A cidade das portas - poemas de Adônis Vox
A cidade das portas
Pelas horas do dia, quando sozinho
Com os olhos do passado a me julgar
Aqui dentro, onde as janelas são inócuas
E as raízes penetram indóceis nas paredes
Minhas pequenas misérias, gotas mudas
E as grandes ondas de misérias
Mordendo estas encostas de mim mesmo
Eu olho para trás e vejo uma porta
E outra que aparece diante de mim
E outra que surge por dentro
Fico quieto
Se sei vagamente em que bolso estão as chaves
Quero saber ou lembrar?
Abrem-se as portas para onde?
Afogo neste espaço, me engole e silencia
O grito se recolhe na porta da garganta
Sob a esmagadora certeza que não há saída de mim.
Transubstanciação
Tomai e comei, este é meu corpo
Meu totem, o músculo que tensiono
Tomai e bebei este é meu tropo
O sangue da eterna inconstância
Que será derramado para vós e por todos
Nesta página branca
Este é meu cálice, tomai e serei
A carne intensa da nossa aliança
Este verso é a permissão dos pecados
A serem experimentados por nós e por todos
Fazei isso de memória, mesmo sem mim
É este o grande mistério, ainda não revelado.
Depois do tempo
Estou aqui e além
Da fronteira
Onde no ermo desconhecido viajo
Nas palavras meus pensamentos persistem
Mas meus olhos não
Minhas mãos não tocam
Meu coração não impele a nada
Com este verbo agudo
Penetro
Derrubo a mística lógica do tempo
E fabrico pra mim esta hora que existe em outros olhos
Que outros ouvidos captam
Que existe rápido na existência além de mim
Tu és minha eternidade fabricada
Tu que nesse momento me multiplicas
Tu cuja carne guarda o segredo da vida
Tu que acrescentas a esta alquimia
A alma do teu próprio rubedo.


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Leitura realizada, poemas deliciosos. Saboreei impressões muito boas. Parabéns!
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