Uma leitura de HISTÓRIAS DE CHUVA (De Douglas Oliveira , Editora Folheando) por Ana Meireles.

 

Uma leitura de HISTÓRIAS DE CHUVA (De Douglas Oliveira, Editora Folheando) - por Ana Meireles.


O momento que se inicia a leitura de um livro é de especial importância para mim. Logo me vem em linha de frente o título da obra e a razão de sua escolha. Daí não é preciso muito pensar que conhecer o conteúdo de um livro possibilita um mundo de descobertas. Fazendo-se  urgente adentrar no modo de transfiguração do autor ao buscar assentar suas  ideias traçando um enredo para um romance.

A questão que a mim se apresenta é: O título vem antes ou no decorrer do desenvolvimento da narrativa? Bom, esse particular cada autor sabe de si. Eu, como leitora, tragada pela palavra chuva presente logo na capa, não me furtei a pensar nela como abundância, especialmente aqui na nossa região Amazônica. Desta forma entrei nele, Histórias De Chuva, sem desviar da percepção de que se trata de um romance molhado, encharcado pela água da chuva, dos rios, em imagens presentificadas nas falas dos personagens. Trata-se também do simbolismo que carrega o mágico a atravessar a realidade do povo nativo de um lugar e a expropriação que sofre com o advento do progresso. O vilão que provoca segregações e faz compreender que “a jornada começa onde finda o conhecido caminho”. Sobreviver é preciso, mesmo que seja através do sonhar. Apoena bem sabia disso.

A morte perenemente espreita os que a terra ousam amar, cujos donos originalmente eram os deuses antes de os homens e o seu progresso instalarem sua des-humanidade encarnada em espírito explorador e devastador. Tornando a vida de uns tantos preenchida de ausências, como se o ontem fosse sempre o hoje, numa clara alusão da impossibilidade do futuro.

Histórias de Chuva é um embrenhar-se na floresta densa das palavras carregadas de significados e significâncias. Palavras soterradas nas raízes dos sentimentos, nas dores do viver.

Aconteceu de, por momentos me sentir emaranhada nos galhos das árvores de palavras. Com a compreensão borrada de impressões fugazes que impediam o clarão do entendimento. Todavia, este logo se fez clareira, mata que se deixava penetrar pela claridade do sol abrindo-se em conciliação com o alumbramento dos sentimentos nas narrativas de natureza mítica.

Ler Histórias de Chuva é ler sobre eles, os sentimentos, os sofrimentos que permeiam as questões relacionadas à terra e o que dela e em relação a ela pode ser explorado: O minério, a madeira, o trabalho desumano na faceta cruel da escravidão, da exploração e roubo da infância e da inocência conduzindo à prostituição. É um romance rico de imagens, de uma escrita que concede fatias de leitura filosófica do viver, como se verifica na assertiva: “ - Menino, é necessário se fazer escutador para alcançar o entendimento”; A importância de um defensor para ouvir as queixas e lamentos. Parabenizo o autor e recomendo a leitura.


ANA MEIRELES em 11/10/2020

Comentários

  1. Obrigado, Ana Meireles, por sua leitura. E à revista Variações pela publicação da resenha.

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