O ambiente literário paraense em epístolas - Gutemberg Armando Diniz Guerra

 



O ambiente literário paraense em epístolas

Gutemberg Armando Diniz Guerra

Engenheiro agrônomo

FARES, Josebel e NUNES, Paulo. Epístolas poéticas. Maria de Belém Menezes e Dalcídio Jurandir. Belém: Editora Paka.Tatu, 2020.

 

Aos que não costumam ler prefácios, apresentações e introduções de livros, recomendo forte e insistentemente que não deixem de degustar o que Josebel Fares e Paulo Nunes escreveram para explicar os procedimentos metodológicos que resultaram nessa belíssima obra que estamos a resenhar. Merece ser levada à leitura em todos os cursos de graduação, mestrado e doutorado para que vejam como o rigor na construção do conhecimento merece atenção e sensibilidade dos pesquisadores. Posso afirmar estar ali descrita uma verdadeira aula de epistemologia e metodologia de pesquisa. Tenho a impressão de estar diante de monges copistas dedicados a ler, selecionar, transcrever, fazer o casamento das correspondencias, analisar e editar ilustrando aos que possam vir felizes a esse exercício de meditação e contemplação do que é capaz a literatura humanizada.

Agrega-se a essa refinada introdução os textos que apresentam Maria de Belém Menezes, escrito por Maria Leonora Menezes de Brito e as visões de Belém que saltam das cartas, escrito feito por Isabelle Pantoja, Daniele Lobato e Camila Bastos Lopes da Silva.

O livro é muito rico de informações sobre Dalcício Jurandir, Bruno de Menezes e todo o círculo de amizades de ambos, informando sobre o denso ambiente literário de Belém ao longo de décadas, embora o material analisado esteja datado de 1971 a 1975. Além da correspondência cheia de vida e informações sobre os costumes de Belém do Pará e do Rio de Janeiro, cada personagem citada nas epistolas tem acrescidas informações sobre elas em notas substanciais de rodapé, ilustrando o minucioso trabalho de pesquisa feito pela equipe mobilizada pelos autores para a edição dessa obra.

É comum nesse tipo de escrito a intimidade com que as pessoas se tratam e como se referem aos assuntos, mas no caso dos missivistas verifica-se um cuidado nos relatos e comentários, demonstrando um perfeito conhecimento e uso da língua. Pode-se ver ali um diálogo educado e respeitoso, em que pese uma ou outra frase que possa ser considerada irreverente e até mesmo vulgar, se julgada fora do contexto e utilizado um rigor fora do que se permitiram os autores das cartas que foram escritas sem nenhuma pretensão de publicação. Sobre isso, e apenas para ilustrar essas raras ocorrências, na página 193, diz Dalcídio: “As barracas de detrás da Basílica, com licença da palavra, o cu da festa, como era dito”.

Uma pergunta que me faço é que tipo de restrição teria colocado Maria de Belém e a família de Dalcídio ao doar as cartas e permitir a sua publicação. Nesse sentido ainda, caberia uma pergunta sobre qual teria sido o filtro, se é que houve um, utilizado para a publicação desses conteúdos.

Alguns destaques merecem ser feitos como os comentários sobre os escritos de João de Jesus Paes Loureiro, de Lúcio Flávio Pinto e o Diário do Padre Giovani Gallo, enviados em vários recortes e comentados em passagens diversas ao longo do expressivo volume de missivas. Sobre o padre italiano é muito interessante se constatar a admiração e respeito que Dalcídio Jurandir, militante comunista assumido e Maria de Belém Menezes, católica praticante, nutrem e explicitam pelo religioso jesuíta. Sobre a relação de Dalcídio com a religião merece menção o destaque e crítica pertinente que ele faz quando setores da igreja se aliam e são complacentes com a dominação, fazendo justiça quando outros setores se associam e exercem o humanismo reconhecido pelo autor em diversas passagens, enaltecendo o Padre Gallo. Essas reflexões deveriam servir para o momento atual em que as generalizações se tornaram bipolares e de uma leviandade avessa ao acúmulo que se tem sobre o assunto. Merecem, as posturas de Dalcídio Jurandir, repito, confesso comunista militante, e de Maria de Belém Menezes, católica praticante, uma reflexão profunda sobre o respeito às diferenças e o diálogo possível e elevado entre os seres humanos. Ali se tem uma boa oportunidade de desfazer pré conceitos sobre o que seria o comunismo, ou os comunistas, geralmente colocados no inferno em julgamentos apressados e de profunda ignorância sobre o assunto.

Não se pode deixar de admirar a relação intergeracional que transparece nos comentários de um e outro missivista, demonstrando o interesse de Dalcício por estar atualizado sobre o que se passa em Belém e a presteza de Maria de Belém em falar de antigos companheiros de Bruno de Menezes e de novos escritores e artistas que vão sendo apresentados a cada carta/bilhete. Ali são pontuados e enaltecidos Lindanor Celina, Ápio Campos, Max Martins, Benedito Nunes, João de Jesus Paes Loureiro, Tó Teixeira, Waldemar Henrique e muitos outros de idades e épocas diferentes mas presentes nas relações humanas da capital do Pará.

As mensagens são relativamente curtas em termos de caracteres, mas a densidade de informações é impressionante, tanto quanto a riqueza de detalhes carregados de humor, afeto, intimidades amistosas além de uma elegancia cativante nas escritas  escorreitas, plenas de vida e amorosidade. Vamos encontrar ali desde referências a variações climáticas a sabores degustados nas mansões, nos casebres, nos restaurantes e nas esquinas e becos, de produtos regionais utilizados no cotidiano dos humildes aos produtos transformados em commodities, das roupas bem talhadas aos cortes de chita.

O livro é uma imersão na cultura amazônica na qual Maria de Belém se esforça para manter Dalcídio atualizado a partir de notícias veiculadas nos jornais e na sociedade belemense, ao mesmo tempo em que os dois vão dialogando no emaranhado da linguagem vernacular da região, introduzindo os leitores que  vão tendo acesso a uma crítica refinada ao processo que vai descaracterizando, expropriando, violentando a cultura ribeirinha, camponesa, indígena e urbana da província, a título de uma modernização violenta e descabida.

A cultura literária dos missivistas é inconteste e demonstrada ao longo de toda a correspondência, em particular na página 112, quando são citados Gabriel Garcia Marques, Racine, Conan Doyle e Guy de Maupassant em um breve diálogo sobre possíveis comparações com a obra de Dalcídio Jurandir. O nosso literato pede para baixarem a bola com a modéstia que lhe caracteriza e se manifesta nesse tom em várias passagens desse extenso acervo.

O sofrimento se acumula nessa correspondencia pelo frequente obtuário que Maria de Belém é obrigada a relatar para Dalcídio, ainda que o faça com muita serenidade. Há um aparente desconforto em dar essas notícias de amigos que vão completando seus dias por causas diversas, o que é feito, entretanto, com muita afetuosidade e respeito.

A referencia singela a lugares e detalhes da vida da cidade capital e da ilha do Marajó é comovente. O Bosque Rodrigues Alves, a embarcação navio Presidente Vargas, o conserto do dente do cavalinho do carrossel do parque de diversões na quadra do Círio, as receitas de maniçoba, o miolo de japiim, as vitórias do Remo, as memórias do Padre Gallo... Dalcídio é instigado a se confessar torcedor do Remo (p. 119) e ele aproveita para revelar ser avesso ao Flamengo e, ao revelar e demonstrar o seu afeto pelo clube azulino fala de uma escalação de 1921, quando ele teria apenas 9 anos de idade. É recorrente a presença de Eneida de Morais e sua alegre presença no “Quem São Eles”, bloco carnavalesco histórico do bairro do Umarizal.

A finalização das correspondências datada de 1975 é instigante, a meu ver, em uma troca de despedidas existenciais em que o escritor marajoara fala de sua resistência à doença que o debilita e que o levará ao túmulo quatro anos depois mas que ele profeticamente anuncia.

Nesse volume analisado e resenhado temos 112 cartas, conforme tabela apresentada na página 15, o que nos deixa ávidos do que virá em volume seguinte, já no prelo, em mais 89 missivas. Estou seguro de que temos em mãos um valioso material para despertar as consciências sobre o valor das cartas, seja ela de personalidades reconhecidas como os dois que serviram de empiria para esse estudo, seja o de cidadãos comuns, que registram muito mais do que comunicados afetivos entre familiares e amigos. Com certeza o titulo que remete ao conceito de epístola e propõe subliminarmente uma leitura atenta desses escritos, é um excelente alerta para quem tenha em seus guardados esse tipo de insumo. E não me venham dizer, quem quer que seja, que as letras e a academia não servem para a compreensão sobre o que há de mais concreto na vida humana.

Por fim, seria dispensável a apresentação dos professores doutores Josebel Fares, ela titular na Universidade do Estado do Pará, com vasta produção acadêmica, e Paulo Nunes, igualmente capacitado professor da Universidade da Amazônia. Ambos tem consistente produção acadêmica com escritos que merecem ser visitados por todos aqueles que se interessem pela literatura amazônica.



Variações: revista de literatura contemporânea 

I X Edição - Mais Brasil que nunca
Edição de Marcos Samuel Costa

2023

Comentários

  1. Maravilhoso! Como poderia eu pensar em não comprar “Epístolas poéticas” depois de ler a riquíssima e instigante resenha “O ambiente literário paraense em epístolas”, do Professor Doutor Gutemberg Armado Diniz Guerra? Impossível! Quero comprar o meu exemplar.

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  2. Profesor Gutemberg Guerra é um apurado cientista do mundo agrário, mas aqui ele mais uma vez se desvela um grande resnhista; como um dos organizadores do livro me vejo contemplado com os comentários destegrande intelectual. Agradeço tambéma oportnidade de ler a Variações

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