RESENHA: Saltos Ornamentais de Marcos Samuel Costa



 RESENHA: COSTA, Marcos Samuel. Saltos Ornamentais. São Paulo: Primata, 2025.


Por Gutemberg Armando Diniz Guerra

 

  Em que pesem os critérios que definem a poesia tradicional com rima, métrica, ritmo e recursos mnemônicos e recursos estéticos que permitam sua transmissão de geração em geração, há elementos que se incorporam a ela e que nem sempre são percebidos nem explicitados nas análises que dela se fazem. Poesia não é linguagem que se deixe domar e conduzir para caminhos batidos. Ao contrário, ela traz em seu DNA a rebeldia, o estímulo a que se vá para muito além do esperado, do previsível, do controlável. Por atingir o emocional, ela rompe com a racionalidade que a tudo quer enquadrar, regular, medir. Talvez, me permito a dúvida, talvez por isso muitos dizem não gostar da poesia, mesmo sem saber o porquê.

Marcos Samuel Costa, esse inquieto, ousado e voraz leitor, escritor e produtor cultural nos faz brinde com seus versos eivados de sentimentos múltiplos, contraditórios, complexos, descritivos, analíticos e psicanalíticos. O título da coletânea de versos – Saltos Ornamentais - é bem ilustrativa de sua criatividade. Ele constrói personagem fazendo os poemas se emendarem como se fossem uma narrativa romanesca, ou conto, ou prosa, embora seja em versos, ainda que quebrados, como se diz, mas que nos faz questionar sobre essas próprias fraturas.

Quem quiser lhe entender não apenas leia os versos, mas folhei o livro do início ao fim, olhe a capa, a contracapa, o prefácio, a estrutura expressa no sumário, as orelhas, as dedicatórias. Tudo é importante para entrar em sintonia com palavras e silêncios que ele propõe em seu novo rebento ou voo.

A impressão que tenho do conjunto desses elementos citados acima é de que há mais incômodos nos leitores e comentaristas do que eu consigo perceber. Apesar desse meu julgamento, e pelo pouco que conheço do autor, sei que ele sabe provocar incômodos reflexivos porque ele mesmo vive questionando os enquadramentos que tentam lhe impor por ser periférico a tudo aquilo que se propõe central. Ora, a responsabilidade e custo de quem se propõe superior, normal, dominante, é muito maior de que a de quem tem somente a pretensão de ser o que é, dizer o que pensa, expressar o que sente.

Ossos selvagens, saltos ornamentais e fragmentos recuperados são os títulos das três partes em que Marcos Samuel organiza seus versos, e todos os termos trazem tensões.

Ossos selvagens das nuvens/de chuva/Tales se tornou agua/barro pó/matei-o no início de uma noite/de maio/todos os vulcões do mundo dormiam suas paixões/os vulcanologistas anotavam em seus/blocos de papel/a maravilha de um mundo/sem destruição/feito-de-fogo para no canto ferir/insetos/o último-suspiro/desague em outro mar/vermelho/as/antigas canções tomam conta das dívidas/urram no telhado/matar meu irmão era a forma/dos meus pais me olharem. (p.25).

A morte desejada ou efetivada do irmão Tales me fez lembrar Rainer Werner Fassbinder, o diretor alemão que, ao se notabilizou por abordar o tema da homoafetividade e, segundo uma das versões sobre sua morte, teria entrado em crise e suicidado por overdose após de dirigir um de seus filmes mais marcantes. O que considero curioso é a recorrência dos críticos a esse aspecto de gênero nas obras, sempre tratado como algo profundamente incômodo, demonstrando o grau de resistência à diversidade que permanece, apesar de todo o aparato social e legal que tem se formado sobre o assunto desde a década de 1980.

qual lugar dos saltos ornamentais/deveríamos ter ido?/não importa onde eu vá/as mãos pesadas/desse irmão que matei irá me acompanhar/bebia o homem seu antepassado/os cristais não vidro que entra nos olhos/o perdão/não tem parte nesse jogo.(p. 53).

Na segunda parte a morte do irmão ganha maior densidade logo no início e vai se completar na terceira parte que, embora nominada como fragmentos, tem Tales novamente citado, enfaticamente, no último verso.

Partículas invisíveis do deserto/do Oriente/até a floresta/fertilizando a mata/o homem/fertilizando morte e vida/em teu quarto encontrei muitas roupas velhas, Tales.

O elemento simbólico que me parece dar maior intensidade ao drama que este livro traz à baila é a relação vida e morte com limites tênues entre uma e outra, deixando claro que uma e outra estão entrelaçadas visceralmente, ainda que não sejam compreendidas nem aceitas pela humanidade.

Enfim, “Saltos ornamentais” ultrapassa a dimensão estética para provocar reflexões sobre padrões existenciais questionáveis, em que pese a naturalização que deles se faz como se sempre tivessem existido e como se nunca viessem a se modificar, ajustando-se aos tempos históricos e circunstâncias culturais.

  Marcos Samuel Costa vem se firmando no universo da literatura pela produção regular de romances, contos, poesias e tem investido em sua formação acadêmica, o que lhe dará um outro nível de percepção e de construção com ferramentas críticas de sua obra que já se faz notável.


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