DOIS POEMAS INÉDITOS DE RODRIGO CABRAL

Rodrigo Cabral.


pérola-mundo


pérola-nuvem pérola-corpo

é tempo de me trazer outra chuva

desanuviar o deus intempestivo

tornar-me tempestade nas manhãs

atemporais nas têmporas da restinga

pérola-nuvem pérola-corpo

é tempo de transcender o tempo

empestear de prata os brônquios

divinos brônquios da liberdade

é tempo de respirar o ar sagrado

pérola-nuvem pérola-corpo

venha rebatizar meu santuário

minha água benta meu mar aberto

minha reza lenta reza atlântica

minha joia lagunar & profana

pérola-nuvem pérola-corpo

venha se entrelaçar ao meu pulso

tornar-se amuleto contra a estiagem

prover-me com gesto de guerra

ainda que seja longo o armistício

pérola-nuvem pérola-corpo

irriga a minha criação

pérola-mundo

faz de mim o meu próprio céu



escrita pisada


sigo com pés cansados de caminhos tortos

                                          atrasos

                                          impublicações

           pés fartos do peso que finca

           pés desejosos de outra farsa

           pés que calçariam as botas do ócio

é que o tempo cisma em andar

eu cismo em meter os pés pelas mãos

vai ver é disso que preciso:

pisar o texto — manusear o risco


Rodrigo Cabral nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ), em 1990. É jornalista e editor de livros. Em Cabo Frio (RJ), fundou a Sophia Editora. Em 2024, ficou em segundo lugar no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria Contos e entre os destaques na categoria Poesia. Em 2023, conquistou o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa. Em 2022, foi finalista do Prêmio Off Flip na categoria Poesia. Refinaria, seu primeiro livro de poemas, foi publicado em 2024.


Variações: revista de literatura contemporânea 
XII Edição - quilômetros de susto: poéticas do não
Edição de Bruno Pacífico
2025


 

Comentários

Postagens mais visitadas