A VITÓRIA DOS MEDÍOCRES - FELIPE SANNA
(Afonso Rocha)
Síria,
2017. Alepo. Corpos desolados anseiam abrigos. Mutilados, entre lobos e chacais,
os mártires nunca serão lembrados, apenas a pólvora que esquenta a carne será
ovacionada, pela cegueira que conduz os bombardeios. A civilização outrora
edificada, de joelhos, sucumbe à selvageria, e clama por outros séculos. O
futuro é sabotado por sádicos mercenários a tramarem nossas ruínas. Brasil, 2019/2020. Amazônia em chamas. Invasões
de terras indígenas. Desmatamento. Queimadas. Queima de arquivo. Autoridades? Alegram
pecuaristas, dizimam indígenas, antecipam lápides. “Grandes” parlamentares
envolvidos: lobistas de variados partidos, uni-vos! Macunaímas pós-modernos
avançam, diversificam conchavos. Estilo de vida cachorro: champanhe, mulheres,
caviar e carreiras sobre a mesa. Gripezinha? A pandemia secular é outra,
camarada, sem cura prevista. Darcy Ribeiro dizia que a crise da educação no
Brasil não é uma crise; é um projeto. Ele estava certo! Agências de comunicação
contratadas com verba pública disseminam o vírus: notícias delirantes
entranhadas no inconsciente coletivo. Propaganda. Fake news. Goebbels!
Goebbels! “Saudosa” referência. Brasil,
mostra a sua cara! Fascistas penduram suas máscaras e marcham confiantes pela avenida.
CLT? Aposentadoria? Agora é carteira de trabalho verde e amarela, cambada. Se vira!
Um velho clemente assina sua carta de demissão. Investidores antecipam lápides.
Picaretas sorriem com caixas de gargalhadas socadas no céu da boca. Anjos
desabrigados procuram mães de aluguel. Subalternos constroem prédios de areia. Tempestades-escombros
soterram palavras doces. Quem levará a culpa? O laranjal elevado à enésima
potência. Brasil! Terra nostra! Ou melhor... Cosa Nostra! Um poeta corre sem
fôlego pelas escadarias infinitas do tempo. Lilith canta em Ré bemol: "Eu
tenho a chave do Paraíso." Não, eu não acredito mais nisso... Os beijos de
minha mulher não são mais felizes como antes. O odor podre toma conta do bairro
onde moramos. Cupecê. Jd. Miriam. Corpos cadavéricos vagam nus por ruas e avenidas.
Desempregados noiados e catatônicos rolam em calçadas imundas, amparados por
fiéis vira-latas a acudi-los: na vala, no meio-fio, na sarjeta. Empilhadeiras
de sonhos rumam para o necrotério. Pedaços do que foram um dia meu vizinho Valdir,
minha amiga Jéssica, e o seu primo Evair. Todos mutilados para sempre, na
sarjeta secular da História do Brasil. Presságios... Empreendimentos milicianos
tomam conta do subúrbio carioca. O sonho da casa própria virou terrível pesadelo.
Prédios desmoronados. Tempestades-escombros. Avalanches que soterram palavras
doces. Crianças carentes, mães adolescentes, senhorinhas crentes, duendes,
doentes, evangélicas... Quem? Quem levará a culpa? Ligo a TV sem pensar em
nada. Piloto automático. Avenida Paulista. Irmãos divididos ideologicamente organizam
trincheiras suicidas. Em nome do pai. Em nome de Marx, Carlo Marx, personagem
de On the Road, manja? Não? É de direita? É de esquerda? Lado A? Lado B? Lados
opostos da mesma família. E os ratos engravatados comemoram e inovam seus bordões,
enquanto devoram banquetes e sorriem com os músculos da face contraídos,
repuxados, atrofiados: cocainômanos confiantes, dando pala em nobres restaurantes,
da Asa Norte à Asa Sul. Brasília, antro de rituais macabros. Magia negra?
Voodoo? Vai pensando... Passam-se dias, meses, anos, e nada, definitivamente, nada
melhora. Pelo contrário, só piora... 2018/2019/2020.
Inconformados, débeis assalariados marcham obstinados de verde e amarelo pela
avenida. Novamente: subservientes, apáticos e solitários... E depois do
tumulto, dispersam-se cansados. Ocos. Apáticos. Vão... Para os buracos de onde
vieram, fantoches vassalos da burguesia. Dançarão ocos e anestesiados? Aos finais de semana? Aos feriados? Em
espeluncas, em lugares nobres, em topos de arranha-céus, para exibirem-se ainda
mais solitários, ou para esquecerem por um momento que são fantoches? Sob
efeito de aditivos, criarão asas nos olhos, e se permitirão voar: subservientes,
apáticos e solitários... Mártires ressuscitarão nos orfanatos, hasteando velhas
bandeiras vermelhas, e bradarão confiantes e roucos por vazias avenidas a
revolução outrora fracassada: subservientes, apáticos e solitários... E então,
fundarão novos sindicatos. Comerão migalhas em potes de barro, servidos pelos
mesmos fantoches, filhos da contracultura, e tudo não passará de uma grande
farsa, como são todos os nossos dias. Vale tudo! Afinal, estamos no Brasil: país
em que pobres e miseráveis continuarão açoitados pelas chibatas feudais de velhos
opressores; chibatas metafóricas, empunhadas estrategicamente pela chula classe
média, pseudoburguesa, com seus cargos de liderança, títulos e eteceteras, iludida
com status e sonhos de consumo sem fim. 2018:
os incultos elegeram outra vez seus opressores. 2020: culpados, assistem fileiras de covas serem abertas,
indiretamente, por bispos, pastores e obreiros fúnebres. Multiplicam-se
diariamente as valas dos adestrados, dos excluídos, dos miseráveis, dos
cordeiros sabotados, ironicamente, por adorados bispos, pastores e obreiros
fúnebres, em nome do pai! Valas concretas. Valas abstratas. Figura poética? Há
milhões de mortos-vivos na face da Terra! E o que me resta senão esperar pelo
dia em que os velhos opressores de outrora perambulem cadavéricos pelas ruas.
Moribundos, com suas fortunas dissipadas. Pele e osso. Por campos desertos. Por
cidades arruinadas. Nauseabundos. Vagarão quase-mortos, e se curvarão de
joelhos, suplicantes aos pés dos oprimidos, por punhados, restos e migalhas, mas
será tarde demais. Devaneios... Confesso que já nem sei se o amor, a amizade e
a poesia me proporcionam o devido alento, mas eu insisto com este canto rouco e
grave: infinita e dissonante blue note a se arrastar pelos tempos; a ecoar
melancólica e onipresente pelos campos e vales; a atormentar os ouvidos moucos
das multidões, e levá-las às profundezas, às masmorras das almas, aos
subterrâneos imundos das megalópoles, e em um delay cacofônico, lembrá-las
daquilo que querem esquecer.



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Felipe, que bom ter resolvido publicar! É a nossa forma de lutar contra a mediocridade! Tua voz, o teu grito são muito importantes! Parabéns por tão forte expressão!
ResponderExcluir❤
ExcluirQue maravilha, Felipe! Muito bom!
ExcluirMuito bom, Felipe! Parabéns!
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