Oito poemas de Marcos Ioshua

 

(Vivian Maier)

ORAÇÃO ENQUANTO CAMINHO.

 

Caminhante, são tuas pegadas

o caminho e nada mais;

caminhante, não há caminho,

se faz caminho ao andar

 

Antonio Machado.

 

Senhor, como é bom ser um caminhante

Caminhar por caminhar

Florescer sem os porquês

Sem as desculpas

Apenas ser com a totalidade do verbo

Como é bom caminhar ao entardecer sentindo a alma se dilatar

Como é maravilhoso ter camaradas que sorriem ao me ver

Conhecidos que me respeitam

Ver que as crianças correm

E se abraçam

Como é alegre ainda ter uma mãe para beijar

Ter a ilusão de que o céu se clareou

Apenas para a minha observação

Divisar prédios a distância

Amar a luz do sol

Reparar que as nuvens conversam sobre

A infância o tempo o verde o mar

Como é indispensável ser apenas sentidos

Olhar desaprendendo a maldade

 

Mas, me livre da auto piedade

Da sensação que a qualquer momento

Vou me destroçar contra os muros da ansiedade

E desse sentimento de culpa

E de que sou o mais infeliz dos homens

Da minha cólera infundada

Do meu nojo por um passante

 

Mesmo que eu tenha que ser amarrado num cometa

Privado da beleza

Me dê um coração onde cabe todos os homens

Onde cabem todas as mulheres

Com suas conversas suas angústias

Seus pesadelos

Seus momentos de tensão

Que eu me reconheça no meu próximo

Ame sem esperar compreensão

E aceite a singularidade de cada um

E tenha um lugar interior reservado

Aos que sofreram a falta do pão

A decadência a opressão

A miséria a que todos estamos sujeitos

Me dê senhor uma vontade de chorar gratuita

E que eu aprenda escutar e ser útil

Que eu seja o medo desse medo de naufragar

 

 

DAS INUTILIDADES.

 

Fumar não adianta

Tocar na mão de mulher não adianta

Andar de bicicleta não adianta

Contar os pássaros não adianta

Caminhar não adianta

Beber não adianta

A angústia dura e explode

O estômago

Viver não é possível

Morrer não adianta

 

 

ACIDENTE DE JUVENTUDE.

 

Tenho 21 anos e não converso com Deus.

Tenho 21 anos e sou arrastado

Por um susto do passado.

Tenho 21 anos e quando falo

Corre um rio de náusea e ansiedade.

 

 

ÂNSIA.

 

Vomitar meu ódio e descaso sobre todos os passantes.

Gritar até que o grito seja um pássaro em fogo.

Rasgar a carne dos dias.

Destruir e vandalizar a cidade inteira.

Roubar fuzis e proclamar morte à normalidade.

Eis meu desejo.

 

 

METAFÍSICA NUMA TARDE QUENTE.

 

Melancólico sento inclinado na janela do ônibus.

O caminho é curto. Penso em Deus, na metafísica, na solidão, no trabalho

Em tudo que posso levar no magro coração.

(Magro de se fatigar)

Alguns dias são pouco preenchidos.

Passam velozes e me acenam

Para nunca mais voltar.

Uma ansiedade corta os ouvidos

Risca os pulsos

Comprime meus olhos

Muda minha cor.

Preciso de ocupações

Pois não suporto mais o tédio

Não suporto a nulidade

O vazio de não ser.

E sinto vontade de destruir as palavras

E delas criar um corpo

Onde apenas o sol doure

E as nuvens abracem todos os pássaros que vi quando criança.

 

 

QUATRO CANÇÕES PARA A LIBERDADE.



        I



Sai daqui meu canto

que ilumina de beleza

e é natural como o pranto



aves, águas, sol

canto que traz a liberdade

como deusa e farol



nuvens e margaridas

tenho como musa

trago o sentir dos suicidas



mas também em arrobas

a alegria da cor azul que também

é do povo e ninguém rouba



apesar do caminho incerto

soturnidades e morteiros

tatuo vida onde foi posto desespero



      II



Nasci na espera desse verão

meu corpo te procura

seco de desejo como uma cerração



passam dores, dados, calendários

espero um sorriso dela

por isso até pus flores nos armários



cresço para ela, cresço

para seus braços

quero dela o endereço



chagas de carências,

quem tens tu Liberdade,

possui o amor e todas as ciências.



       III



Liberdade me acena

por de cima dos escombros

e dos terrores em cena



Liberdade está no futuro

como semente de trepadeira

que ainda subirá num muro



Liberdade: esse vento

que passa no rosto

mesmo que só por momento



Liberdade-o povo te esperas

teu nome contém

a utopia e o bem querer de todas eras




     III



Sou a lua brincando em teus cabelos

sou teus olhos de girassóis 

sou teus prazeres e zelos



sou teu corpo de pássaro

tua cabeça de sonhos

sou teus braços cor de barro



onde quer que vás, atrás eu vou

de tanto te buscar

Liberdade- quase te sou

 

 

TRÊS CANÇÕES PARA O CAMINHANTE.



       I

Caminhar sobre o caos

sobre os dias lindos

e os dias maus



não há nada além de caminhar

caminho pois espero

que o tempo floresça em mar



estrelas mulheres crianças

caminham com meu corpo

enquanto para mim a morte avança



 II



O destino pouco importa

o que o caminhante deseja

é do último sentido abrir a porta



e por isso, vive pela travessia

a morte irá o beijar ao final

o que vale é o caminho ser alegria



de amor o caminhante se infesta

ao caminhar ele percebe

que o mundo é uma festa



III



Atrás do caminhante

um teatro de amarguras

seus olhos luzem pelo adiante

o segredo de tudo

está em mover os pés

e não deixar o coração surdo



caminhar e o resto é nada

o paraíso do caminhante

é uma avenida vazia e iluminada


(Eudes Rocha)





Marcos Ioshua tem 22 anos, solteiro, estudante de LETRAS-ITALIANO, entrevistador do programa Retóricas.

Apaixonado em simplicidade e em contemplações.


curadoria e edição de Marciel Cordeiro
Variações revista de literatura contemporânea
2020

II edição

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