MANGOBEL - Gutemberg Armando Diniz Guerra
Final de outubro e início de novembro é tempo das mangueiras encherem-se de
frutos e despencar, primeiramente em varejo, alvejando transeuntes e veículos
dessa Santa Maria de Belém do Grão-Pará acalorada. São frutos limpos de
qualquer antracnose ou outro tipo de ataque malévolo às suas aparências
externas e internas. O sabor é adocicado como uma dádiva e o cheiro tentador
como devia ser o das frutas do Éden. Tombam as primeiras mangas com suas carnes
rijas e sua pele de jovens entrando na maturidade, de maneira que, mesmo
chocando-se contra o asfalto ou calçada, permanecem como se tivessem feito a
mais suave aterrissagem. Há quem lhes torça o nariz ao vê-las com marcas do
tombo ou com alguma fenda a derramar sucos, mas o que mais se vê mesmo são
disputas por estas oferecidas despencadas do paraíso. Patrimônio cultural da
cidade e presença marcante por essas bandas, as mangueiras mantêm a sua fiel e
abundante safra de fim de ano, cumprindo, religiosa e profanamente, o calendário
de suas dádivas.
Estes tempos de globalização, privatização, crise do estado, falência
dos serviços públicos, fome, desemprego e outros males apocalípticos inspiram que
se busque um melhor aproveitamento e distribuição desse recurso alimentar que
se oferece nos logradouros da cidade, sejam ruas, praças, bosques, parques e
quintais. Em uma busca rápida e apressada, encontrei disponível um número estimativo
de 12 a 13 mil árvores dessa espécie disponíveis nas ruas da cidade de Belém.
Não sei porque ainda não fizeram, se é que não fizeram, uma ação de controle
desse número com os recursos das modernas tecnologias de informação em que
pudessem constar também o diagnóstico e dados básicos sobre cada uma dessas
plantas, como Diâmetro à Altura do Peito (DAP), idade, porte, estado
fitossanitário, tratamentos exigidos de condução fitotécnica e outros cuidados
necessários.
Em vez de deixarem cair esses preciosos frutos em queda livre, alguém já
deveria ter pensado em uma forma de canalizá-los para um ponto de desembarque e
embalagem mais racional. Sob a copa de cada mangueira poderia ter, por exemplo,
uma rede de malha menor que o tamanho das frutas miúdas, de forma que, ao
desprenderem-se, não tomassem invariavelmente a direção do solo, ficando
sujeitas a pisadas e atropelamentos. Rolariam para a base do caule, onde uma
canaleta as conduziria para uma das extremidades do quarteirão. Ali
encontrariam um funcionário, voluntário ou cooperado atento para embalar os
preciosos frutos em papel de etiqueta da marca da administradora dos serviços
de colheita ordenada e cientificamente planejada. Encaixotá-los ou encestá-los
seria o próximo passo. Até aqui, nenhum problema desta nova linha de produção da
Mangífera índica, colhida e
embalada pela empresa ou cooperativa à qual me apresso logo a registrar o nome:
Mangobel – Mangas de Belém.
Principais investidores e acionistas desta empresa, associação ou
cooperativa seriam os motoristas de táxi, eternos queixosos das agressões
manguentas, e outros motoristas acostumados a estacionar seus carros em
qualquer espaço que se lhes apresente vago e sombreado, também sujeitos às
mesmas agressões mangueirosas desse período de folia da espécie. Estes defendem
um projeto de firma privada, sob o controle exclusivo das categorias acima.
Contra o projeto de privatização das mangueiras estariam os membros do MSM –
Movimento dos Sem Manga, estes partidários de que a empresa fosse estatal, com
distribuição de paneiros básicos contendo 50 mangas, equivalentes a uma semana
de suprimento de uma família composta de 5 pessoas. Este movimento,
radicalizando, proporia ainda o replantio de todas as árvores vitimadas ao
longo das três últimas décadas em função da modernização esma(n)gadora. Para
completar a proposta de política pública, reivindicariam o plantio em fileiras
duplas de mangas-rosas alternadas com espadas, em cada calçada, deixando ao
centro de cada rua uma pista para apenas um sentido de tráfego.
Partidários da sombra sem frutas proporiam o plantio de mangueiras
estéreis, que oferecessem sombra, mas não frutos. Rejeitados pelos anteriores,
a tendência seria de que as negociações caminhassem no sentido de mangueiras
portando culotes rendados como os descritos no início deste texto. Com estas
medidas cumpridas, afastar-se-ia a dema(n)gogia daqueles que pregam uma cidade
sem frutas, cheiros nem sabores.
Discípulos de Alexander Chayanov proporiam, certamente, uma cooperativa
ou a gestão compartilhada dessas árvores públicas cultivadas em espaços
coletivos. Caminhões equipados com guindastes que comportassem um colhedor
habilitado, seguido de veículos coletores, completariam a operação a ser feita, de
preferência, nos horários de tráfego mais aliviado, como as noites e madrugadas.
Nesse horário também se fariam as podas e limpezas das majestosas árvores muito
molestadas por parasitas e fungos. Comporiam o quadro de associados os
colhedores de mangas que improvisam varas com garrafas pets na extremidade ou
arremesso de pedras e paus amarrados em barbantes, que lhes servem para balançar
as galhas e fazer os frutos soltarem de seus pedúnculos para serem aparados antes
do tombo e colocados nas carroças improvisadas e tracionadas por eles mesmos ou
familiares. Normalizar-se-ia essa profissão com direito a carteira assinada,
recolhimento regular dos tributos previdenciários, descanso semanal, férias e
décimo terceiro salário.
Para terminar essa breve crônica propositiva, embora já se encontrem
facilmente escritos sobre as mangueiras como redutoras do calor, amenizadoras
do clima, embelezamento das vias públicas, provocadoras de acidentes e danos
aos veículos, e deva haver algum trabalho acadêmico sobre o volume e valor
bruto de produção das mangueiras de Belém, estimula-se que, se não tiver sido
feito, urge que o seja algum estudo, enfocando principalmente o aspecto
alimentar que esses frutos oferecem, tanto quanto de outras frutíferas que se
oferecem no espaço generoso da urbe. Enquanto isso, vou catando as mangas que
caem enquanto caminho pela cidade e as incorporo ao meu ritual alimentar de
vegetariano em processo evolutivo. Benditas sejam as mangas de toda a cidade!

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