Fragmentos - Crônica de Douglas Oliveira

FRAGMENTOS





No começo é sempre difícil. Após o fim, depois de ter amado sozinho, a gente reaprende a viver enquanto a chaleira grita na cozinha.  Após algum tempo juntando os cacos do que um dia foi um coração uma outra mão delicada segura na tua e te puxa com força a ponto de te arrancar os braços, te aperta contra o peito a ponto de te fazer doer os ossos, mas os braços são firmes, carregaram por dias a gravidade de um amor falecido. 
Chega o tempo em que outras pernas te dobram, te apertam com força entre o quadril enquanto os dentes te mordem as orelhas. Outra boca te alcança e implora a ternura dos teus dias. Reaprendemos o gemido do beijo, o estro dos olhos, a paixão da pele, o gosto da transa. Outro corpo, outra boca que profere mentiras, outros olhos que te lançarão ao abismo. Todavia nada te fere, a carne já não sangra, porque não há o que sangrar, e assim se sobrevive mais uma noite. Tuas prisões são temporárias, há entrega sem medo, amor sem vontade. O amor tornou-se pequeno, sem disposição para crescer. 
De repente não olhas as horas, na esquina a orgia torna-se solitária, o sexo não te alcança o gozo, passas a alimentar vultos e açoitar miragem. A primeira vez, após o amor chegar ao fim, o coração parece pular sem paraquedas do alto de um prédio, mas lembra, na hora do salto, que suas sólidas paredes, são agora farelos que o vento leva. 
As mãos delicadas te dão a foda do ano, desabotoam tua camisa, lançam fora teus sapatos. Expurgam do teu corpo o demônio do passado. Teu peito explode, enquanto por cima a mulher que te beija exorciza tua paixão. 
No começo a lembrança é uma fotografia em cores, até que se converte em sépia, o agora é breve e o ontem sempre eterno. Mas as mãos delicadas te puxam os cabelos, grita na tua cara que a porra da vida é maior que "ela". Vês o espelho e tua sombra começa a ter cor; há agora um prólogo do teu sorriso espantando fantasmas. 
O começo é sempre difícil, mas o fim é bem pior.



Douglas Oliveira - arquiteto e urbanista, escritor e editor da editora folheando. Em 2017 venceu o Prêmio da Fundação Cultural do Pará, com o romance "Histórias de Chuva", em 2018 publicou o livro de contos Deus e o peixe-voador, e atualmente trabalha no próximo livro, "Elefantes não sabem voar", sem data de lançamento.



curadoria e edição de marcos samuel costa
variações revista de literatura contemporânea
2020
I edição 

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas