O custo da modernidade - Gutemberg Armando Diniz Guerra

 



O custo da modernidade


Gutemberg Armando Diniz Guerra



A
s mudanças que nos foram impostas ao longo das últimas décadas implicaram em múltiplos efeitos, uns positivos e outros negativos. A expectativa de vida aumentou significativamente, sim, mas muitas doenças e mazelas surgiram e outras se acentuaram, limitando as possibilidades de longevidades saudáveis. Muitas dessas mudanças ocorreram pela difusão do conhecimento e outras pelas imposições do mercado que se fizeram pela propaganda convincente, as vezes realista, mas muitas outras vezes fantasiosa, fabulosa e sobretudo enganosa.

Os exemplos de indução ao consumo são vários como foi o tabagismo que se instalou e se generalizou principalmente no século XX. Utilizando de imagens glamorosas de artistas do cinema hollywoodiano, levando muitos jovens ao vício e ao gestual cerimonioso, imitando as grandes estrelas. Dominados pelos prazeres provocados pela nicotina, enlamearam seus pulmões e muitos, mesmo depois de terem conseguido se livrar da dependência, sucumbiram com menos idade do que poderiam ter se tivessem evitado essa prática. Felizmente uma campanha vigorosa contra o tabagismo nas últimas décadas do final do século XX alcançou um surpreendente êxito, diminuiu drasticamente o número de fumantes e, certamente, o número de vítimas letais dessa prática.

Podemos dizer o mesmo do alcoolismo, igualmente estimulado nas mídias do século XX, fazendo que as pessoas se acostumassem com o gosto amargo das cervejas e com a exaltação da sensação de embriaguez, leve ou profunda, apesar da ressaca do dia seguinte, curada, pelo que se dizia, com mais uma dose tomada para rebater o consequente mal estar, mas de fato agravando a dependência. Termos e expressões foram utilizadas para estimular práticas do consumo diário ou frequente do álcool, tanto quanto justificativas muito convincentes como a de beber socialmente, como se o motivo da reunião fosse a bebida em si mesma, e não o prazer do encontro com pessoas queridas. Outras mensagens subliminares ou explícitas estão sendo difundidas, como a de estar ajudando os seus clubes de futebol de preferência consumindo produtos de seus patrocinadores, ou de aproveitar dos prazeres da vida, como se estar sóbrio e feliz não fosse possível sem o combustível das alcoílas.

Os exemplos acima são os mais evidentes, porém temos outros arraigados em nossas sociedades, não menos graves e, talvez, de mais difícil combate pelo histórico e pelos males provocados colateralmente. Posso citar genericamente os quatro ingredientes praticamente incontornáveis para a maioria das pessoas pois que consumidos na alimentação diária e que se constituem em elementos de alta periculosidade para a saúde dos humanos: o sal, o açúcar, o trigo e o arroz, branqueados e refinados. O consumo deles foi estimulado e generalizado ao longo dos últimos séculos, através de trocas, vendas, acordos internacionais, por propagandas sutis e agressivas, conduzindo a maioria da população mundial a um condicionamento tal que a saída ou abstenção do consumo deles se tornou de muito difícil realização. Pior do que isso, a especialização na produção de alguns desses produtos reduziu ou eliminou alternativas locais a tal ponto de a diversidade genética sofrer uma baixa considerável. Que falta nos faz um bom inhame, um cará, um ariá, um aipim, fruta-pão, batata doce, pupunha e tantas outras fontes de carboidratos que poderiam ser tão importantes e acessíveis como o pão de trigo...

Outra das mais evidentes, nocivas e difíceis de controle nas práticas da modernidade é o uso generalizado dos eletrônicos, em particular do aparelho celular que se incorporou de forma efetiva à vida da maioria das pessoas do mundo. Qualquer imagem de qualquer lugar do mundo, vai exibir humanos voltados para as telinhas em suas palmas da mão. Profissionais das mais diversas áreas têm dedicado mais tempo ao mundo virtual do que ao mundo real e, em algumas atividades, o rendimento caiu significativamente por conta dos hábitos adquiridos e dependência das pessoas às redes sociais. De certa forma as pessoas vivem conectadas entre si, mas, contraditoriamente, apartadas de si e dos outros. Problemas de postura corporal, obesidade e sedentarismo se acumulam e avolumam nos seres humanos e boa parte se deve à forma de linguagem que passa pelas telas, em uma espécie de reedição do mito da caverna. As pessoas acreditam no que veem nas telas e há um fetiche de que o que ali está é, indubitavelmente, verdadeiro e real.

Quem vai pagar por todos os vícios induzidos pela modernidade e pelo ambiente social que condicionou a população a obtê-los? Que vai pagar pelo hábito insubstituível de comer os pós brancos do açúcar refinado, do trigo, do sal e do arroz... Quem vai pagar pelas armadilhas dos algorítimos que tornam crianças e adultos vulneráveis ao mercado de todos os produtos falsos e que vão de alimentos a medicações consumidas no cotidiano? Quem vai pagar as horas que se perdem na telinha vendo-se comentários fúteis e sem pé nem cabeça, mas que repetidos indefinidamente se transformam em referências de verdade para os ingênuos e desavisados?

Fiz esse bloco de perguntas a mim mesmo e a algumas pessoas próximas e as respostas que me dou ou que recebo não conduzem a consequências práticas imediatas, mas provocam, certamente, algumas reflexões sobre essas armadilhas que foram e continuam sendo utilizadas pelos espertinhos para enganar os incautos e ingênuos a consumirem produtos e serviços tóxicos e muito nocivos aos seres humanos e não humanos que vivem neste infeliz planeta.

A ponderação deve ser feita para não cairmos em generalizações absurdas e inadequadas! Certamente que haverá o que se manter e o que se quebrar como regra ou como reconhecidamente saudável e a sabedoria estará em saber fazer essas distinções. As coisas não são absolutamente boas ou ruins em si mesmas, mas podem ser positivas ou negativas a depender do uso que delas se faça e, para isso, o instrumento maior que temos para balizar o bom uso é a consciência que possamos desenvolver para fazer essa triagem.

Esses comentários são apenas para levantar a lebre - ou algumas lebres. Cabe a nós o exercício diário de rever nossas práticas e reorientá-las no sentido de que sejam as mais saudáveis para nós e para os que de nós dependem e nos sucederão na relação com o mundo natural e social, dado e ou construído, recebido e ou modificado. Disso pode depender a nossa vida mais ou menos longa, plena e saudável. Evoé!


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