RESENHA: A Cutia e a Castanheira - Gutemberg Armando Diniz Guerra
RESENHA
FERREIRA,
Paulo Roberto. A Cutia e a Castanheira.
Ananindeua: Edição do autor, 2025.
por Gutemberg Armando Diniz Guerra
Este ano de 2025 inicia com uma surpresa
ofertada pelo escritor Paulo Roberto Ferreira que inaugura sua versão de
abordagem infanto-juvenil da sociobiodiversidade da floresta amazônica. Para
isso ele convoca nada mais nada menos do que personagens representantes da
fauna e flora, a quem dá voz e argumentos suficientes para que entendam, de uma
vez por todas, jovens e adultos, a importância e a história desse bioma nos
dois últimos séculos.
Soube, pelo próprio autor, tratar-se de um
esforço de síntese de obra mais densa que teria sido escrita na primeira década
do século XXI, remontando ao período áureo e decadência da borracha e da
castanha, elementos de grande monta na economia do Pará e do Brasil antes dos
grandes projetos agro minero metalúrgicos chegarem para se implantar e impor o
seu domínio, dando extensão e profundidade ao período do regime ditatorial
militar vigente entre 1964 e 1985, ainda com um rescaldo visivelmente acentuado
e com fortes labaredas entre 2018 e 2022.
As ilustrações de Sérgio Bastos e Isabele
Cristina, na capa e miolo, respectivamente, dão o tom devido ao que se poderia
ter como outra linguagem nessa ficção bem-humorada e ricamente construída,
apesar do que se tem como problema de difícil solução: a convivência harmônica
com (ou da) natureza. É uma pena que as ilustrações da Isabele tenham sido
impressas em preto e branco, o que espero seja restaurado às cores originais em
próximas edições.
Nestes tempos de Conferencia entre as
partes – a COP 30, se reunindo justamente em uma das principais capitais da
Amazônia, nada mais emblemático do que uma cúpula de não humanos para falar dos
problemas que os homens têm feito agravar nos dois últimos séculos, em
particular depois dos anos 60 ou do que se costuma chamar genericamente de pós
2ª grande guerra mundial. O maior evento sobre o clima, com foco em problemas
que se atribui à dinâmica exploratória da Amazônia, merece que seus membros
conheçam a literatura crítica que aqui se produz, para não saírem com a falsa
ideia de que a ignorância faz parte dessa lógica perversa que,
contraditoriamente, se exerce de fora para dentro. Há mais opressão e fome do
que liberdade e saciedade a compor esse quadro...
Desde seu penúltimo trabalho lançado, A Figa Verde e a Misteriosa Mulher de Branco,
Paulo Ferreira demonstra um conhecimento profundo e detalhado da vida
amazônica. Essa percepção acurada é produto de uma vivência de longa data e
capacidade de escuta e registro escrito e inscrito em fotos e vídeos, de
sabedorias expressas por camponeses, ribeirinhos, quilombolas e indígenas,
tanto quanto de sua experiência própria enquanto dono de sítio, durante um
tempo, lá para as bandas de Bujarú.
A primeira impressão que tive é de que
essa publicação tem um caráter afetivo, doméstico, embora fadado ao sucesso por
conta da refinada escrita e eloquente narrativa dramatizada pelos animais e
castanheira, ameaçados todos pela ganancia do ser humano em tudo dominar e de
tudo tirar algum proveito. Essa sensação me veio tanto pelo modesto acabamento
gráfico da obra, quanto por essa guinada no público que pretende atingir, agora
que sua prole se distancia em termos geracionais e os sentimentos de pai e avô
se exacerbam.
Houvesse harmonia entre os organizadores
do encontro COP30 e as populações originárias, o tom do discurso e das obras
que vem sendo construídas seriam outros. Paulo Roberto Ferreira e seu apurado
senso de amazonidade oferece, a quem interessar possa, em mais essa obra,
muitos elementos para reflexão e entendimento sobre o potencial ecológico do
bioma em que vive e respira. E mais ainda, mostra com serenidade, firmeza e de
forma cristalina como ensinar aos jovens a história da Amazônia.
Esta singela edição e tiragem já são uma
relíquia preciosa por não ter sido lançada presencialmente e quem a quiser
adquirir tem que o fazer diretamente com o autor ou com a Gráfica Agência
Digital ChromaHost. Evoé!
Conto infantis amazônicos são importantes ferramentas educativas para as nossas crianças compreenderem a importância de nossa cultura. Parabéns!
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