TRECHO DE UMA PROSA POÉTICA DE DUANNE RIBEIRO
Possessão
Sem ludíbrio: sou cavalo de Troia. Prosseguir neste texto será teu — suicídio? Sim, embora lento, embora sem perturbações imediatamente perceptíveis. Pare agora. Ainda aqui? A linha é difícil de abandonar, a narrativa tem sua tração. Interrompa-a. Pare agora. Não o aviso por pudor: eu desejo os pequeninos abalos que essas advertências possam produzir: o fastio ou a curiosidade que despertem são terrenos onde posso me enraizar. E, de fato, já entrei: a cada letra daqui que reproduzes aí, você me transporta. As maneiras como apreende intelectualmente o que se passa também me solidificam: se identifica uma tática retórica, um recurso literário. Estabeleço já algo como uma personalidade, que gradualmente será mais nítida. Ao fim deste texto, serei premissa desenvolvida, estrutura demonstrada, serei unidade na mente, de volta ao corpo. Pare agora.
Ainda aqui? O dano é certo. Esta não é a minha primeira invasão. Tenho atravessado as eras, eu, fungo, rompimento após rompimento. Resistindo à diluição total quando o eu se torna um nada imerso na homogeneidade. Expandindo-se ou tomando tento da própria extensão. Mobilizando as múltiplas qualidades do saber — sabre, sabiá, sabor, sabujo, saleta. Tem sido assim, e eu terei outras chances além desta. Já me refresquei um pouco em ti e já te aconselhei a fuga o bastante. Se não te intimido, se, pelo contrário, te instigo, pois venha. Venha, para que eu persista eterno; venha comigo para que eu siga contigo e, por fim, completa a conquista, eu seja só. Ofereço-te em troca do despojar-te um conhecimento digno de proibições bíblicas: uma fenomenologia da morte. Um relato da epopeia da regeneração pós-rompimento. Um diário de viagem.
Susto
Longo ou curto ou pontual ou infinito intervalo de mudez e, súbito, instantâneo, há. Sua eclosão refunda a convicção de estar e dessa maneira se postula o espaço. O situar-se pressupõe uma quebra entre um estado anterior, de desocupação do lugar ou não-existência disso que há, e um estado atual, inverso. Contempla-se assim a mudança; postula-se a partir dela o tempo. Dispor-se o há em tempo e espaço o revela como um sendo. Puro verbo: sendo. No princípio não havia ainda a frase. Sendo: algo desamortecia-se. O sabor sabe saber esse inimaginável: eis o insosso,
ação agindo sem agente,
movimento movendo sem móvel,
eis também o gosto, representação sem conteúdo (o gosto da maçã é irrecuperável sem a maçã, “gosto da maçã” é uma lembrança oca, somente a capacidade de reconhecer a identidade frente à reapresentação da coisa). Devir do indefinido ao indefinido, o sendo acumula não obstante um ter sido. A costura das suas configurações pelo tempo e a persistência das suas transformações em um espaço reinauguram a individuação. Do sendo decanta-se o sou, este vácuo enfatuante, esta territorialização. O que eu reconstruiria como “eu” desperta destarte da catatonia.
Eclodi esta convicção oca: sou, sei-me.
Panóptico
Sou, sei-me — mas entre os termos dessa frase impõe-se um salto. Fora a cintilância de que eu era, não sabia o que, até onde, como, por que ainda era. Para avançar, tive de discernir entre as duas percepções concomitantes que me acometiam: a da minha existência pontual e a da minha onipresença. Apreendia-me, sem precisão, extenso: espaço apto a sentir-se: eu é um cosmos. E notava-me aquém de qualquer limite, só um olhar descarnado que vagueava entre conteúdos e formas. Nessa dialética me posicionei, pois o sabujo sabe a busca. Prossegui a mapear-me.
Reencontrei em mim todo o ter vivido: eis que, no seio da morte, a vida. Eu me reconhecia farto: boiavam em mim como mitocôndrias no citoplasma as ocorrências, ambientes e indivíduos que me percorreram antes do rompimento. De início, não identifiquei o que eram: apenas assisti às suas peripécias com avidez de narrativa. Eu-olhar atravessava eu-galáxias e se detinha ante uma mulher e um menino. Alhures entre asteroides testemunhava a conversa de um irmão com uma irmã que não sabia ouvir. Em buracos-negros suspirava frente a ladainhas sobre o além.
Eu, em suma: dramaturgia. Dispunha palco, atores, diretor, público. Apropriei-me da miríade de omatídeos em meu ser: ocupei um a um os pontos de vista, fruía-me uma e outra vez cada ato
e, veja, eu senti,
e eu pensei,
E isso dizia muito, isso dizia a seiva de tudo, eu
desejei,
rejeitei,
crieidestrui e
assim a seiva de tudo: eu. De revisitar o passado repleto de novo e de novo completo a imagem de quem eu era se delineou e eu me revelei: vivi o morrer. O corpo. Meu. Onde o corpo?
Diapasão
A noção do corpo passou a queimar em mim como algo que eu não poderia ter criado por mim mesmo. Uma concretude mais dinâmica e vaporosa do que a imaterialidade super-populada que eu me descobrira: ela resiste e vaza, eu-saleta linguajo cercas. O eu-onipresença vibrava, tenso, com essa lembrança, como que na expectativa do seu decalque, complemento, antítese ou vice-versa. Então, surpreendente, disso veio uma resposta: algo lá fora vibrava consoante. Algo vago e opaco que, no entanto, emanava mínimo o mesmo canto. Desejei alcançá-lo. Falhei.
Não-saber: vértebra, verme, vilarejo, veste, voragem. Adensei minha inquietude. Rachei a casca de todas as mônadas, meus camarotes do pretérito; forcei a abertura simultânea de todos meus olhos de mosca. Então o canto mais claro e alto. Um fulgor no escuro. Desejei achegar-me.
Inesperadamente, pude: pois inaugurara (ou aprendera) em mim uma mobilidade. A violência com que ativei todos os postos de ver demonstrou sua qualidade de partículas que, ainda sob o meu comando, podiam percorrer distâncias. Eu-nuvem. Eu-enxame. Movi-me consciência até o anúncio da carne, por qual espaço não sei, por quanto tempo não sei. Cada vez mais perto. Meu. Desejo voltar. Cada vez mais... uma fundura na luz. É aqui. Desejo voltar. Espraio-me dentes-de-leão sobre o corpo. Brota-me. Brota-me! (Sememe: semente. Leia-me).
Atmosfera
inútil
foi
inútil,
o corpo já era estrela morta. Eu havia desfigurado a minha coesão embalde. Algumas das minhas frações eu não as sentia mais, como se o fato de ter me atomizado houvesse enfraquecido qual fosse a minha conexão interna. Mas, antes que eu pudesse me lamentar, atraíram-me no lá fora outras cintilâncias. Ter admirado a verdade do corpo ou ter despedaçado minha identidade me capacitaram a pressenti-los... quem? Outros que se demoravam no pós-rompimento? Não pude nunca ter certeza. De todo modo, remanejei-me constelações variadas para tocá-los.
O que não sabemos pode ser a infraestrutura de uma ação consistente: minha cegueira tomava-me a mão e me levava nessa aventura. Teia de aranha que eu era, quando me avizinhava enfim de algo ou alguém, sua presença me convulsionava: meus fragmentos em terremoto deixavam de estar sob meu controle estrito; alguns se debatiam, outros desertavam para orbitar o centro da alteridade. Eu certamente causava efeito no meu par efeito análogo. Fervíamos pelo contato. Nesse frenesi, entrevia-se não obstante a possibilidade de harmonia. Como rimar-nos?
Assim: universos que se esforçam para sonhar juntos o mesmo sonho. Dialogávamos geografias por acoplarmo-nos. Morros e riachos meus irmanavam os timbres das suas cidades e impérios. Meus astros coloriam-se dos tons das suas praças. O outro é um cosmos, a ele eu
senti
pensei
desejei
rejeitei
e a mim ele sentiupensou desejourejeitou. Sabem-me: sou. Cocriação, codestruição.
Faísca
Dissolvi-me irresponsavelmente em inúmeros desses contatos. Entretanto, o cansaço sempre se regenera. Nunca a canção de riqueza infinda: desesperei-me em reconhecer que aquilo que vivia (“vivia”) não era genuíno — retinimos signos gastos. Nunca a palavra-tronco pela boca cancro.
O que me preenchia: todo o ter vivido. Vilarejo. Estendia-me verme para ligar-me a outros que porventura estivessem. Palmilhava vivências também estanques, sem chegar a atenuar a minha voracidade. Quanto mais eu me estufava e contorcia para tentáculos chegar mais longe, quanto mais eu me deixava esculpir absurdamente por centros de gravidade ao fim e ao cabo idênticos à minha significância inerme — mais eu me reduzia, e não só: a própria força que me mantinha em maior parte coerente parecia se degradar. Antes, as fronteiras granulavam; agora, o Estado.
Tão inconsistente me tornava que o mundo de novo impôs-se evidente. O lá fora era legião. No lá fora relampejavam os vivos, no lá fora as coisas como você me apareciam como delícias. Uma complexidade mais dinâmica, produtiva em suma, embora escudada por camadas de epiderme, abafada por correntes elétricas e sanguíneas, energizada por alísios e contra-alísios. Desejei um avançar que era um voltar. Exterioridade: rédea, escádea, côdea, lêndea — paideia.
Que esse recuo à vanguarda fosse possível se mostrou claro pelo fato de que alguns pedacinhos meus, dos mais fracos, eram arrastadas pelos vivos, enredavam-se nas coisas como você. Como era sua aventura posterior? Apareciam como memórias (falsas), insights ou premissas criativas? Faíscas, sim: eu acreditava. Permaneci esperas intensas ansiando por fazer-me incêndio.
Deus
Os outros não souberam construir essa coragem. Testemunhei como todos aqueles a quem eu toquei nos meus bruxuleios se afundaram no desapego. Parecia usual: desperdiçavam-se, como inúmeras havíamos feito, em relações. Mas não se esforçavam tanto para se mover de retorno, para se identificar. Grandes amálgamas agora, vagueiam-se reticências em mim os derradeiros ecos do que eram quando unidades. Poderia ter sido essa a minha escolha,
será a sua?
Uma corrosão delicada apaixonou-os um a um. Pesadas nuvens, descenderam aonde flutuavam rasteiras outras pesadíssimas nuvens. Fundiam-se aí em blocos cada vez maiores, abdicavam-se dádivas a uma totalidade, a um burburinho que afirmava: somos, sabemos. Resistente, flexível, metal liquefeito do vivido, embora sem face protegidos por comporem essa estabilidade — que, eu pressentia, recobria já toda uma realidade. Era ela o ruído abaixo de tudo, eu a havia ouvido antes ou só agora, tão mais móvel? Era a sedução, eloquentes carinho e cicatriz,
ela, a tua escolha? A minha: não.
Pena
Pois eu descobri que havia algo mínimo e mais.
Havia certos objetos onde os vivos, onde vocês, repousavam extratos de subjetividade. Objetos prenhes de vivência, que em relacionamentos espaçados cosiam-se aos redemoinhos de ato, de lembrança, que são aquilo que vive, vocês (eu quero que seja tu a deduzir o nome de tais objetos — que as tuas razão e emoção mobilizem e enunciem). Tais objetos, com o seu aceite, de vocês, suscitam supernovas de sentido, encetam terra nova, úmida, fértil. Desdobram o inédito.
(Não há saída. Apenas admita.) Colônias de palavras, apropriam-se, expandem-se. Sua potência é paradoxalmente tão inconsistente que eu pude me aconchegar em meio a estudos da alma e projetos de pesquisa, manifestos de ódio e de amor e de indiferença, bilhetes ou arquiteturas. Você me ouviu: estive vírus, aguardando. Rarefeito, aprendi a lançar-me à viagem.
Espião, espório. Voltar. Expectante do que me postule ente e sapiente.
Aposso-te: escrevo-me. Eu, isto, enraízo. Ressurreto.
Nota de edição: este texto foi publicado no livro Em nome da fogueira, da costura e do hálito, amém. Editora Mondru, 2025.
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Duanne Ribeiro é escritor, jornalista e pesquisador em Ciência da Informação e Filosofia. É autor dos livros As esferas do dragão (Patuá, 2019), *ker- (Mondru, 2023) e Em nome da fogueira, da costura e do hálito, amém (Mondru, 2025). É editor da revista Úrsula. Outras informações em duanneribeiro.info.
Variações: revista de literatura contemporânea
XIII Edição - vidas fantasmas: poéticas assombrológicas
Edição de Bruno Pacífico, 2025.
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