UM CONTO DE ANTONIO SODRÉ
Antonio Sodré.
A moeda
Cristina odiava ir ao culto todo sábado. Achava chato. Tinha algo na voz do pastor que a incomodava, uns agudos que surgiam do nada enquanto ele dava o sermão. Seus pais não se preocupavam tanto, afinal, Cristina era uma pré-adolescente de doze anos e aquele pastor era meio maçante mesmo.
Ela e as amigas passaram aquelas férias de meio de ano em um retiro espiritual. Tinha a parte religiosa, na qual passava boa parte do tempo rezando, lendo as escrituras e em palestras sobre o evangelho. Mas também havia brincadeiras e atividades físicas. No fim das contas, até que foi divertido.
No último dia do retiro, após um piquenique, Cristina tossia sem parar. Foi levada ao hospital. Os pais, assustados, correram para estar com a filha. Cristina não conseguia falar. Abria a boca e nada. Nem quando tossia. De uma hora para outra, virou completamente afônica.
Os médicos fizeram vários exames de imagem na região da garganta, exames de sangue e de ressonância cerebral. Não encontraram nada. Saiu do hospital com o diagnóstico de mutismo histérico. Cristina, por algum motivo psicológico, simplesmente não queria falar, atestaram os especialistas.
Mas falar era o que Cristina mais queria. Não podia ligar para as amigas, não participava das discussões na sala de aula e carregava sempre um pequeno caderno para escrever bilhetes. Sua vida virou de cabeça para baixo.
O pastor, presbíteros, devotos e devotas vieram à sua casa semanalmente para rodas de oração. O pastor tinha o diagnóstico: perdeu a fala pois estava sob influência do diabo. Era falta de fé, vaticinou.
Em uma excursão da escola num parque natural, ficou admirando uma montanha e afastou-se do grupo. Quando voltou a caminhar tropeçou e caiu em um barranco de três metros. Não tinha como chamar ninguém. Achou que ia morrer abandonada. Sorte que um dos monitores da excursão percebeu que alguém faltava. Salvou-a. Mas depois do incidente foi proibida pelo colégio de participar de qualquer atividade externa.
Comunicando-se precariamente, ficou isolada. Perdeu os amigos e amigas na escola. Os professores e professoras evitavam interagir com ela. Dava trabalho. Seus pais, desesperados vendo a tristeza da filha, chamaram o pastor mais uma vez.
Confiante de que a afonia era causada pela influência de espíritos malignos, o pastor convidou toda a família de Cristina para um culto especial em que ele iria performar um exorcismo.
Toda a cidade apareceu. O culto começou normalmente até que o pastor chamou Cristina ao palco. Pôs a mão em sua testa e bradou com sua voz aguda “Demônio, deixe esse corpo, em nome do Senhor”. Repetiu o gesto e a frase três vezes. Aí falou “Fale, minha filha, fale!” Nada. O silêncio reinava no ambiente. Fez mais algumas tentativas de exorcizar o capiroto sem resultado. O pastor, acabrunhado, virou para a plateia e falou recuperando a confiança: “Sabem por que ela não fala?”. Com a cabeça baixa e um braço apoiado no púlpito, disse: “Cristina, sua falta de fé no Senhor abriu o caminho para o demônio tirar as palavras de sua boca. Eu só posso ajudar como mensageiro de Deus se a pessoa tiver fé. Claramente, você não tem. Só volte à nossa Igreja quando voltar a ter fé verdadeira no Senhor.” Cristina começou a esperar a família nas escadas da igreja enquanto eles frequentavam o culto. Seus pais, envergonhados da filha, rezavam para que ela tivesse fé.
Essa foi mais uma das séries de rejeições que deixavam Cristina cada vez mais solitária. Resolveu tirar a própria vida. Engoliu todos os comprimidos do frasco e desmaiou. Acordou em um hospital. Uma lavagem estomacal livrou-a de uma morte precoce.
Seus pais decidiram interná-la em um hospital psiquiátrico. Lá, Cristina encontrou o inferno. Não podia usar seu bloco de notas nem o celular. Os médicos tinham dificuldade de entendê-la. A medicação a deixava atordoada. Dormia em um grande quarto, com camas separadas por cortinas. Alguns pacientes gritavam durante a noite. Não conseguia descansar.
Apenas uma enfermeira a compreendia. Tinha uma deficiência auditiva profunda e falava a linguagem de sinais. Começou a ensinar Cristina a Libras. Seu progresso foi devagar, mas constante. Finalmente tinha alguém com quem conversar. Vendo o sofrimento de Cristina e, agora, com o conhecimento de sua história, a enfermeira ajudou-a a fugir durante a madrugada.
Cristina não queria voltar para a casa dos pais. “Vão me mandar de volta,” pensou. Andou dezoito quilômetros até achar a casa de uma de suas poucas amigas. Ficou lá por uns dias, mas, como não tinha nada, não escapou de retornar ao lar.
Quando chegou seus pais a abraçaram. Sua mãe chorava. Estavam preocupados desde o dia em que ela fugiu. Ela escreveu em uma folha. “NUNCA MAIS VOLTO PARA AQUELE LUGAR”. Os pais, amedrontados, prometeram que não iam interná-la de novo.
Explicou para os pais, através de bilhetes, que tinha aceitado o fato de ela ser uma pessoa com deficiência. Viveria como tal e gostaria que os pais a aceitassem como ela era.
Com o tempo a família foi se adaptando. Seus pais aprenderam a ler a língua de sinais. Cristina virou uma jovem mulher. Trabalhava na cafeteria de sua mãe. Guardava dinheiro para voltar a estudar.
Um dia, a dor na sua garganta estava lancinante. Foi até o banheiro. Começou a tossir sangue na privada. Silenciosamente gritava de dor até que um som, um grito tímido, saiu de sua garganta. A mãe a levou direto ao pronto socorro. Encontram uma pequena moeda, do tamanho da unha de um dedo mindinho. Uma moeda comemorativa da igreja da época em que parou de falar.
“Temos um caso muito raro aqui”, disse o médico. “Cristina, essa moeda ficou todos esses anos impedindo suas pregas vocais de funcionarem, por isso que você não conseguia falar. Além disso, ela ficou posicionada colada em um osso, por isso não foi vista nos exames de imagem. Por algum motivo ela se deslocou, você começou a sangrar e pudemos retirá-la. Você até teve sorte. Pela videolaringoscopia não detectamos nenhum dano permanente. Seus músculos de fala devem estar fracos, mas com a ajuda de uma fonoaudióloga, você voltará a falar normalmente”.
“Mas como foi que essa moeda foi para lá?”, perguntou em linguagem de sinais que a mãe traduziu para o médico: “O mais provável é que você a tenha engolido com alguma bebida ou comida e nem percebeu. É uma moeda muito pequena e fina.”
“Posso ficar com ela?”, perguntou Cristina. “Sim, sem problemas. Vou colocar em um frasco para você”.
Cristina ficou feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz porque falaria novamente. Triste por todo o tempo em que não pôde falar, seu isolamento social, o tempo no hospital, os anos de escola perdidos. Tudo por causa de uma pequena moeda.
Sabendo da notícia, o pastor veio encontrar a família pessoalmente em sua casa. Queria que Cristina fosse mostrada à comunidade em seu palco, para que todos testemunhassem o poder da fé, pois se foi o demônio que colocou a moeda em sua garganta, foi o Senhor que a moveu. Seus pais, radiantes, adoraram a ideia.
Cristina fez-se de empolgada e ofereceu uma xícara de café para o pastor. Na cozinha colocou a moeda dentro da xícara. As chances eram remotas mas tinha fé, muita fé.
Antonio Sodré é matemático e estudante de Letras na Universidade de São Paulo. Gosta de transformar histórias em contos. Já foi publicado em revistas literárias, antologias e por meio de concursos literários.
Variações: revista de literatura contemporânea
XII Edição - quilômetros de susto: poéticas do não
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2025
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