RESENHA: Tudo tem princípio e fim - Gutemberg Armando Diniz Guerra

 



Tudo tem princípio e fim. RESENHA

COLASANTI, Marina. Tudo tem princípio e fim. São Paulo: Escarlate, 2017.

A admiração que tenho por Marina Colasanti é antiga. Data de mais de 30 anos, quando minha irmã e madrinha me enviou um recorte de jornal com uma belíssima crônica dela. Tive a chance de conhecê-la pessoalmente em Belém, justamente em um jantar com Pensilvânia Guerra Santos, por ocasião de uma das edições da Feira Pan-Amazônica do Livro, estando presente também o professor, escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna, marido da escritora e jornalista. 

Tendo feito meu filho de 11 anos ler em voz alta Tudo tem princípio e fim, livro infantil recomendado pela escola dele, tomei conhecimento que a autora tem o destino, karma ou seja lá o que possamos entender como uma biografia em que se incluem muitas viagens. Nascida na Eritréia, em 26 de setembro de 1937 e falecida no Rio de Janeiro em 28 de janeiro de 2025, morou na Líbia e Itália, até se mudar para o Brasil, aos 10 anos de idade. Cursou Belas Artes e se tornou jornalista, apresentadora em televisão, foi publicitária, tradutora e autora de mais de 70 livros para crianças e adultos. Amealhou 9 prêmios Jabuti, entre outros. No resumo biográfico que consta no livro, informa-se que ela viajava muito, o que pode-se deduzir do que ele expressa nos poemas, e que também cozinhava muito bem.

A coletânea, soma 35 poemas infantis organizados em 5 partes e distribuído em 77 páginas ilustradas pela própria Marina: 1 Entre o fim e o princípio (7); 2 Um cantar chama no mato (6); 3 Sem enrolar a língua (8); 4 Olhando do outro lado (8); 5 Fabrico minha alegria (6). Ela mobiliza elementos da natureza como o sol, a chuva, o mar, a flora, a fauna e vai fazendo poemas em que a relação com esses elementos vai desfilando em uma viagem lúdica e muito criativa. Plantas exóticas como o agapanto azul e o antúrio, a maçã e a flor no cotidiano transitório são demonstrativos do tempo passando pela vida das pessoas e por lugares por onde ela andou como a China e o Egito. “Foi assim em Pequim” (p.24-25) é o título do poema em que ela confessa ter comido um escorpião frito e em “Crocodilo com estilo” (21) ela sugere, com rimas e ecos, um jacaré guloso mas elegante à beira do Nilo, comendo garça e esmagando um grilo.

Agapanto azul/no vaso de vidro/conte seu segredo/bem no meu ouvido (p. 8). Nessa estrofe ela nos faz imaginar conversando com a flor e contando história para a sua neta Valentina, criança a quem dedica o livro. As ilustrações são singelas com desenhos e pinturas que remetem à infância e às temáticas desenvolvidas na obra.

 O diálogo com a infância vai se desenrolando e permitindo a inserção de neologismos como em “Poemojo”: No banheiro entrei contente/pronta a escovar os dentes./Mas em nojo, de repente,/desfez-se minha alegria:/na escova em cima da pia/pousava enorme barata. Ela continua o poema dizendo ter jogado a escova fora mas perdoa o animal que “embora asquerosa e escura/estava escovando o dente.”(p.39).

A preocupação e o cuidado na construção estética fica evidente em “”Cachorro, gato, passarinho”, em que começa cada uma das três estrofes alternando os animais: “Cachorro, gato passarinho/o cachorro abana o rabo/o ovo dorme no ninho./Passarinho, cachorro, gato/o felino sobre o morro/um cantar chama no mato./ Gato, passarinho, cachorro/um latido rasga o sono/o dia vem devagarinho.(p.23).

A negação precoce do menino para ler o livro se desfez na medida em que ele foi lendo e aprendendo a declamar os poemas, o que me autoriza a recomendar e compartilhar a leitura com os pequeninos. A boa energia e astral humorado de Marina Colasanti vai colaborar e muito na execução dessa tarefa.

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