Cartas e conversas do São Francisco e além desse rio - Gutemberg Armando Diniz Guerra

 



Cartas e conversas do São Francisco e além desse rio.

 

LACERDA, Nilma. Cartas do São Francisco. Novas e antigas conversas. 4ª ed. Brasília: ICAD, 2023.

 

 

Tem livros que ficam um tempo aguardando meu tempo de leitor lento, mas sempre o mais atencioso que consigo ser para aprender e deles aproveitar como quem conhece o sumo que pode dar cada fruto dessa natureza, maturado após muita elaboração, desapegado da árvore mãe (ou mão) para cair em olhos de um mundo que o autor nem sempre frequentou nem sabe como vai ser usado, usufruído, sorvido. Foi assim com “Cartas do São Francisco. Novas e antigas conversas”, da Professora Nilma Lacerda. Antes dele, tive outras leituras dessa professora que vem de longas experiencias com o ensino, desde o básico ao universitário. Pude acompanhar, à distância, mas com uma privilegiada proximidade e informações que me chegavam por conta de uma parceria afetiva e profissional dela, Nilma, com uma pessoa de minha relação pessoal familiar, minha irmã e madrinha Pensilvânia. Pude ler parte da produção literária da Professora Nilma Lacerda tanto quanto da acadêmica em suas buscas por verticalizar sua trajetória intelectual. Essa obra sobre a que nos debruçamos agora recebeu o prêmio Cecília Meireles em 2000 como Melhor Obra Teórica pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Seção Brasileira do International Board on Book for Young People – IBBY e, vejam só, já se encontra na 4ª. edição.  

Tentei navegar no Velho Chico de Cartas e fui impedido, inicialmente, por uma catarata que avançava e me exigia muito esforço e cuidados. Paralelamente a essa dificuldade, a edição desse compendio também não ajudava por conta de um contraste entre cor da página e letras miúdas que me dificultavam mais ainda a visão e, portanto, a compreensão que eu pudesse ter se por ali enveredasse com tantas obstruções, marolas e procelas que esses rios de letras costumam provocar. As vezes a sofisticação estética ofusca a objetividade fazendo que nem sempre o belo seja o mais cristalino.

 A curiosidade, entretanto, aumentava a cada dia que o livro ficava ali, me olhando, sobre a mesa que utilizo como base para meus voos e navegações de estética, escrita e leitura. As palavras-chave do título, principalmente “cartas” e “São Francisco”, o santo e o rio, me piscavam sedutoramente, me chamando para as conversas (outra chave para compreensão da proposta embutida nessa obra), novas e antigas que o subtítulo anunciava.

Chegou o dia em que o encanto se quebrou e fui ao exercício necessário de navegar nessas águas de letras, memórias, conselhos, diálogos com palavras e símbolos, pretextos, contextos, textos e vivências em cheques, choques e provocações. Na primeira pegada tive a impressão de estar indo de bubuia, deixando-me levar pela fluência de Nilma Lacerda, mestra na arte do dizer com muita clareza e fazer falar nossos sentimentos e aguçar nossa imaginação.

Do Estado de Minas Gerais, em que o Rio São Francisco nasce e percorre parte, nada conheço, mas do que ele banha na Bahia conheço passagens por ter ido a Bom Jesus da Lapa, uma vez em romaria junto com camponeses de Alagoinhas na década de 1970; outra vez em Santa Maria da Vitória, na beira do Rio Corrente, para um apoio e trocas ideológicas com um líder sindical camponês ameaçado de morte. Sobradinho eu conheci, em missão de trabalho, cumprindo visita rápida na década de 1980; Juazeiro várias vezes visitei, seja como militante entre engenheiros agrônomos, seja  como trabalhador do Estado da Bahia a montar projetos de captação de recursos para Pesquisa Agropecuária, Assistência Técnica e Extensão Rural em favor de camponeses empobrecidos; estive em Paulo Afonso, para conhecer aquele colosso de barragem com toda a sua história de colonização conturbada. Também passei algumas vezes entre Propriá e Colégio tanto quanto entre Juazeiro e Petrolina, nessa última muitas vezes degustando caris e surubins, tanto quanto avezinhas de arribação fritas, regados a boas aguardentes vindas de alambiques mineiros escoadas pelo Velho Chico. Dessas incursões ao Rio São Francisco guardo memórias que me foram ativadas pela leitura que passo a descrever.

As Cartas do São Francisco pouco falam de águas, mas deságua em reflexões de como se formam leitores e relações entre homens e escritas em linhas e entrelinhas de estar no mundo. Fala de como as gentes se manifestam nas chegadas e breves estadias de escritores em comunidades ribeirinhas espraiadas ao longo do curso do rio da integração nacional, dito assim por banhar, irrigar ou riscar os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Considero essas aproximações entre escritores e leitores um dos mais belos movimentos de ensino aprendizagem, e porque não, de sedução dos autores em flertes com os potenciais leitores de seus esforços de se colocarem em diálogo através de seus escritos publicados.

Seguindo a estrutura de prefácio, mas quebrando a forma convencional, a professora Fabíola Farias apresenta o livro com um título afinado com a proposta de seu desenvolvimento, discorrendo sobre ele em uma Carta quase à antiga, endereçada e datada de Belo Horizonte! Traduz, ali, as angústias da pandemia do Covid que assolava o mundo e impedia as pessoas de se encontrarem fisicamente e temessem, com muito justificada razão, de postarem correspondência que pudesse ser vetor da moléstia. Firma também posição sobre o seu incômodo com as transformações dos substratos e formas que a escrita e a leitura vêm assumindo por conta de uma modernidade questionável. Trava-se, nessa carta, o primeiro diálogo entre professoras leitoras ávidas e inquietas por desvendar os labirintos dessa via de mão dupla: a leitura plena de vida, segredos e revelações.

Nilma Lacerda demonstra uma enorme criatividade ao apresentar um correspondente que lhe acompanha durante uma viagem com toques que me puseram em dúvida se imaginária ou real, rio abaixo, confessando dúvidas e indagações comuns aos que praticam o exercício do magistério da Língua Portuguesa, seus segredos e labirintos, divagações teóricas e trocas de experiências intergeracionais. A verossimilhança se reforça pela eficiência dos correios, o que já foi mesmo admirável, e que nessa narrativa me deixa também em dúvida, o que é uma virtude para me ligar ao texto.

Como é bom ter mestres que escrevem sobre os mistérios da literatura! Como é bom conhecer pessoas que saem de si e chamam para o diálogo interlocutores de dentro e de fora do país, eliminando fronteiras e idiossincrasias, para um diálogo rico de significados e esclarecimentos! Rainer Maria Rilke é o convocado número 1, trazido lá da Europa do final do século XIX e início do XX para uma conversa recorrente com um jovem contemporâneo seu, mas inspirando essas Cartas do São Francisco, que muito nos serve neste tempo de mudanças rapidíssimas nos modos de ler e escrever manifestados com sutileza, mas com firmeza e serenidade, pela professora Fabíola Farias naquela carta que apresenta o livro.

A Professora Nilma Lacerda nos estimula a fazer percursos pelos clássicos, ainda que tardiamente para muitos de nós, como ela afirma ter sido para ela mesma. Desconfio, entretanto, que ela revela isso para se aproximar do leitor e dizer que não devemos ter vergonha de vir, seja a que hora for, bater à porta e acordar velhos consagrados para esse diálogo em trocas que só fazem nos enriquecer. O bom da ficção artística é que ela não tem compromisso com a realidade como ponto de chegada, mas tem muito a ver como ponto de partida. Não importa o que seja verdade ou não na construção literária, seja ela sagrada ou profana. O que importa é o que ela inspira a quem se arrisca nela!

Das novas e antigas conversas há muito o que se aproveitar, principalmente no que concerne ao papel da literatura na escola e ao que ela traz de muito mais que ensino de ler e escrever, indo para o universo que aproxima o homem da divindade, verdadeiro demiurgo quando se põe a escrever, capaz da criação elaborada em mais alto nível, o que o torna diferenciado dos outros seres.

Contestando os que pensam que a literatura utilizada nas escolas possa se transformar em grades e jaulas do comportamento e do desejo humano, ou virar meros instrumentos frios de avaliação de desempenho acadêmico, Nilma Lacerda demonstra como, ao contrário, a literatura pode dar asas à realização dos desejos pelo labor estético prazeroso. Nesse caso, a escola tem que deixar de ser um espaço de enquadramentos para ser um espaço de liberdade e ousadias as mais saudáveis.

Para mim, que venho de outra área de conhecimento, minha relação com a literatura é algo tangencial, superficial mesmo, e não sistemático como os que dela vivem a analisar, esquadrinhar e estudar. As conversas que pude ver expressas nesse livro são verdadeiras aulas sobre a compreensão desse universo fascinante, mágico, aberto para muitos horizontes de experimentações. Aqui, certamente, nesse apelo ao experimento, se encontra o lado mais herético da Literatura, como de todas as artes, creio. Explico o herético como dar asas ao conhecimento no sentido de experimentar, contrariando o que, segundo o texto sagrado em Gênesis, levou Adão e Eva ao castigo das dores e expulsão do Paraíso. “Tudo, menos comer da árvore que está no centro do jardim!”, teria dito o criador estabelecendo uma regra a ser rigorosamente obedecida. A serpente foi mais convincente e os levou a experimentar! Não há restrições no jardim da Literatura e do conhecimento. Conhecer é experimentar! É correr o risco de provar e bancar as consequências do amargo e do doce, do quente e do frio, do saber e da ignorância.

A chamada para o diálogo de autores como Rainer Maria Rilker é uma aventura, uma aula peripatética entre a vida, a sala, o pátio de alguma escola em que se aprende a ler o mundo e dele tirar proveito na relação com o que dele se observa, registra, escreve e lê. Ali, no leito e na margem direita desse rio de muitos significados, se demonstra o que é viver o magistério com os olhos e o coração completamente escancarados para o sentimento de pertencimento ao mundo, sem a prepotência de pretender tê-lo sob seu domínio, como verdades absolutas proclamadas e assumidas como dogmas congelados e frios.

Para meu melhor entendimento, fiz um quadro das cartas com seus respectivos remetentes e destinatários, locais e datas de envio e localizando-as nas páginas em que foram apresentadas ou citadas. Fiquei tentado ainda a repertoriar os temas de que trata cada uma delas, mas não o fiz senão para mim mesmo, mas ofereço o meu pequeno esforço de sistematização para quem queira dele tirar algum proveito fazendo investimento de maior monta (Quadro 1).

 Nas 14 cartas citadas em parte ou na totalidade, 8 são endereçadas como resposta a um autor não nominado e que teria encaminhado “um original para apreciação”, acompanhado de uma carta em que “levantando questões sobre a produção literária para crianças e jovens, enveredou pela relação da ética com a literatura e me pedia opiniões”. Inspirando-se em R. M. Rilke, Nilma Lacerda responde às cartas do angustiado autor e que lhe chegavam quando em um período em que se deslocava entre o Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e São Paulo. Não pense que as respostas sejam cópias do autor europeu, pois que há mesmo contestações e críticas que motivam os leitores a se posicionar conforme as suas percepções, sem medo de cutucar onças com varas curtas.

Dessa leitura-diálogo com a professora Nilma Lacerda, e todos aqueles que ela convida para novas e antigas conversas, ensina-se não apenas a ler e escrever, mas a aprender e, para isso, a postura de se por em dúvida e ousar dar lances de xeque, deixando-se exposto ao contragolpe, é a mais producente como ponto de partida.

Quadro 1 Cartas citadas e transcritas no livro

Carta no

Página

Remetente

Destinatário

Local

Data

1

10-11

Fabíola Farias

Nilma Lacerda

Belo Horizonte, MG

3/8/2020

2

15-16 e 17

R. M. Rilke

Franz Xaver Kappus

Suécia/Roma/Paris/Pisa

Entre 1903 e 1908

3

19-20

Nilma L.

Autor

Rio de Janeiro, RJ

7/6/1999

4

23-24

Nilma L.

Autor

Belo Horizonte, MG

25/6/1999

5

27 a 29

Nilma L.

Autor

Barco encalhado entre Pirapora e São Romão, MG

28/6/1999

6

31 a 33

Nilma L.

Autor

São Francisco, MG

2/7/1999

7

37

Nilma L.

Autor

Santa Maria da Vitória, BA

10/7/1999

8

39-40

Nilma L.

Autor

Bom Jesus da Lapa, BA

13/7/1999

9

43-44

Nilma L.

Autor

Salvador, BA

19/7/1999

10

47-48

Nilma L.

Autor

Rio de Janeiro, RJ

19/7/1999

11

51-52

Nilma L.

Autor

Campinas, SP

21/7/1999

12

55 a 62

Nilma  L.

R. M. Rilke

Rio de Janeiro, RJ

4/4/2000

13

69

Flávio Ferreira

Nilma Lacerda

Ourinhos, SP

8/4/2020

14

70-75

Nilma L.

Flávio Ferreira

Rio de Janeiro, RJ

26/5/2020

Elaborado por Gutemberg Guerra.

É impressionante a densidade do que se pode aproveitar nessa obra. Fiquei tentado a fazer muitas citações, mas seriam tantas que melhor será que os que possam beber direto na fonte, assim o façam, além de irem até as referências bibliográficas que são mobilizadas para o debate que se faz como um rio que corre e que, ao invés de findar, amplia-se ao desaguar no oceano de possibilidades interpretativas que o texto oferece, instigando o leitor a cotejar o que ele pode decifrar no que pode ter na leitura, com o que ele pode interpretar de sua própria percepção diante da vida.

Porque temos ali uma linguagem fluente e clara, considero esse livro uma pérola a ser encravada nos cursos de Letras e Literatura das universidades brasileiras tanto quanto na qualificação de escritores e leitores que pretendam dar maior intensidade aos seus textos, sejam eles acadêmicos ou literários de qualquer modalidade.

Essa resenha talvez dê a impressão de que falo mais de mim e do que as Cartas do São Francisco provocou em mim, do que do livro mesmo que pretendi comentar. Correrei o risco de que me interpretem como um prepotente e pretensioso leitor, o que, de fato, talvez eu seja! Que essas reações de leitor atípico possam despertar em outros leitores a vontade de ler não só as Cartas, mas também os outros produtos da lavra dessa navegante e guia que é a Professora Nilma Lacerda! Evoé!

Comentários

  1. Compartilho emocionada a leitura de "Cartas do São Francisco: novas e antigas conversas," feita pelo professor Gutemberg Armando Diniz Guerra, uma pessoa admirada por sua efetiva luta na construção de um Brasil mais justo e solidário. Ao contrário do que diz, a relação que mantém com a literatura não é, de forma alguma, superficial. Não fosse ele, ainda, alguém que escreve como a arte requer: intuição, sensibilidade e poder de comunicação. Muito obrigada, caríssimo Gúti!

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