Julián Fuks e as formas de habitar a cidade em seu romance “A ocupação”
Romance: A ocupação. Autor:
Julián Fuks. Editora: Cia. das letras, 2019.
Acompanho e leio Julián
Fuks há algum tempo nas redes sociais. E tenho gostado muito do que venho lendo
e conhecendo do autor. Admiro a forma atenta com que olha o mundo e seus
acontecimentos. Como se fosse um Drummond dos artigos de opinião e crônicas. Pois,
nele, como em nosso poeta mineiro, encontramos lucidez, poeticidade e um grito
profundo do real. E quando iniciei a leitura do romance “A ocupação, me vi perante
um autor ainda mais sensível e poético, e isso me surpreendeu.
Ontem terminei a leitura
do romance “A ocupação” do autor. E essa leitura me tocou por vários motivos. Mas
quero começar escrevendo sobre o tema do livro, ou um deles, a habitação nesse
país. Mesmo sendo um direito fundamental de todo cidadão, habitar ainda se
mostra um desafio para as classes menos favorecida. Venho estudando habitação
desde a graduação em Serviço Social na UFPA. Na instituição frequentei por anos o Grupo de Estudos e Pesquisas Cidade, Habitação e Espaço Humano (GEP
CIHAB/PPGSS/UFPA), que estuda e pesquisa o tema. O que me levou até
ele foi o desejo de estudar a cidade e seus conflitos para o uso e ocupação dos
espaços. Entender que na moradia existe o peso do capitalismo com seu valor de
mercado, a manifestação da ideia do centro e a periferia, e seus constante
conflito.
Porém, o que temos nesse romance,
é um aprofundamento do humano diante dessa crise de moradia, do habitar e ocupar
os espaços com dignidade e garantia de direitos. No “A ocupação” encontrei tudo
isso.
Morei entre 2015-2022 em Belém,
mas como trabalho no interior do Pará, passei a morar em Ponta de Pedras no Marajó.
Mas em ambas as cidades o conflito entorno da habitação tem outras maneiras de
se manifestar, observa-se de maneira mais profunda que, as classes proletárias ocupando
as áreas de baixadas, várzeas e áreas distantes dos grandes centros. No romance
acompanhamos outra maneira desse grande “problema” brasileiro, a ocupação de
prédios abandonados, das ruas da grande cidade e as formas como as mãos do Estado
agem e subjugam.
Mas fiquei refletindo a
partir da leitura, quem são essas pessoas, seus rostos e suas vozes. E na
leitura, vamos – mesmo que de forma tão sutil, reconhecendo em semelhanças
esses personagens/atores, que como observa-se na narrativa, não querem apenas
um teto, mas sim garantia de moradia. Vão reagindo mediante as lutas de
classes, aos movimentos socais e organizações sociais. E esse foi para mim, um
ponto autor do livro. É importante esse (re)conhecimento que a habitação é um
direito, mas não uma garantia, que o conflito é um fato, assim como a violência.
Que existem muitos corpos & vidas ocupando espaços, resistindo e tem um processo
histórico que os levaram a ocupar.
Outros aspectos que me
chamou a atenção nessa leitura, foi propriamente dito a estética da escrita do
livro. Os capítulos curtos, mas profundos, cheios de simbologias e imagens que
iam nos carregando para dentro da leitura. Como se fossemos passando a sentir em
nós mesmo – pois são também conflitos nossos - eu por exemplo moro/morei muitos
anos de aluguel na periferia de Belém, sofrendo diariamente esse processo segregador.
Outro ponto é quanto o diálogo
entre vida e morte que o livro vai desenhando, um pai no leito de morte e uma jovem
mulher gravida. Mas em ambos os casos o autor nos convida a outra leitura sobre
a situação. Não irei detalhar para não perder a graça da leitura. E para fechar,
preciso dizer o quanto fiquei impressionado com a confusão boa criado entre o
personagem-narrador e o autor pessoa Julián, foi apaixonante, um ponto alto. Outro
ponto alto foi as cartas que surgem dentro do livro entre dois autores, quebrou
o fluxo narrativo, mas presenteou a leitura. Espero que vocês também leiam e se
apaixonem por esse livro.
Marcos Samuel Costa, escritor e poeta. Editor da Revista Variações e Assistente social
dia 05/06/2023
Ponta de Pedras, Marajó, Pará - Amazônia brasileira.
Variações: revista de literatura contemporânea
.jpg)

Comentários
Postar um comentário