A inversão climática - Gutemberg Armando Diniz Guerra

 



A inversão climática 


Gutemberg Armando Diniz Guerra



    Eram 19 horas da noite em Belém do Pará e fazia a temperatura de 28ºC. Um coroa setentão entrou na lanchonete franqueada de uma empresa americana preferida pelo seu filho de 19 anos, acompanhado também do rebento mais novo de 11 anos. Da noite de temperatura amena, se sentiu entrando em uma geladeira ou ter chegado em um país de clima temperado. 

Não havia ninguém, naquele momento, na lanchonete habituada a receber, na madrugada, jovens saídos das farras homéricas das noites belemenses. As garçonetes estavam, literalmente, de braços cruzados, pela ausência de público e pelas condições artificializadas do clima. Uma delas, com o rosto contraído, parecia um bárbaro zangado, a expressão facial contraída, o olhar fixo nos recém-chegados. O cliente olhou para cima e conferiu a paleta de onde soprava o vento frio. O visor digital do aparelho de refrigeração estava indicando 16º C. Esfregou os braços descobertos e perguntou: _Por favor, me matem a curiosidade: por que vocês utilizam uma graduação tão baixa no aparelho de climatização? Supondo ser uma regulagem feita por algum superior ou controle acima dos serviçais, prosseguiu. _Vocês têm como regular esta temperatura? _ Sim! Respondeu a garçonete que tinha se adiantado para perguntar sobre a demanda dos chegantes. _Por que não colocam em 23º ou 24ºC que é uma temperatura agradável para este ambiente? _ A garçonete assentiu concordando com a cabeça, sem parecer estar muito convencida de que esta temperatura ia agradar a todos.

O homem maduro desandou a fazer um discurso nervoso, dando exemplos de pessoas que conhecia e que adoeciam com o frio, embora gostassem da sensação. Citou exemplo de um colega que morou em Toulouse e que, por sentir dor de cabeça no inverno francês, procurou um médico, preocupado que estivesse sofrendo de alguma doença surgida no duro processo de estudos para fazer sua tese de doutorado. O médico olhou para aquele paciente de cabeleira basta e perguntou, calmamente, se ele conhecia um acessório de indumentária chamado gorro. Sim, é claro, ele conhecia, sim, e via muita gente usando naqueles dias frios. _Então já viste, sim, aqueles de lã, forrados com tecido de algodão ou poliéster? continuou o médico como quem estivesse fazendo sua anamnese. _Sim! Sim! Respondeu o paciente, pensando que o médico ia lhe fazer alguma pergunta sobre a estética do seu vestir. _E por que você não usa esse protetor simples para combater o frio? O engenheiro agrônomo amazonense residente no cálido estado do Pará franziu os cenhos, levantou as sobrancelhas sem entender aonde o doutor queria chegar. O médico concluiu dando-lhe a receita de usar gorro sempre que saísse à rua, no inverno, porque o que ele sentia como mal-estar era decorrente do frio na cabeça.

Outra conhecida, continuou o coroa, também natural da quase linha do Equador, gostava muito do frio e não gostava da estética dos cachecóis nem dos sapatos fechados dos franceses. Considerava espalhafatosa aquela arrumação de adereços aveludados, felpudos, quentes. Andava no frio parisiense de sandálias abertas, sem proteger nem os pés nem o pescoço, até um dia ser acometida de uma faringite agressiva e ter que buscar o atendimento de urgência no pronto socorro da Rue de l´Hopital. Depois de uma observação rápida na paciente, a médica de plantão indicou o uso de sapatos esportes, meias grossas e cachecol para proteger o pescoço. Prevenção total contra inflamações da garganta.




Outro caso citado pelo incomodado cliente foi de um conhecido seu, baiano, que foi a uma reunião em São Paulo. Trajado de bata de algodão fininho, quase transparente, desembarcou na capital do café e se dirigiu ao Parque da Água Branca para encontrar os companheiros da Associação de Agricultura Orgânica daquele estado.  Nas imediações do Parque, não conseguia localizar o portão de entrada. Dirigiu-se a um guarda de trânsito todo vestido de camisas de manga comprida, encasacado, de calças de tecido grosso, coturno, luvas e chapéu. Perguntou-lhe pelo portão do Parque. O guarda arregalou os olhos e, antes de apontar na direção do acesso, perguntou: _O senhor quer uma camisa? O baiano não entendeu e insistiu: _Obrigado, senhor, eu só quero saber onde é a entrada do Parque! _Mas o senhor deve estar sentindo muito frio, desprotegido como está, desse jeito! E refez a oferta: _O senhor não quer mesmo uma camisa? E diante de nova negativa, apontou a direção do portal do Parque para onde o baiano se dirigiu e chegou na reunião tiritando de frio, implorando por um café quente! Não tinha café! _Nem conhaque? _ Não! _Nem cachaça de cobra? _Nada! Tirou uma camisa de sua mochila e se protegeu um pouco mais daqueles implacáveis 6º C da capital paulista.

A garçonete da franquia americana ouviu tudo calada e logo depois confessou que ficava doente, sim, com gripe, frequentemente. E começou a dar razão às histórias que o idoso contava. Ela parecia temerosa de que alguém a ouvisse a dar trela ao cliente. O coroa falador citou as famílias belemenses de classe média que gostam de dormir à mínima temperatura que conseguem regular nos seus ares condicionados, quase nevando nos quartos, e se cobrem com mantas e edredons como se estivessem no mais rigoroso inverno russo. Vivem com coriza e pegam gripes amiúdes, mas não abrem mão deste comportamento de mandar no clima sem se adaptar a proteção necessária. Imaginem este povo dormindo nus ou com trajes mínimos em vez de pijamas de camisa de manga e calças também compridas, de flanela, meias e gorro de lã? 

Imaginem se os moradores de países frios fizessem o contrário, no inverno, ligando aquecedores a temperaturas máximas para se bronzear, suar e se sentirem nas praias dos trópicos! É verdade que fazem algo parecido ao passar algumas horas recebendo doses de raios ultravioleta em casas especializadas de estética, exclusivamente para se bronzear, mas não é nada comparável com o que se vê por aqui!

Feitas as escolhas de montagem dos sanduiches, efetivados e servidos os pedidos, foi aplacada a fome e saciada a sede consumista dos jovens com refrigerantes borbulhantes e enlatados, depois do que saíram para a realidade da quase linha do equador. Seguiram para casa a pé, lentamente, sem se dar conta da inversão de valores e de preferência climática que assola a juventude e adultos alienados e sem consciência corporal nem planetária.



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