A cidade das portas - poemas de Adônis Vox


A cidade das portas

 

Pelas horas do dia, quando sozinho

Com os olhos do passado a me julgar

Aqui dentro, onde as janelas são inócuas

E as raízes penetram indóceis nas paredes

Minhas pequenas misérias, gotas mudas

E as grandes ondas de misérias

Mordendo estas encostas de mim mesmo

Eu olho para trás e vejo uma porta

E outra que aparece diante de mim

E outra que surge por dentro

Fico quieto

Se sei vagamente em que bolso estão as chaves

Quero saber ou lembrar?

Abrem-se as portas para onde?

Afogo neste espaço, me engole e silencia

O grito se recolhe na porta da garganta

Sob a esmagadora certeza que não há saída de mim.

 


 

Transubstanciação

 

Tomai e comei, este é meu corpo

Meu totem, o músculo que tensiono

Tomai e bebei este é meu tropo

O sangue da eterna inconstância

Que será derramado para vós e por todos

Nesta página branca

Este é meu cálice, tomai e serei

A carne intensa da nossa aliança

Este verso é a permissão dos pecados

A serem experimentados por nós e por todos

Fazei isso de memória, mesmo sem mim

É este o grande mistério, ainda não revelado.


 

Depois do tempo

 

Estou aqui e além

Da fronteira

Onde no ermo desconhecido viajo

Nas palavras meus pensamentos persistem

Mas meus olhos não

Minhas mãos não tocam

Meu coração não impele a nada

Com este verbo agudo

Penetro

Derrubo a mística lógica do tempo

E fabrico pra mim esta hora que existe em outros olhos

Que outros ouvidos captam

Que existe rápido na existência além de mim

Tu és minha eternidade fabricada

Tu que nesse momento me multiplicas

Tu cuja carne guarda o segredo da vida

Tu que acrescentas a esta alquimia

A alma do teu próprio rubedo.

 





Adônis Vox é professor licenciado em Letras pela UFPA, nasceu em Belém no ano de 1985 onde ainda reside. "A cidade das portas [Editora Folheando]"é seu primeiro livro publicado, entretanto, sempre caminhou pela literatura participando de coletivos ou em breves conversas sobre poesia em qualquer canto da cidade, ou nos sonhos. 
É aqui que o autor abre pela primeira vez a sua porta de versos. Favor, não fechar a porta quando sair.




curadoria e edição de marcos samuel costa
Variações revista de literatura contemporânea
2020
I edição 

Comentários

  1. Leitura realizada, poemas deliciosos. Saboreei impressões muito boas. Parabéns!

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