EDIÇÃO ESPECIAL - ARTIGO CIENTÍFICO ESCRITO A OITO MÃOS
DE QUARTO DE DESPEJO AO QUARTO DA PALAVRA: A LINGUAGEM COMO MORADA DA RESISTÊNCIA
Dinair Barbosa de Freitas(1) dinair.freitas@uepa.br
Ewerson Lucas do Nascimento Santos(2) ewerson.ldnsantos@aluno.uepa.br
Justine Melissa de Jesus Barbosa(3) justine.mdj.barbosa@aluno.uepa.br
Williten Renen Salazar Silva(4) williten.rssilva@aluno.uepa.br
RESUMO: O presente trabalho tem por objetivo analisar a linguagem empregada na obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. A fim de fundamentar aquilo que aqui estará exposto, foi trazido para este escrito autores como: Gonzalez (2020), Munanga (2004), Hooks (2008) e Lucchesi (2009). A metodologia utilizada para a elaboração desse estudo foi uma pesquisa bibliográfica, de cunho qualitativo. Os resultados obtidos durante a pesquisa apontam para a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre a temática proposta, uma vez que, assim, a pesquisa contribuirá para a fundamentação de outros estudos mais abrangentes sobre o assunto estudado.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura; Sociolinguística Variacionista; Pretoguês; Racismo.
ABSTRACT: This paper aims to analyze the language used in the work Quarto de Despejo, by Carolina Maria de Jesus. In order to support what will be presented here, authors such as: Gonzalez (2020), Munanga (2004), Hooks (2008) and Lucchesi (2009) were brought to this writing. The methodology used to prepare this study was bibliographical research, of a qualitative nature. The results obtained during the research point to the need for a more in-depth study on the proposed theme, since, thus, the research will contribute to the foundation of other more comprehensive studies on the subject studied.
KEYWORDS: Literature; Variationist Sociolinguistics; Pretoguês; Racism.
1. REFLEXÕES INICIAIS
A escrita é, muitas vezes, um espaço de dominação simbólica. No contexto brasileiro, marcado por profundas desigualdades raciais e sociais, a linguagem tornou- se também instrumento de exclusão, especialmente para as populações negras e periféricas, cujas formas de expressão são frequentemente deslegitimadas pelas normas do português padrão.
Neste cenário, a obra Quarto de despejo (2014), de Carolina Maria de Jesus, surge como um documento não apenas literário, mas político e epistemológico. Escrita por uma mulher negra, pobre e moradora da favela, a obra rompe com os padrões linguísticos convencionais ao adotar uma linguagem marcada por oralidade, autodidaxia e experiência de vida.
A partir disso, esse artigo propõe uma leitura de Quarto de Despejo à luz do conceito de pretoguês, formulado por Lélia Gonzalez (2020), que reconhece a legitimidade e a riqueza das variações linguísticas afro-brasileiras. Com apoio também das contribuições de Lucchesi (2009), no que diz respeito às origens da identidade negra e Kabengele Munanga (2012), sobre a valorização dos saberes negros frente ao epistemicídio.
A pesquisa parte da seguinte questão: A linguagem empregada em Quarto de Despejo pode ser considerada uma forma de expressão do pretoguês? Como objetivo geral, busca-se compreender de que forma a escrita da autora reflete aspectos socioculturais e linguísticos associados ao pretoguês. Para isso, foram definidos dois objetivos específicos: (l) identificar traços linguísticos presentes na obra que se aproximem das características do pretoguês e (ll) analisar como esses traços refletem aspectos sociais, culturais e identitários da autora e de seu contexto.
Assim, a escrita do presente trabalho justifica-se pela necessidade de trazer a discussão a respeito do pretoguês aos diversos ambientes sociais, promovendo uma valorização das múltiplas formas de expressão linguística presentes na literatura marginalizada. Assim, contribuir para o combate ao preconceito linguístico e à invisibilização das vozes negras na produção literária e acadêmica, ressaltando a importância de reconhecer e legitimar o pretoguês como manifestação legítima da identidade e resistência afro-brasileira.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Ao falar de comunidade negra, automaticamente se evoca a escravidão e as marcas deixadas que se perpetuam até os dias atuais. Seja em outra parte do mundo, ou, restritamente, em solo brasileiro, as consequências da escravidão são percebidas e sentidas por aqueles que fazem parte da comunidade negra afro-brasileira. A partir disso, Gonzalez (2020) propõe um conceito que não apenas dá voz àqueles que não tem, mas faz com que a linguagem por eles utilizada não seja menosprezada, mas sirva como uma identidade que os diferencia, o pretoguês.
A linguagem, de acordo com Barthes (2008) é um ato político. A linguagem é a porta de entrada para a libertação ou escravidão de quem a utiliza, pois, quem domina uma língua, pode dominar o povo. Nesse cenário, o pretoguês toma forma ao caracterizar a comunidade negra como única.
Observando esses traços, é possível tratar o pretoguês como uma variação desprestigiada, uma vez que, essas características são estereótipos indicados para menosprezar aqueles que utilizam. Assim, os preconceitos contra o pretoguês se perpetuam e a comunidade negra ainda é invisibilizada pela sua fala.
2.1 IDENTIDADE NEGRA NO BRASIL
A formação do português brasileiro é marcada por um complexo processo de contato linguístico, especialmente entre a língua portuguesa e as línguas africanas, cuja presença foi massiva e perdurou durante o período colonial. Como destaca (Lucchesi, 2009, p. 57), “o contato do português com as línguas africanas no Brasil foi intenso e duradouro, o que favoreceu uma profunda penetração de traços linguísticos africanos nas variedades populares do português”. No entanto, apesar da intensidade desse contato, não se consolidou no Brasil uma variedade crioula amplamente reconhecida, como ocorreu em outras partes das Américas. Em vez disso, o que se desenvolveu foi um processo de transmissão linguística irregular, no qual a língua portuguesa foi apropriada de maneira desigual pelas populações afrodescendentes submetidas à escravidão, muitas vezes em contextos de aquisição como segunda língua, resultando em profundas reestruturações na gramática da língua falada por esses grupos (Lucchesi, 2009, p. 59).
É nesse contexto que se insere a proposta conceitual de Lélia Gonzalez (2020), ao cunhar o termo pretoguês para designar a forma de expressão linguística que emerge da experiencia histórica e cultural da população negra brasileira e tratar essa proposta como linguagem de resistência e de identificação.
Segundo Gonzalez (2020), o pretoguês não é um erro, mas uma forma legítima de falar o português, impregnada de referências culturais africanas que determinam e dão legitimidade à comunidade negra e marcada por uma lógica linguística própria:
É engraçado como eles gozam a gente quando a gente diz que é Framengo. Chamam a gente de ignorante dizendo que a gente fala errado. E de repente ignoram que a presença desse R no lugar do L nada mais é que a marca linguística de um idioma africano, no qual o L inexiste. Afinal, quem que é o ignorante? Ao mesmo tempo acham o maior barato a fala dita brasileira, que corta os erres dos infinitivos verbais, que condensa “você” em “cê”, o “está” em “tá” e por aí a fora. Não sacam que tão falando pretuguês (Gonzalez, 2020, p. 80).
2.2 PRETOGUÊS COMO LINGUAGEM INSURGENTE
A construção do que Lélia Gonzalez (2020) conceitua como pretoguês ultrapassa os limites da linguística descritiva ou da variação popular do português. Trata-se de um gesto de insurgência, no qual a apropriação da língua colonizadora pelos sujeitos negros se dá de modo criativo, subversivo e profundamente identitário. (Hooks 2008, p.859) nos diz que:
[a]prender inglês, aprender a falar a língua estranha, era uma maneira de os escrav[izados] africanos começarem a recuperar seu poder pessoal dentro de um contexto de dominação. Possuindo a língua compartilhada, povos negros poderiam encontrar de novo uma maneira de fazer comunidades e um sentido para criar solidariedade política necessária para resistir [em situação de colonização].
Ao mesmo passo, Munanga (2012) lembra que a linguagem é um dos pilares fundamentais da construção da identidade negra na diáspora(6). Mesmo com a perda das línguas maternas africanas, o fator linguístico persiste nas formas de expressão simbólica e ritualística, nos estilos musicais, nos penteados e, sobretudo, na criação de “outras formas de linguagem” como parte da resistência cultural (Munanga, 2012, p. 8). Para ele, essas linguagens funcionam como mecanismos de coesão e afirmação identitária, especialmente entre os grupos mais vulneráveis à marginalização e ao silenciamento cultural.
Nesse sentido, o pretoguês pode ser compreendido como uma linguagem insurgente por operar simultaneamente em três frentes: (1) contestando a hegemonia do português normativo e a ideologia da norma culta como única expressão legítima da língua nacional; (2) preservando traços de ancestralidade africana em meio à violência epistêmica da colonização; e (3) reafirmando a identidade negra por meio da linguagem, numa forma de insurgência cotidiana contra o racismo linguístico e estrutural.
Além de resistir, o pretoguês também reinventa os sentidos da língua, criando formas de expressão que refletem vivências e saberes historicamente marginalizados. Trata-se de um gesto político e estético que desloca os centros de poder linguístico e afirma a pluralidade cultural do Brasil. Ao romper com normas tradicionais, o pretoguês revela a criatividade das comunidades negras e reafirma sua linguagem como instrumento de resistência, identidade e pertencimento.
2.3 RACISMO E PRECONCEITO LINGUÍSTICO
A linguagem exerce um papel fundamental na constituição das identidades sociais, funcionando também como instrumento de expressão cultural e comunicação. No contexto brasileiro, entretanto, ela tem sido historicamente utilizada como meio de exclusão e reforço de desigualdades.
O pretoguês, objeto central dessa discussão, é a variante utilizada pela comunidade negra. Logo, sua utilização, assim como ser negro, é envolta de um racismo estrutural que existe desde a época da colonização.
De acordo com Nascimento (2019), as práticas linguísticas contribuem para a manutenção de estruturas racistas ao desvalorizar as formas de falar associadas às populações negras, indígenas e periféricas. O autor argumenta que a imposição da norma culta, baseada em uma perspectiva eurocêntrica, como padrão legítimo de comunicação, marginaliza outras variedades linguísticas, transformando a linguagem em ferramenta de dominação social.
Fazendo uma relação do Racismo(7) com o Racismo Linguístico é possível afirmar que a base que promove o ato racista é a mesma: a imagem de um negro. As marcas deixadas pela colonização apagaram a existência dessa variante. Mais que linguístico, o pretoguês é também objeto de discussão social. Nesse sentido, (Gonzalez 2020, p.84) diz:
Desde a Independência aos dias atuais, todo um pensamento e uma prática político-social, preocupados com a chamada questão nacional, têm procurado excluir a população negra de seus projetos de construção da nação brasileira. Assim sendo, não foi por acaso que os imigrantes europeus se concentraram em regiões que, do ponto de vista político e econômico, detêm a hegemonia quanto à determinação dos destinos do país. Refiro-me sobretudo à região Sudeste. Por isso mesmo, pode-se afirmar a existência de uma divisão racial do espaço em nosso país, uma espécie de segregação, com acentuada polarização, extremamente desvantajosa para a população negra: quase dois terços da população branca (64%) se concentram na região mais desenvolvida do país, enquanto a população negra, quase na mesma proporção (69%), concentra-se no resto do país, sobretudo em regiões mais pobres como é o caso do Nordeste e Minas Gerais.
Quando se fala de racismo, faz-se quase automaticamente uma ligação com a desigualdade social, uma vez que, aos olhos de quem é racista, o negro é visto como inferior e, portanto, desigual. Essa noção de inferioridade manifesta-se em diversos aspectos da vida social, desde as oportunidades de acesso a direitos básicos até o reconhecimento de sua humanidade.
No ambiente acadêmico, mesmo onde se prega a equidade, é possível perceber a persistência da exclusão, da marginalização de saberes e vozes negras. Nesse sentido, Paulo Freire afirma que “a educação autêntica não se faz de A para B ou de A sobre B, mas de A com B, mediatizados pelo mundo” (Freire, 1970, p. 47), ressaltando a importância do diálogo e da valorização da experiência do outro na construção do conhecimento.
Para Žižek (2014), a violência assume diferentes formas, entre elas a violência simbólica. Ele explica: “a violência simbólica social na sua forma mais pura manifesta- se com o seu contrário, como a espontaneidade no meio em que habitamos, no ar que respiramos” (Žižek, 2014, p.50).
Essa ideia revela como determinadas práticas discriminatórias, embora naturalizadas, sustentam desigualdades profundas. Nesse sentido, o preconceito linguístico pode ser compreendido como uma manifestação de violência simbólica, pois opera silenciosamente ao deslegitimar as formas de fala de grupos historicamente marginalizados.
Ao se falar em pretoguês e a sua relação com a aceitação da sociedade, há uma espécie de estereótipo negativo com o seu uso. Estabelecendo uma ligação direta com os estudos linguísticos, automaticamente observa-se que esses estereótipos negativos são o que chamamos de preconceito linguístico, a reverberação acontece, principalmente, pelo ensino tradicional de gramática, ensino esse que exclui ou não reconhece as variações linguísticas, logo, o pretoguês também é esquecido. A esse respeito, (Bagno, 1999, p.9) diz:
A língua é um enorme iceberg flutuando no mar do tempo, e a gramática normativa é a tentativa de descrever apenas uma parcela mais visível dele, a chamada norma culta. Essa descrição, é claro, tem seu valor e seus méritos, mas é parcial (no sentido literal e figurado do termo) e não pode ser autoritariamente aplicada a todo o resto da língua — afinal, a ponta do iceberg que emerge representa apenas um quinto do seu volume total.
O ensino de que há uma única maneira correta de falar é o que propõe a gramática normativa, entretanto, do ponto de vista linguístico existem incontáveis formas de promover um discurso. Nesse sentido, Nascimento (2019) argumenta que o racismo linguístico opera de forma silenciosa, naturalizando a ideia de que só há uma forma “correta” de se comunicar: aquela que segue a norma culta do português europeu ou sudeste-brasileiro branco e escolarizado. Esse modelo não é neutro, mas sim um marcador de classe e raça que estigmatiza o pretoguês, associando-o à ignorância, à marginalidade ou à criminalidade, evidenciando um controle simbólico sobre quem tem o direito de falar, ser ouvido e compreendido.
A chamada norma culta, proposta pela gramática normativa, é uma das principais responsáveis pela propagação do preconceito linguístico. Isso ocorre porque o falante que utiliza uma variante prestigiada muitas vezes se sente no direito de julgar e menosprezar outras formas de expressão que, embora diferentes da norma culta, não são inferiores. Dessa forma, o conceito de variante desprestigiada torna-se evidente: trata-se de uma forma linguística que não segue o padrão estabelecido pela norma culta, sendo erroneamente considerada menos válida.
Portanto, o pretoguês é essa variante desprestigiada. Características que adornam o pretoguês e o faz ser único como: a rotacização do “L” pelo “R” nos encontros consonantais e a ausência de concordância nominal são aspectos que fazem com que a variante não siga os padrões impostos pela gramática normativa e, portanto, esteja condenada a ser uma variante inferior a outras.
3. METODOLOGIA
Esta pesquisa possui caráter qualitativo e interpretativo, com base na análise textual e sociolinguística da obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. A escolha dessa abordagem se justifica pela natureza do objeto de estudo, que exige uma leitura atenta às relações entre linguagem, contexto social e identidade cultural.
Os dados da pesquisa são constituídos por trechos selecionados da obra, nos quais se observam marcas linguísticas que fogem à norma-padrão e que podem ser interpretadas como expressões do que se convencionou chamar de pretoguês. A seleção dos trechos considerou a ocorrência de estruturas gramaticais não normativas, elementos de oralidade, construções sintáticas marcadas pela subjetividade, e vocabulário que reflita o universo cultural da autora.
A análise dos dados foi realizada em duas etapas: na primeira, procedeu-se à identificação e descrição dos traços linguísticos presentes no texto, com base em estudos sobre o pretoguês e variações linguísticas no português brasileiro; na segunda, esses traços foram interpretados à luz de aspectos sociais, históricos e identitários da autora e do seu contexto, buscando compreender como a linguagem utilizada em Quarto de Despejo reflete e constrói sentidos ligados à vivência da população negra e periférica.
Para fundamentar teoricamente a análise, foram utilizados autores dos campos da Sociolinguística Variacionista, dos estudos culturais e dos estudos da linguagem e racialidade, como Conceição Evaristo, Lélia Gonzalez, dentre outros.
Dessa forma, a metodologia adotada visa articular análise linguística e crítica social, reconhecendo o valor simbólico e político da linguagem utilizada por Carolina Maria de Jesus.
4. DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS DADOS
A presente análise parte de trechos selecionados da obra Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, cuja primeira publicação ocorreu em 1960, com organização do jornalista Audálio Dantas. A obra utilizada neste trabalho é a 10ª edição da Editora Ática, lançada em 2014, que mantém os registros da autora em forma de diário, organizados em ordem cronológica e preservando sua linguagem original. Neste diário, Carolina registra o dia a dia dela e dos filhos quando moravam na favela do Canindé, em São Paulo, nos anos de 1950. Ela registrou o que comeu, ou, muitas vezes, o que não comeu, os papéis que conseguiu catar, os conflitos da favela, a relação com os vizinhos, as dificuldades para criar os filhos e os sonhos que mantinha, apesar das dificuldades. A favela é descrita por ela como um "quarto de despejo", uma metáfora para o lugar onde a sociedade joga aquilo que não quer ver, como uma comparação que remete a um lugar escuro, esquecido e que não faz parte da casa principal.
Um aspecto notável de seu livro é a linguagem. Ela escreve do jeito que fala, e é justamente isso que dá autenticidade ao seu diário. Sua escrita carrega detalhes do cotidiano da favela, da oralidade, das conversas com os filhos, com os vizinhos, do que ouvia nas ruas, transformando sua forma de falar em forma de contar e de resistir por meio da palavra.
Diante disso, a análise que se segue parte do questionamento central deste trabalho: A linguagem empregada em Quarto de Despejo pode ser considerada uma forma de expressão do pretoguês? Para isso, propõe-se observar, em sua escrita, a presença de determinados usos linguísticos frequentemente associados a experiências de oralidade, exclusão e resistência, como a ausência de concordância e a rotacização do “L” pelo “R” nos encontros consonantais, e analisar de que maneira esses usos refletem aspectos sociais, culturais e identitários da autora e de seu contexto. Nesse percurso, busca-se observar se tais características dialogam com a concepção de pretoguês formulada por Gonzalez (2020).
4.1 AUSÊNCIA DE CONCORDÂNCIA
Entre os usos recorrentes na escrita de Carolina, nota-se a presença de formas verbais e construções que se alinham à lógica própria de organização linguística de comunidades historicamente marginalizadas. Construções como “O que aborrece-me é elas vir…” (De Jesus, 2014, p.14); “Os meninos deu valor ao balanço só na hora” (De Jesus, 2014, p. 16) ou “Elas vai na feira, cata cabeça de peixe…” (De Jesus, 2014, p. 17) revelam uma maneira de dizer que está conectada ao modo como a linguagem é vivida e transmitida em determinados contextos sociais.
Apesar da estigmatização associada à ideia de “erro de concordância”, essa variação, como já observado por Lucchesi (2009), está solidamente fundamentada na história sociolinguística brasileira, refletindo processos de contato e adaptação linguística que remontam ao período da escravidão. Essa convivência forçada, marcada por violência, silenciamento e imposição, resultou em reestruturações que permanecem visíveis até hoje. De forma espontânea, Carolina registra sua vida utilizando os recursos disponíveis em sua experiência linguística, sem se distanciar de sua realidade ou da comunidade à qual pertence. Esse gesto, ainda que não intencional, pode ser compreendido como um movimento de resistência simbólica, uma vez que inscreve no texto a fala de um grupo historicamente excluído das esferas de prestígio social.
Nesse sentido, quando Gonzalez (2020) propõe o conceito de pretoguês, ela está justamente apontando para essas formas de falar e escrever que, embora frequentemente desvalorizadas, expressam pertencimento e resistência. A variação observada na ausência de concordância na escrita de Carolina deve ser compreendida como uma prática carregada de sentido, que comunica a experiência concreta de uma identidade negra e periférica desenvolvida longo da história brasileira.
4.2 ROTACIZAÇÃO DO /L/ EM ENCONTROS CONSONANTAIS
Dentre os usos linguísticos presentes na escrita de Carolina Maria de Jesus, observa-se a ocorrência da rotacização do /l/ em encontros consonantais, fenômeno fonológico amplamente presente na fala de muitas regiões do Brasil. Essa característica se manifesta, por exemplo, em trechos como: “Hoje é a Nair Mathias quem começou impricar com os meus filhos.” (De Jesus, 2014, p. 12), “Se fosse uma reprensão justa, mas a dele é impricancia.” (De Jesus, 2014, p. 72) e “Agora impricou com o João porque ele está namorando a Iracema.” (De Jesus, 2014, p. 100). Em todas essas ocorrências, há a substituição da consoante /l/ pela vibrante /r/, uma característica que, apesar de recorrente na oralidade, é frequentemente alvo de estigmatização.
Segundo Gayer e Dias (2018), esse tipo de ocorrência é associado a contextos sociais desvalorizados e costuma ser rotulado como sinal de ignorância ou falta de instrução. Entretanto, a rotacização não deve ser dissociada dos processos sociais e históricos que formam o português falado no Brasil, tampouco de suas conexões com a ancestralidade africana. Como aponta Gonzalez (2020), em algumas línguas africanas de matriz banto, o fonema /l/ não existe, o que explica, em parte, a presença da vibrante /r/ em contextos onde a norma culta esperaria um /l/. Esses traços, portanto, nascem do contato entre diferentes culturas e da luta pela sobrevivência de um povo que precisou adaptar-se a uma língua que lhe foi imposta, mas que soube ressignificar à sua maneira.
Nesse sentido, a rotacização aparece como uma expressão legítima de um modo de falar situado historicamente e moldado pelas condições de vida, pelas memórias coletivas e pelas experiências de resistência. Ao empregar em sua escrita o modo como se fala em sua comunidade, Carolina desestabiliza a hegemonia da norma culta e inscreve, em sua narrativa, outras formas de ocupar a língua. Essas escolhas linguísticas são parte de uma prática que, mesmo sem a intenção consciente, atua como gesto de insurgência: desafiam a hierarquia entre as variedades do português e revelam que há outras formas possíveis de habitar o discurso.
4.3 PRETOGUÊS COMO EXPRESSÃO DO CONTEXTO SOCIOCULTURAL
Carolina Maria de Jesus, mulher negra, mãe solo e neta de ex-escravo, viveu em um contexto de extrema pobreza e exclusão social. Por muitos anos, o sustento de seus filhos dependia exclusivamente da coleta e venda de papel. Mesmo diante da fome que atravessava seus dias, Carolina encontrou na escrita uma forma de expressar sua dor, de lutar pela sua sobrevivência, e de dar voz à favela silenciada e negligenciada. Para ela, escrever não era apenas um ato literário, mas sim uma alternativa à raiva e ao desespero. Em suas próprias palavras: “Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário” (De jesus, 2014, p. 183).
Esse depoimento revela o modo como sua escrita nasce, sobretudo, da experiência da fome. Carolina, que estudou apenas até o segundo ano do Ensino Fundamental, conseguiu dar corpo e voz à vida invisibilizada dos habitantes do Canindé, bairro de São Paulo, tornando seus costumes, cultura, mas também a violência e miséria, conhecidos em várias partes do mundo. Sua escrita, marcada pela oralidade, pela escuta das ruas e pela fala dos becos emerge como uma forma de resistência e autenticidade. É nesse contexto que se pode compreender o papel da linguagem como espelho das condições sociais.
Nesse momento, é necessário retomar a perspectiva de Munanga (2012), ao afirmar que a linguagem, além do fator histórico e psicológico, é um pilar essencial na construção da identidade negra. Mesmo quando há perda da língua ancestral, formas alternativas de linguagem emergem como marca de pertencimento. No caso de Carolina, a escrita como um traço identitário que comunica, de forma autêntica, sua história.
Essa ideia da escrita como forma de autoinscrição no mundo é reforçada por Conceição Evaristo, que afirma:
Talvez, estas mulheres (como eu) tenham percebido que se o ato de ler oferece a apreensão do mundo, o de escrever ultrapassa os limites de uma percepção da vida. Escrever pressupõe um dinamismo próprio do sujeito da escrita, proporcionando-lhe a sua autoinscrição no interior do mundo. E, em se tratando de um ato empreendido por mulheres negras, que historicamente transitam por espaços culturais diferenciados dos lugares ocupados pela cultura das elites, escrever adquire um sentido de insubordinação. Insubordinação que pode se evidenciar, muitas vezes, desde uma escrita que fere “as normas cultas” da língua, caso exemplar o de Carolina Maria de Jesus, como também pela escolha da matéria narrada. (Evaristo, 2020, p. 53- 54).
Ao descrever seu cotidiano e suas vivências em seu diário, Carolina não apenas relata a realidade da favela onde vivia, mas ocupa um lugar de autoria, ou seja, assume para si o direito de narrar sua própria existência a partir da sua perspectiva, em seus próprios termos. Esse gesto rompe com o silenciamento imposto às mulheres negras e pobres, historicamente privadas do direito de serem autoras de sua própria história. O lugar de autoria, nesse caso, não é apenas o espaço da escrita, mas o reconhecimento político e simbólico de que sua voz tem valor e legitimidade.
Conforme apresentado por Evaristo, essa escrita, que foge dos padrões estabelecidos, é também um gesto de insubordinação, porém, constantemente alvo de críticas, escárnio e julgamento, uma vez que a sociedade brasileira, que é historicamente marcada pela exclusão social e racial, estabelece uma divisão entre o “sujeito que fala certo” e o “sujeito que fala errado”, privilegiando o modo de falar das elites brancas, utilizando essa divisão como instrumento de distinção de classe e raça. Assim, o preconceito linguístico opera como uma das faces do racismo estrutural, deslegitimando e inferiorizando as diferentes formas de falar oriundas das periferias e de populações negras, perpetuando a ideia que há sujeitos mais aptos que outros para ocupar os espaços do saber, da cultura e da autoria.
5. RESULTADOS
A presente pesquisa evidencia que Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, constitui uma obra ímpar, ao transcender os limites da escrita tradicional e incorporar traços do pretoguês, em especial, a rotacização do "L" e a ausência de concordância nominal, elementos característicos de sua construção linguística e identitária. Tais traços são ressignificados, à luz de autores como Lélia Gonzalez e Lucchesi, como marcas de uma oralidade ancestral, viva e politicamente ativa.
No que se refere ao primeiro objetivo específico — identificar traços linguísticos presentes na obra que se aproximem das características do pretoguês, foi possível destacar marcas recorrentes na escrita da autora, como alterações fonéticas típicas da oralidade e flexibilizações nas normas de concordância. Tais marcas, frequentemente desvalorizadas, são aqui reinterpretadas como recursos linguísticos legítimos, que expressam uma identidade negra e periférica.
Quanto ao segundo objetivo específico — analisar como esses traços refletem aspectos sociais, culturais e identitários da autora e de seu contexto, verificou-se que essas escolhas linguísticas não são aleatórias, mas profundamente conectadas à experiência de Carolina como mulher negra, pobre e favelada. Sua linguagem é um instrumento de denúncia das violências do racismo estrutural e da marginalização social, mas também uma afirmação de pertencimento e potência. Nesse sentido, a escrita da autora se alinha à ideia de escrevivência, proposta por Conceição Evaristo, como uma forma de narrar a partir do corpo, da memória e da vivência coletiva negra. Além disso, ao dialogar com teóricos como Munanga, Gonzalez e Lucchesi, a pesquisa reconhece que a valorização do pretoguês em Quarto de Despejo contribui para a legitimação das línguas negras como constituintes da identidade brasileira. A obra, assim, não apenas denuncia, mas também propõe uma nova escuta para a literatura nacional, uma escuta que acolha vozes historicamente silenciadas.
Conclui-se, portanto, que a linguagem empregada na obra reflete diretamente o contexto social, cultural e histórico da autora, e que os traços do pretoguês identificados funcionam como ferramentas de expressão identitária e de denúncia social. Dessa forma, reafirma-se a importância de ampliar as perspectivas sobre os usos da língua na literatura, sobretudo quando tais usos revelam vozes historicamente silenciadas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise da linguagem presente na obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, evidencia a relevância política, social e identitária das escolhas linguísticas utilizadas no texto. Longe de serem compreendidos como desvios ou inadequações em relação à norma culta, os traços característicos do pretoguês revelam-se, sob a perspectiva de estudos linguísticos e culturais, como marcas legítimas de uma oralidade ancestral e expressão de resistência cultural. Tais elementos, frequentemente desprestigiados reforçam uma identidade negra periférica que historicamente foi invisibilizada pelos mecanismos de exclusão social e educacional.
A partir dos objetivos propostos, foi possível identificar aspectos linguísticos recorrentes na obra que remetem ao pretoguês, especialmente no uso de estruturas que refletem a oralidade afro-brasileira. Esses traços, ao invés de representarem simples informalidades ou falta de instrução, expressam um modo de falar e escrever enraizado em tradições culturais específicas. A linguagem adotada na obra demonstra vínculo direto com a realidade vivida pela autora e reflete as marcas de um processo histórico de exclusão e resistência.
No que se refere aos aspectos sociais, culturais e identitários observados, os recursos linguísticos empregados pela autora revelam-se profundamente conectados à sua experiência como mulher negra, empobrecida e moradora da periferia urbana. A escrita se apresenta como um espaço de denúncia do racismo estrutural, da desigualdade de classe e das múltiplas opressões enfrentadas cotidianamente. Ao mesmo tempo, funciona como mecanismo de afirmação de pertencimento, memória coletiva e identidade cultural.
A obra também estabelece relação direta com a noção de escrevivência, conceito formulado por Conceição Evaristo, que compreende a escrita como extensão da vivência e da memória de sujeitos negros. Nesse sentido, Quarto de Despejo ultrapassa o caráter documental ou autobiográfico, posicionando-se como uma produção literária crítica, com forte dimensão política e identitária. A linguagem se torna, assim, um espaço de articulação entre experiência vivida e posicionamento social.
Com base no referencial teórico utilizado, observa-se que a valorização dos traços do pretoguês na obra contribui para a legitimação de práticas linguísticas historicamente marginalizadas. A escrita de Carolina Maria de Jesus desafia as normas hegemônicas da linguagem escrita e literária ao propor uma nova escuta para a literatura brasileira — uma escuta capaz de acolher vozes tradicionalmente silenciadas, especialmente as oriundas das camadas populares e da população negra.
Dessa forma, conclui-se que a linguagem utilizada em Quarto de Despejo reflete diretamente o contexto social, histórico e cultural da autora. Os elementos do pretoguês identificados na obra funcionam como estratégias discursivas de resistência e afirmação identitária. A obra, além de seu valor literário, destaca-se como documento político e sociolinguístico, cuja análise contribui para o reconhecimento da diversidade linguística e para o fortalecimento de uma perspectiva crítica sobre os usos da língua na literatura brasileira.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 15. ed. São Paulo: Contexto, 2006.
EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado (Org.). Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. P. 48-54.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GAYER, Juliana; DIAS, Ludquellen. O fenômeno variável do rotacismo: uma análise pela Teoria da Otimidade, Revista Diadorim, Rio de Janeiro, vol.20, n.2, p. 377-397, 2018.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Organização: Flávia Rios e Márcia Lima. 1. ed. São Paulo: Zahar, 2020.
HOOKS, B. Linguagem: ensinar novas paisagens/novas linguagens. In: Estudos Feministas, v.16(3), 2008.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014.
LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 49. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.
LUCCHESI, Dante; BAXTER, Alan; RIBEIRO, I. (Orgs.). O português afro- brasileiro. Salvador: EDUFBA, 2009.
MUNANGA, K. Negritude: usos e sentidos. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.
NASCIMENTO, G. Racismo linguístico: os subterrâneos da linguagem e do racismo. Belo Horizonte: Letramento, 2019.
ŽIŽEK, Slavoj. Violência: seis reflexões laterais. Boitempo Editorial, 2015.
NOTA DE RODAPÉ
(1) Doutora em Filologia e Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professora efetiva da Universidade do Estado do Pará (UEPA).
(2) Graduando do Curso de Letras Licenciatura em Língua Portuguesa do Centro de Ciências Sociais e Educação do Universidade do Estado do Pará (UEPA).
(3) Graduanda do Curso de Letras Licenciatura em Língua Portuguesa do Centro de Ciências Sociais e Educação da Universidade do Estado do Pará (UEPA).
(4) Graduando do Curso de Letras Licenciatura em Língua Portuguesa do Centro de Ciências Sociais e Educação da Universidade do Estado do Pará (UEPA).
(5) Troca do “L” pelo “R”.
(6) Dispersão de um povo em consequência do preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica.
(7) O racismo é uma forma de preconceito e discriminação baseada num termo controverso, que sociologicamente é revisto e do qual a genética também inicia uma revisão: a raça.
.jpg)

Comentários
Postar um comentário