Maria Emanuelle Cardoso.
Os olhos de Olga ainda estão azuis
Desde dezembro do ano passado, teu nome é este gato laranja à espreita na minha janela. Não sei há quanto tempo o corpo do felino está vivo, seu sexo, ou de que casa fugiu. Sei que tens o rosto pontiagudo e, quando me vê chegar, fecha os olhos. O gato chama-me, deitado nos braços do sofá azul no quintal. Quando chego perto da janela, o gato foge.
Combinamos de que se for uma gata, é a tia de Olga. Se for um gato, é o pai. Foi ele quem trouxe Cecília e os filhotes. Cecília é uma gata de três cores: laranja, preto e amarelo. Uma gata mergulhada em água sanitária. Os filhotes nasceram – Fiódor, um frajola de gatos cinzentos e Olga - uma branca de olhos azuis; o prelúdio do laranja ameaçando aparecer no seu pelo no formato de poças de água, na cauda como uma bengala natalina listrada.
Certa manhã, enquanto regava os abacates, vi Cecília ordenando que os filhos saíssem da espada de São Jorge, lugar que foi refúgio para os pequenos durante o tempo das águas.
Na madrugada do mesmo dia, acordei com fortes socos na janela.
Pensei ser um ladrão. Acordei a minha família. Andei na ponta dos pés. A meliante maior estava no batente da janela. Os pequenos infratores ainda não sabiam escalar.
Desde então, os gatos moram aqui.
Já temos tantos, mas há esse costume familiar de guardar tudo o que nos chama pela janela.
Lembro-me do teu gato Céu, um frajola de olhos azuis.
Céu morreu pouco depois da sua avó.
Tua família demorou
para lhe dar a notícia.
Contaste-me dos tubos nas veias da sua avó,
do câncer no útero de sua avó,
esta adaga perseguindo o ventre da tua família.
Este corte fazia você querer, o quanto antes, um casal de filhos.
***
Você de olhos bem abertos, com o indicador na minha têmpora esquerda:
“o que se passa
nessa sua cabeça?”
E eu lhe respondia silêncio
(como faço
para em meu útero
gerar nossos filhos)
***
Esta lâmina em sua têmpora, por não ter visto o Céu em seu último dia, por ter visto a tua avó cancerosa, no último dia.
Tua mãe lhe disse que
arrumaria um gato novo.
Desde dezembro do ano passado, tudo que fazemos
é dizer sim aos gatos que aparecem pela janela
Alimentá-los, observá-los
Aguardar, parados e
de olhos fechados
o som de sua esquiva.
Maria Emanuelle Cardoso nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, Brasil, em 15 de novembro de 2000. É bióloga e mestranda em Biodiversidade e Uso de Recursos Naturais pela UNIMONTES. Sua pesquisa concentra-se em Etnoecologia, e trabalha como educadora popular e ativista socioambiental. Seu primeiro livro, amarelo mostarda , foi publicado em 2024 pela Editora Nauta. Ela tem textos publicados em mais de cinquenta antologias em português, inglês e espanhol. Foi selecionada para o programa Clipe 2023 da Casa das Rosas, recebeu o segundo lugar no Prêmio Poesia Agora Verão 2021 da Editora Trevo e foi semifinalista do Prêmio Loba. Seu segundo livro, foram os peixes a inaugurar a linguagem, será lançado em breve.
Variações: revista de literatura contemporânea
XIII Edição - vidas fantasmas: poéticas assombrológicas
Edição de Bruno Pacífico, 2026.
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