*Entrevista concedida por Ayholândia Moraes para Marcos Samuel Costa da Revista Variações em 17 de julho de 2024.
01 - Ayholândia, nos fale um pouco do teu processo de escrita. E além disso, nos fale também de ti, quando está escrita começou e por que ela começou?
Engraçado ... em algum lugar no tempo, fechei meus olhos e imaginei que algum dia, alguém me faria essa pergunta. (Que honra a revista Variações ter me trazido a realização deste desejo.)
...
Escrevo desde muito miúda. Nos quintais de minha infância, escrevia palavras de amor no chão, nas paredes de meu quarto - um pouco mais crescida, rabiscava trechos de canções da MPB ou das apostilas trazidas pela professora marxista que lecionava filosofia da educação no magistério. Aos onze anos, ganhei meu primeiro diário. Nele, fazia colagens, rabiscava poemas e confidências. Os cadernos sempre estiveram e estarão comigo. Quando os abria (e abro) e ficava (e fico) diante da página em branco, vinha (e vem), uma espécie de analgesia e liberdade. E tudo o que me dói, vai embora.
Até que me viesse "Onde moram os passarinhos* - livro que escrevi em parceria com a trupe pé de poesia - eu escrevia para guardar, ou melhor, para me guardar. São coisas, portanto, que tinham valor para mim. Nenhum literário. Depois dele, por meio da contação de histórias, sobretudo, entendi que a palavra trazida por meus dedos e levada por minha voz aos ouvidos de quem me escutava faziam bem aos olhos. Havia um descanso na pupila.
E, menina gente (não mais dos olhos, descansava).
Comecei então a me arriscar. Porque sim, escrever é risco, literalmente.
02 - Como as infâncias se manifesta na tua escrita e como a tua escrita se manifesta nos modos de pensar as infâncias?
Tudo o que escrevo, de algum jeito, é um retorno às infâncias. À minha própria ou das pessoas que escuto (amo escutar em infância ou sobre infância). É como se, viesse de lá, a coragem para escrever, a argila. Não sou mais eu, Ayhô, mas alguém que quer dizer ao mundo do quão sagrado é este tempo da vida e do quanto ele precisa ser preservado, cuidado. "A infância é o chão que a gente pisa a vida inteira", alguém disse e eu anotei pela verdade que guarda.
Não existe um fechar de portas. Para dar conta dos percalços da vida adulta, para afastar os fantasmas que nos assombram, sim a gente toma a mão da menina, do menino, que um dia fomos, parafraseando Milton. Não tem jeito. Todas as vezes que se tenta apagar ou roubar a infância de um sujeito, ele desidrata, definha, seca, morre. E é nisto que se manifesta os modos de pensar as infâncias na minha escrita: nenhuma criança pode ter o seu direito de imaginar levado embora. Toda criança é rica em inventar, mas a pressa, as urgências da pós-modernidade têm levado isso delas. E o que é pior, lhes condenado ao que de mais perverso as telas têm: a solidão. Nada é mais rico para a infância do que brincar.
03 - Nos conte do que se trata seu novo trabalho, quais percursos, caminhos de escrita, tempo de escrita?
Em "Dos quintais ou, de quando eles nos faltam", de minha autoria, com ilustrações de Maciste Costa, há um "brincar-de- imaginar". Imaginar que para acessar a criança que um dia fomos, basta fechar os olhos e respirar bem fundo ...
Na história, a protagonista, já adulta, busca feito peixe, por recuperar o fôlego nas suas memórias de infância. Então, há um passeio, pelos diferentes quintais onde viveu: o dos bichos e das plantas; das visagens e assombrações, do pomar e o de ser feliz apanhando fruta no pé para comer ali mesmo, até "a barriga encostar no chão"; dos do banho de rio ou igarapé; das brincadeiras de rua e de céu; das gentes e suas singularidades; das histórias contadas sob a luz das lamparinas e â frente das casas ... enfim, um livro de memórias que trará ao leitor (assim espero, rsrs) algum alívio no peso das horas e das cidades.
Sobre o percurso de escrita, é um livro que nasceu na solidão da pandemia, no lusco-fusco das horas, ao lado de uma ou duas xícaras de chá, depois de uma canção ou oração em Francisco de Assis.
04 - Acreditas numa infância amazônica? Ribeirinha? Uma infância de quintais e tempo?
Não só acredito como milito por ela, haja vista que eu sou dela. Nasci em Bujaru, município do Estado, às margens do rio Guamá. Muito de mim, foi este rio que me trouxe. Em todas as suas luas, lutas, águas e cores. O rio me disse, ainda menina, que ora a vida enche, ora vaza. Ora é farta, ora é escassa. Que de dia, há o riso da criança que brinca em pares, à noite, o silêncio sepulcral do pescador. "Em mim, tudo é rio." E seguirá sendo.
05 - Quais tuas principais referências no processo de escrita desse novo trabalho?
O pantaneiro Manoel de Barros, me cativa desde os primeiros versos seus, lidos por mim quando já adulta, no mestrado: "Meu quintal é maior do que o mundo"; "Fui aparelhado para gostar de passarinhos"; "Dou mais respeito as coisas e aos seres desimportantes" ... antes dele, os escritos de Francisco de Assis, certamente. A história dele, suas renúncias (tão difícil lutar contra as "riquezas materiais*, abdicar do dinheiro pelos que vivem na invisibilidade), entre outras. Há histórias escritas neste chão, a Amazônia, que me atravessam e sempre me contam um segredo, tais como: A história das crianças que plantaram um rio e Vindo do mar, de Daniel Leite e alguns contos de Maria Lúcia Medeiros, entre eles "Velas, por quem?"
06 - Indicarias uma playlist para esse novo trabalho?
Playlist "Imaginei em azul"
Meninos - Renato Teixeira e Xangai
Jardim da fantasia - Paulinho Pedra azul
Ciranda vida, embalar canseira e C(asas) - Ayhô Moraes
Além da asa - Isadora Títto e Renato Torres
Bola de meia, bola de gude e Voa bicho -
Milton Nascimento
A vida que a gente leva - Fátima Guedes
Flor de ir embora - Fátima Guedes e Dori Caymmi
07 - Onde comprar teu livro novo?
"Comigo mesma", via direct, nas redes sociais.
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