UMA ENTREVISTA COM MARCOS SAMUEL COSTA

Marcos Samuel Costa.

Entrevista concedida por Marcos Samuel Costa para Bruno Pacífico, da Revista Variações, em 10 de janeiro de 2026. 


1- Marcos, fale-nos um pouco do teu processo de escrita. Conte-nos sobre o seu percurso como poeta-prosador do Norte. Quando a tua escrita começa, por que ela começa?

Essa semana estive com minha médica, meu CID mudou, estou agora no “quadro” F41.1; pelo que pesquisei, é síndrome generalizada de ansiedade. Coisa que faz bastante sentido para mim, não falo isso com orgulho nenhum. Há certa tristeza, pois não fomos nós que escolhemos adoecer. O processo de adoecimento começou lá na infância com o bullying na escola, homofobia e afins. E avançou como chaga pelo corpo, depois vieram os lutos, mortes, deslocamentos, recomeços e rompimentos.

Bem, e isso chega à minha escrita e leitura, acabo tendo um processo de escrita muito bagunçado, com vários projetos ao mesmo tempo. Nesse momento, por exemplo, estou revisando um romance (que iniciei em 2022); trabalhando num livro de contos (que deve demorar uns cinco anos no mínimo); revisando um livro de poemas de 2024; e iniciei um projeto novo de poemas. Todo ano inicio um projeto de livro de poemas.

Minha escrita é meio caótica, também não sinto orgulho disso. Acho bonito quando leio os relatos dos colegas que dizem que escrevem dois poemas por ano, que leem livros lentamente, apreendendo o máximo dessas leituras. Leio quatro livros ao mesmo tempo, às vezes. Minha irmã, Patrícia, que nem mora comigo, vive falando que sou acelerado demais. Um dia quem sabe aprendo a lidar com tudo isso.

Meu percurso de escrita, como perguntaste, Bruno, é bastante difícil. Esses dias ouvi/vi uma entrevista da Luedji Luna em que ela relatava como era ser uma estranha em São Paulo, como se estivesse em outro país, e nisso ela compôs aquele álbum lindo: Um Corpo no Mundo. Me senti um pouco assim quando me mudei para Belém em 2015: isolado, perdido, diante de portas fechadas (acionei todos os conhecidos em busca de emprego, me mantive com bolsa de estágio), tudo muito difícil, doloroso, o meio literário é excluente, por vezes, não generalizo, encontrei pessoas maravilhosas que me receberam em suas vidas e partilharam comigo muitos sonhos, almoços e afetos, como Miriam Daher, Ana Meireles, Gigio Ferreira, Lilian Miranda e Sílvio Holanda.

Experimentei a privação de alimentação, falta de grana para o ônibus, morei em uma quitinete minúscula. Foram anos terríveis, depois veio a graduação na UFPA. A trajetória de escrita passa por esses lugares extremos, de medo, de afastamento. Morando em Belém, não estive ao lado dos meus pais nos seus últimos anos de vida, e isso ficou como uma chaga, mas, por outro lado, se não tivesse formação, não teria renda.

A escrita começou pela necessidade de expressão lá na adolescência. Era necessário escrever, mesmo que por metáforas. Ali já estava lidando com a homoafetividade que viria à tona anos depois, de forma muito escondida. Lembro que, quando coloquei pela primeira vez um texto com essa liberdade de escrita no Facebook, a poeta Wanda Monteiro comentou algo como: “encontraste o rio da tua escrita”. E ela estava certa, enfim a represa começava a desaguar.

 

2- Seu novo livro, Saltos ornamentais, está prestes a ser lançado. Conte-nos um pouco sobre ele. Que tema você trará aos leitores e como foi trabalhar com esse tema?

 

Esse romance em versos, que tende a algo experimental, lida com lutos e afastamentos. Rompi duas longas amizades que beiravam vinte anos, e o processo foi duro para mim. E logo após esse afastamento, tanta coisa aconteceu que foi impossível não escrever, o personagem principal, fora o narrador, do livro “Tales” é uma metáfora para tudo isso. Para esses amigos que se foram da minha vida, para os dias turbulentos que estava vivendo.

Ao longo desse curtíssimo romance em versos, coloco minha escrita e meus sentimentos no limite. Hoje há certo êxtase em torno da autoficção, no entanto, continuo apaixonado pela possibilidade de usar o real da minha vida como matéria da construção ficcional.

Saí do mestrado em Antropologia (no programa que fiz, estudamos os quatro campos) apaixonado pela Arqueologia; não me vejo um dia como arqueólogo, no entanto, adoro ler as produções dessa área. E trouxe muitas coisas dessa formação, muitas coisas das leituras arqueológicas.

Trabalhar com essas temáticas, escrever esse livro foi difícil. Pois, quando estava em fase de revisão, alguns trechos me abalaram muito, fiquei mal nas releituras. Mas creio que as/os/es leitores/as/xs irão gostar; aliás, é minha esperança.

 

 

3- Existe alguma relação desse novo livro com os seus outros trabalhos anteriores? Quais percursos te levaram até ele ou como ele chegou até você?

 

Na verdade, não, tenho outros dois romances em versos esperando oportunidades de publicação, mas eles são muito livres uns dos outros. As únicas coisas em comum são a estrutura (em versos, sem rimas, sempre muito fora do curso, sem narrar de forma linear uma história, tudo sempre muito fragmentado). Porém, por outro lado, eles são próximos em suas diferenças.

Creio que até para mim isso é confuso ainda (risos).

 

4- O que o título significa para o contexto do livro? O que são esses saltos ornamentais?

 

É um empréstimo arqueológico, pois, desde a Grécia antiga, essa prática existe. Então fiquei pensando: como esses saltos atravessaram os tempos, eles chegaram até nós hoje. Esse romance é isso, saltos no tempo, na coragem de deixar morrer, saltos nos desafios do desapego. Saltos dentro do silêncio e da palavra. O livro é recheado de lacunas, talvez o silêncio pese mais do que as próprias palavras nesse romance.

Foram dias e dias colocando cada palavra num lugar da página, lidando com o silêncio. O mesmo silêncio que o rompimento causou na minha vida.

 

5- Percebe-se a presença da escritora equatoriana Mónica Ojeda como entidade influente em seu livro. Quais livros dela e de outras(os) escritores lhe influenciaram para a escrita de Saltos ornamentais?

 

Sim, li ela e ela foi o motor da coragem de escrita desse livro. O História do Leite me marcou muito. No entanto, outro escritor me influenciou muito, o paraense Vicente Franz Cecim, com sua obra monumental (mais de mil páginas) e imaginária Viagem a Andara oO livro invisível. Esses dois escritores latino-americanos possuem essa escrita que se coloca acima de gênero (se poesia, se narrativa, se prosa ou verso).


6- Tens alguma indicação de filmes ou músicas para esse novo trabalho?


Sim, os filmes sul-coreanos e orientais têm me marcado muito. Essas micro e macro narrativas de emigração, como: Past Lives ("Vidas Passadas"), escrito e dirigido por Celine Song, 2023; Perfect Days ("Dias Perfeitos"), dirigido por Wim Wenders, 2023. Entre outros.

Na música tenho me rendido ao rap e ao hip-hop brasileiro, tenho aprendido muito com esses caras e minas que cantam e compõem, fico extasiado com a inteligência e urgência das letras, como: Palok, pumapjl, Big Bllakk, Baco, Seu Pereira, Pedro Apoema, BK’, Black Alien, entre outros. E sempre, sempre estou ouvindo nossa nova e antiga música popular brasileira, que hoje voa meio elitista falar MPB.


Marcos Samuel Costa é escritor semifinalista do Prêmio Oceanos 2024, pesquisador ribeirinho, assistente social e doutorando em Antropologia no PPGA-UFPA.


Variações: revista de literatura contemporânea
XIII Edição - vidas fantasmas: poéticas assombrológicas
Edição de Bruno Pacífico, 2026.

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