indígenas. Vivem basicamente da pesca, do plantio da mandioca e do comércio de panelas que lá fabricam.
E como eles fazem quando adoecem? A resposta será basicamente a seguinte: remédios caseiros fabricados pela tradição curandeira dos seus antepassados. Médicos por lá somente no período de eleições em campanhas políticas. Após isso, a saúde pública por lá fica entregue aos cuidados dos velhos curandeiros e parteiras. Não existem aparelhos de televisão. Apenas algumas frequências de algumas rádios caribenhas e ponto final. Duas casinhas palafitas servem de igrejas; uma luterana e outra católica. Mas a maior parte dos doze meses do ano, as portas de ambas permanecem completamente fechadas, tanto pelo lado de dentro, quanto pelo lado de fora. A rotina é acordar cedo e dormir mais cedo também. Mas isso não impede que números e dados da densidade demográfica fiquem paralisados, ao contrário, as gerações são encomendadas em todas as quatro estações do ano. De manhã, de tarde e de noite. Em algumas vezes, em horários variados também, afinal, eles utilizam as vinte e quatro horas disponíveis como tempo cronológico. Então o número de idosos sempre foi inferior ao número de meninos e meninas nascendo por lá. Fartura de peixes, açaí, frutas diversas, farinha de mandioca e, em dias de grande festa, a suculenta maniçoba ou pato no tucupi!
Vivem isolados e desassistidos pelo Estado. Uma cruel realidade constatar isso, mas isso também não constitui impedimento para as alegrias fortuitas da boa mesa nas festas de algum santo.
Seu Nerito já havia completado 80 anos. Aquele olhar mais manso, cabeça completamente branquinha, andando lentamente ao arrastar as sandálias, muito estimado por jovens barqueiros, pois quando jovem, seu Nerito havia sido um prático muito requisitado em Belém do Pará. Ganhou muito dinheiro com essa atividade, mas diziam também que seu Nerito havia perdido boa parte do seu patrimônio com o vício da jogatina e a frequência assídua aos lupanares do bairro da Condor em Belém. Como havia parado por lá, isso quase ninguém conseguia explicar direito.
Quando um ancião morria, todos os habitantes cumpriam luto oficial. Mas recentemente, óbito algum ocorrera na comunidade nos últimos cinco anos. Talvez a boa longevidade se devesse ao pouco consumo de sal e açúcar.
Foi quando o sábado acordou com os gritos dos papagaios vindos de outras ilhas assustadas. Dona Pequenina, sua esposa, o chamou para tomar o café da manhã. Estranhou seu Nerito enfurnado na rede naquele horário. Cutucou o velho Nerito por mais de duas vezes e, nada. Desistiu e foi dar de comer aos patos e galinhas. Ao retornar para dentro da casinha, tornou a chamar seu Nerito. Na terceira tentativa, saiu gritando pelas grandes estivas que servem de ruas e passagens aos moradores da comunidade. Isso acordou todo mundo. Despertados pelos gritos apavorados de dona Pequenina, já aos prantos, dizendo que o marido, seu Nerito, havia falecido. Naturalmente que foi consolada quase de imediato pelas comadres e compadres. Alguns foram providenciar o funeral. O caixão, invariavelmente era a própria rede que o defunto dormia quando estava vivo. A cova era aberta e lá depositavam o cadáver. São assim os sepultamentos em Furo dos Barqueiros. Já aqueles com condições financeiras melhores, deslocavam-se com os seus mortos para o município de Ilha Grande, onde havia funerárias vendendo caixões de madeira e um cemitério público que atendia a todos, sem distinção de nenhuma de ordem.
Quando seu Zé Preto colocou a mão na boca de seu Nerito, sentiu uma leve respiração. Isso chamou sua atenção. Mandou então chamar dona Minervina, a parteira da comunidade. Minervina quando novinha, havia trabalhado como auxiliar de enfermagem em Belém do Pará. Dizia entender das agonias da morte. Minervina ao chegar à casa do seu Nerito, foi logo dando ordens para que os curiosos todos se afastassem, pois segundo ela, aquela multidão poderia sim, daquele jeito, matar sufocado qualquer vivente com boa saúde. Os curiosos ficaram do lado de fora do imóvel, que naquelas alturas dos acontecimentos, a população toda por lá já se encontrava.
Quando Minervina aproximou-se do cadáver de seu Nerito com uma vela acesa, todos se calaram, houve uma expectativa enorme no recinto, Dona Pequenina apenas gemia baixinho. Quando a vela acesa empunhada por Minervina ficou bem próxima do nariz do falecido, a surpresa, seu Nerito ainda estava vivo! Após essa afirmação, houve uma gritaria ensurdecedora no ambiente. Muitos saíram da casa para espalhar a notícia pelo vilarejo. Como fora possível averiguar isso? Dona Minervina apenas riu levemente irônica e disse:
- Dona Pequenina, seu Nerito ainda está vivo!
- E por que ele está com os zoios fechados ainda?
- Seu Nerito teve um passamento!
- E como é que ele vai acordar?
- Vou mandar trazer algodão molhado no álcool!
Quando o algodão embebido no álcool chegou, dona Minervina esfregou na entrada das narinas do seu Nerito. E para a sua decepção e surpresa, seu Nerito não acordou. Aí dona Minervina pediu um tempo para ir apanhar em sua casa um remédio caseiro para passamento. Quando foi embora, entrou na residência de dona Pequenina o Pastor Ronaldo. Chamou a quase viúva e disse que através da oração seu Nerito encontraria novamente a luz do dia. E o Pastor Ronaldo ficou cinco horas orando alto e forte, com uma das mãos sobre a cabeça do seu Nerito. E após a última oração, o Pastor finalmente disse:
- Em nome de Jesus, te peço, senhor, faz acordar esse teu filho!
E para espanto geral, seu Nerito sequer mexeu as pálpebras. Um fiasco total a intervenção do Pastor Ronaldo. Que já muito cansado e exausto, alegou culto em sua igreja, que seria logo mais, de noitinha e, assim ele foi embora. Já quase chegando o fim de tarde, apareceu o Pai Sandoval, com o pescoço lotado de colares e uma roupa extravagante. Pediu licença para a dona da casa e entrou. Ao chegar perto do defunto, disse que na verdade aquilo fora um “trabalho”. Seu Nerito havia sido vítima de magia negra e outros babados. Mas dona Pequenina logo interveio de forma incisiva dizendo:
- Meu velho não fazia mal pra ninguém!
- Mas dona Pequenina...
- Como podem ter feito isso com ele?!
- Gente má tem em todo canto e lugar...
- Ah, isso é verdade.
- Vou fumar um Tauari pertinho da cabeça dele, cê vai ver, ele vai acordar bonzinho!
E a fumaceira foi intensa na casa de dona Pequenina. E após longas horas fumando e baforando seu exótico cigarro, a surpresa, seu Nerito sequer mexeu as sobrancelhas. E já extenuado pela fumaça que havia engolido, Pai Sandoval pediu licença e disse que precisava descansar, pois naquela mesma madrugada, em seu terreiro, haveria um grande e belo ritual para o caboclo Rompe-Mato. E assim, ele também foi embora.
Já quase amanhecendo o dia. Dona Pequenina saiu para providenciar um médico ou o enterro para o seu marido. Ao sair do vilarejo, foi avisada de que a comadre Piaba queria muito falar com ela. Comadre Piaba trabalhava como merendeira na única escola do vilarejo. Isso meio que assustou dona Pequenina, pois o que queria a comadre Piaba? Se ela não era Mãe de Santo, não era Enfermeira e, muito menos Pastora, que diabos ela pretendia? Será que era alguma confidência amorosa? Ou seriam cobranças de dívidas? Pelo sim e pelo não, resolveu ir ao encontro da comadre Piaba; ao encontrá-la, recebeu efusivas manifestações de pesar:
- Ô minha comadre Pequenina, soube hoje pela manhã que o compadre Nerito foi dessa para melhor!
- Foi não...
- Não morreu? E como o povo está dizendo que morreu?
- Ah, esse povo fala muito!
- E o que é que houve com o compadre?
- Tá lá dentro da rede, não fala, não ouve e nem abre os olhos! Mas ainda está respirando, sim senhora!
- Poxa, isso é passamento, comadre Pequenina!
- Ah, isso todo mundo que foi lá hoje em casa também me disse!
- Comadre Pequenina me permite levar uma comidinha ao compadre Nerito?
- Mas ele não abre nem os olhos, que dirá a boca!
- Mas essa comidinha que levarei ao compadre Nerito, levanta defunto!
- Tudo bem, passe lá em casa!
Dona Pequenina quase acha graça na cara de comadre Piaba. Quando retornou para a sua casa, não demorou nem vinte minutos e, lá veio chegando comadre Piaba com um grande alguidar exalando uma comidinha maravilhosa. Quando comadre Piaba colocou o alguidar sobre a mesa de refeição, disse em voz alta:
- Soube desde ontem que o compadre Benezinho estava preparando uma maniçoba adubada! E na maniçoba do compadre Benezinho, vai tudo dentro, hahahahahahahaha!
- Mas dar maniçoba para um doente já quase morto!?
- Comadre Pequenina, é o que está faltando dentro dos buchos do compadre Nerito!
- Você acha isso?
- Mas é claro! Na segunda colherada, esse macho véio vai levantar dessa rede aí!
E como todos dentro da casa estavam incrédulos, comadre Piaba aproximou-se bem devagar do morto. Abriu a sua boca lentamente e, dentro depositou uma colherada da maniçoba adubada do compadre Benezinho. E para espanto geral, seu Nerito abriu os olhos! Foi uma gritaria ensurdecedora dentro e fora da casa! Muitos saíram correndo para espalhar que o compadre Nerito havia ressuscitado com a comida da comadre Piaba. Nerito levantou-se de sua rede ainda meio sonolento. Mas ao sentar-se à mesa, pediu molho de tucupi com pimenta de cheiro. Despejou sobre o alguidar contendo a suculenta maniçoba do compadre Benezinho.
Depois disso, dona Pequenina não quis mais falar com a comadre Piaba. Dizia ela que a merendeira da escola, na verdade, estava era de olho no marido dela. Compadre Nerito durou foi muitos anos na Terra. Passou dos cem anos de idade. Hoje em dia, a única festa nesse lugarejo distante da capital, é ironicamente chamada de: Nossa Senhora da Maniva Cozida! E quase todos os anos, antes do Natal, eu me mando para lá, já que não sou leso e nem besta!
Gigio Ferreira nasceu no dia 22 de junho de 1967, em Belém do Pará. Cursou Letras. Sua estreia se deu com a publicação da dramaturgia infantojuvenil, O gringo da Matinta (2014), em parceria com a escritora Miriam Daher, pela Editora Giostri-SP. Com exceção do livro O Palhaço de Arame Farpado (2016), poesia, pela Editora Penalux, as suas oito obras publicadas, foram pela Editora Giostri. Atualmente possui dezoito livros inéditos aguardando publicação.

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