Artigo de opinião: Os abusos da modernidade na Pré-COP30 - Gutemberg Armando Diniz Guerra
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Os abusos da modernidade na Pré-COP30
Gutemberg Armando
Diniz Guerra
Um bate-estaca ao lado do nosso prédio finca
as bases de um edifício concorrente em altura, enterrando, segundo um operário
da obra, trinta e sete hastes de 6 metros cada uma, o que daria um improvável
número de 222 metros de profundidade. Segundo outro que se reveza com o
primeiro, 5 estacas de 12 metros em cada pilar, dando um total de 60 metros, o
que, em um caso e outro, se tornam significativos números para uma fundação
segura. Para essa operação, o bate-estaca passa a maior parte do dia
percutindo, ritmadamente, em um movimento em três sílabas que eu associo a como
se pronunciasse o nome do atual presidente americano, que faz o mesmo movimento
de martelar o juízo do mundo, na grande mídia, para proteger sua moeda de
dominação sobre os povos que formam blocos alternativos de países em
desenvolvimento ou desenvolvidos que se queiram fora da influência nefasta para
os Yankees. Ao invés da negociação diplomática, o líder americano e a empresa
de construção utilizam o recurso mais tosco e sem estar, aparentemente, nem um
pouco preocupados com os efeitos sobre a saúde física e mental de quem é
obrigado a ouvir as batidas do instrumento rudimentar da engenharia civil ou os
argumentos cínicos do representante da mais poderosa nação do mundo. A previsão
para a conclusão da fundação do prédio vizinho é de 4 a 5 meses, o que nos
provoca o desespero de ter que aturar o incômodo dessa construção ainda durante
muitos dias. A estimativa para conclusão do edifício como um todo é
imprevisível, porque depende do ritmo dos operários, da disponibilidade do
material de construção, da eficácia dos procedimentos da engenharia e das
relações trabalhistas negociadas ou a negociar...
A Conferência dos Países sobre as Mudanças
Climáticas, a ser realizada em Belém de 10 a 21 de novembro deste ano,
transformou a cidade em um canteiro de obras a serem feitas para impressionar
os visitantes. Um amontoado de intervenções nas áreas centrais ou de maior
circulação dos congressistas tumultuou a vida dos moradores e dos trabalhadores
que circulam no aglomerado comercial e de serviços, provocando engarrafamentos,
buzinas em excesso e um estresse permanente durante mais de um ano.
Decretado feriado nos dias que antecedem à
COP30, a quinta-feira amanheceu silenciosa, com poucos carros na rua, raros
ônibus circulando. Um pouco mais avançado o tempo, sirenes de motocicletas de
policias rodoviários federais e manobras nervosas interditavam ruas para que
comboios de veículos passassem levando autoridades internacionais. Ambiente de
férias na cidade esvaziada de moradores que partiram para suas casas
secundárias na Ilha de Mosqueiro, mas enchente de estrangeiros ocupando
lanchonetes, bares e restaurantes, além de espaços institucionais com
atividades desdobrando debates sobre as mudanças climáticas no planeta.
Problemas estruturais da urbe anfitriã permanecem,
embora as aparências certamente deem aos visitantes uma ideia de modernidade,
ainda que em muitos aspectos superficiais.
Contingentes das Forças Armadas
representadas por marinheiros embarcados em um grande porta-aviões, soldados do
Exército hospedados em escolas públicas e quarteis, helicópteros zunindo sobre
as cabeças se somam a uma miríade de motocicletas e carros de polícias
militares estaduais e municipais reforçando uma ideia de segurança antiquada,
baseada na exibição ostensiva de equipamentos bélicos e presença de fardados em
cada esquina. Lembrei dos dias em que a ditadura militar se instalou no país. Há
uma espécie de ar pesado pelo medo e receio de que algo possa acontecer a
qualquer momento, embora a todo momento ocorram, mesmo, acidentes pelo excesso
de pessoas em circulação como em qualquer outro lugar do mundo.
Os preços de alimentos comuns orbitam a
estratosfera, obedecendo a lei do mercado, embora alternativas populares
proliferem com os vendedores de coxinhas de bicicleta, carrinhos de quitutes,
estudantes e ambulantes inventando formas de amealhar um trocado, oferecendo água,
salgadinhos e brigadeiros pelas entrelinhas dos estabelecimentos de vitrine e
grife.
O mau cheiro dos canais da macrodrenagem
exala fortes odores de lama retida. As valas de micro drenagem acumulam lixo e
pequenas poças negras de lodo acumulado. A coleta irregular e insuficiente de
resíduos sólidos dá uma impressão de falta de planejamento e execução de um
serviço que exige disciplina diária e articulação entre prestador de serviço e
usuários. Promessas de instalação de unidades de tratamento de esgoto se
esgotam no tempo e se escondem ou se mostram nas áreas de habitação de
população em situação de vulnerabilidade. Moradores de rua sumiram ou
diminuíram drasticamente em número! Para onde foram? O que deles foi feito?
Sirenes de carros e motos de polícia e de ambulâncias se alternam, dando a
impressão de que estamos em uma metrópole americana ou no meio de um
hollywoodiano filme de ação. Bares, boates e centros culturais inundam e transformam o silêncio da noite em festa até altas horas. As luzes das
ornamentações de Natal se anteciparam e iluminam fachadas de estabelecimentos
comerciais e condomínios habitacionais verticais no centro da cidade em que
residem as classes médias e altas da cidade. O Parque Linear se enche de jovens
a desfrutar dos equipamentos coletivos ainda operantes e em estado de
manutenção adequado. Famílias passeiam e se divertem como mariposas em torno
dos espaços iluminados.
Esse é o clima da pré-COP 30 que tem o
Curupira como símbolo. Como será durante a Conferência? E como será o pós-COP? O
que restará na consciência dos habitantes de Belém e do mundo sobre as
transformações dramáticas do clima no planeta? As contradições estão claramente
postas, expostas, sobrepostas, compostas e dispostas sobre as mesas e espaços
de evacuação.
Todos sabemos que o Curupira tenta proteger
a floresta, mas da cidade não se tem notícias de quem seja o protetor! Terá?

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