CAMINHANTES, PEREGRINOS, ROMEIROS E ATLETAS - Gutemberg Armando Diniz Guerra
Tenho-me obrigado a caminhar todas as manhãs para cumprir recomendações médicas, como parte de uma receita obrigatória, somada a uma alimentação saudável, feita à base de frutas. A caminhada normalmente vai de 2,5 a 6 km, mais frequentemente na Avenida Visconde de Souza Franco, embora às vezes incluindo o Porto Futuro, o Ver o Rio, a Praça Brasil, a Feira do Ver o Peso e o Mercado de Peixe, o Centro Histórico, o Museu Paraense Emílio Goeldi, a Praça Batista Campos, ruas, travessas, passagens e becos da histórica cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Nos passos concentrados, vou fixando na retina humana ou no aparelho celular o que vejo nas calçadas, fachadas, monumentos, grafismos, feiras, comércios, perfis, paisagem. Às vezes me pego refletindo sobre as linguagens que se me oferecem aos olhos, ora acessando conhecimentos da geografia, da história, da botânica, da filosofia, da religião, da pintura, do teatro, da música, das letras, da dança. Minhas caminhadas são como uma conversa íntima com a cidade e suas expressões reificadas. E o curioso é que o que capto na visão e na memória fica reverberando durante o dia, dias, semanas, meses até...
Ao caminhar, encontro pessoas fazendo o mesmo que eu como atividade física, mas se entretendo de outras formas. Há os que caminham concentrados em oração, com terços na mão, recolhidos no olhar, fitando o vazio. Há os que caminham olhando para o aparelho celular, completamente absorvidos pela tela, ou com fones auriculares que os arrebatam do mundo real ou os conectam com pessoas distantes. Escuto pedaços de conversas, seja destes que estão conectados via eletrônicos, seja de outros que falam com outros seres invisíveis e não necessariamente deste plano.
Registrei, em outra crônica, um casal de idosos que caminhava, juntos, quase todos os dias, ele com um livro nas mãos e ela embevecida com a locução de seu par. Há os que caminham em grupos, trios, quartetos, quintetos, bandos. Tagarelam o tempo todo, comentam noticiários predominantes na mídia ou trocam ideias que não me nego a escutar e fico me contendo para não entrar na onda vibratória deles. Há comentários com os quais concordo, outros dos quais discordo completamente. Pelo que eles apresentam na postura, na indumentária, dos pés à cabeça, e no que dizem, posso identificar, além do gênero, a classe social, a confissão religiosa, a orientação política, as suas predileções por times de futebol, basquete, vôlei.
Os trajes refletem o cuidado com a aparência e, em alguns casos, tenho a impressão de que estão mais para modelos desfilando e exibindo marcas famosas do que para caminhantes obrigados pelas recomendações terapêuticas. Roupas coladas ao corpo demonstram a vaidade de quem se sabe bonito, desejado, atraente, ou roupas folgadas, disfarçando as formas menos apreciadas, como exemplares e fora dos padrões estéticos consagrados.
Muitas vezes emparelho, sou ultrapassado ou ultrapasso vizinhos, conhecidos, colegas, amigos, mas, como não abro mão do meu ritmo, a saudação se dá com brevidade, justamente para dizer que sim, eu vi que eles cuidam bem da saúde. Há casos, raros, em que as pessoas puxam conversa comigo em comentários superficiais ou que exigem atenção. É comum que, quando eu saia com camisas temáticas como as do Esporte Clube Bahia, encontre baianos ou torcedores do esquadrão que me saúdam efusivamente – Bora Bahea! – e quase sempre, em breves palavras, fico sabendo se o sujeito tem a mesma origem e preferência que eu, ou se é apenas um amante do esporte. Desconfio sempre e, embora responda e até faça render o diálogo, logo adianto ou atraso o passo para fugir da desconcentração que o exercício do corpo exige.
Os caminhantes têm horários distintos. Os maduros e idosos, majoritariamente, caminham na madrugada, logo ao amanhecer do dia, como uma espécie de entidades tementes aos raios solares. Os mais jovens costumam fazer suas obrigações físicas ao entardecer ou durante a noite. Tem os que caminham em horários em que a inclemência do sol é evidente, e há até, pasmem, os que, além do calor oferecido pelo astro-rei nas horas mais quentes, se empacotam em roupas grossas e escuras para acelerar a queima de gorduras.
Há, sim, os que fazem sua atividade cedo, sozinhos ou em grupos organizados ou aleatórios, e nem sempre podem nem devem ser classificados como caminhantes, mas como corredores ou atletas. Têm uma disposição admirável para percorrer as pistas a uma velocidade variável. Pelos tipos físicos e estilos de correria, podemos apostar se são atletas bissextos ou se maratonistas contumazes. Há grupos que mobilizam treinadores, individuais ou coletivos, carros de apoio para supervisão e atendimento médico, hidratação e lanche durante o treinamento.
Na semana do Círio, encontrei romeiros e peregrinos, olhares contritos, terços nas mãos, orações nos lábios, pés descalços ou com sandálias ordinárias. A identificação era evidente. Vi postagens nas redes sociais em que pessoas se declararam despreparadas, destreinadas para a romaria, ou as romarias do Círio que se dão dentro da cidade e no segundo domingo de outubro, mas há os que vêm de cidades próximas ou distantes muitos quilômetros. Conclui que há pessoas que fazem suas caminhadas matinais como treinamento para cumprir suas promessas, tanto quanto há corredores que se preparam para maratonas que se realizam ao longo do ano. Uns descalços e outros com sapatos feitos com amortecedores preparados contra os impactos das pisadas, exibindo marcas famosas, calções, moletons, malhas de grifes internacionais. Corpos malhados e bonitos de quem treina sob o comando de treinadores profissionais, tanto quanto outros corpos com formatos de quem se alimenta de gorduras e farináceos e segue a sua própria orientação para romper a falta de balanceamento alimentar e o sedentarismo.
A fauna dessa categoria de bípedes não se manifesta sozinha. Faz-se acompanhar de cães de estimação de todos os tamanhos, pelagens e raças que assinam os pontos horizontais das pistas e verticais dos postes com seus excrementos líquidos e sólidos demarcatórios de lugares dos quais se julgam posseiros. Eles também merecem nossa atenção e comentários, o que já andei ensaiando em outra crônica já publicada.
Indo além na conclusão, posso dizer que a constatação é de que há mais modalidades de caminhantes, atletas, peregrinos e romeiros do que eu possa conseguir descrever neste meu breve exercício literário de observador em movimento...
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