UM CONTO DE JEAN JAVARINI
Depois que Marta foi embora, o quarto permaneceu.
Não no sentido material — a cama arrumada, o guarda-roupa fechado, a janela entreaberta para o mesmo quintal de sempre —, mas como uma instância ativa da casa. Um território que operava por silêncio. Um lugar onde nada acontecia, e exatamente por isso tudo acontecia demais.
Durante semanas, Paulo evitou passar pelo corredor. Sabia que o quarto não o chamava. Ele apenas estava ali, cumprindo sua função de ausência. Ainda assim, o piso rangia de modo diferente quando ele se aproximava, como se a madeira soubesse medir distâncias emocionais.
Marta não morreu. Isso seria mais simples. Marta decidiu não ficar.
Levou livros, roupas, o violão esquecido atrás da porta e um caderno de capa azul que Paulo nunca leu. Deixou o cheiro — isso ninguém consegue levar — e deixou o hábito, que é sempre mais difícil de erradicar. Todas as noites, às vinte e duas, Paulo ainda pensava: Marta já deve estar no banho. Em seguida, lembrava-se de que não havia mais Marta, apenas o pensamento dela.
A casa passou a ser regida por essa lógica: coisas que continuavam a acontecer mesmo sem motivo.
Certo dia, ao criar coragem para abrir a porta do quarto, Paulo percebeu que algo não estava fora do lugar. Isso o perturbou mais do que se tudo estivesse revirado. A organização era uma forma de fidelidade. Um pacto silencioso entre o espaço e quem já não o ocupava.
Sentou-se na beira da cama. O colchão afundou no ponto exato onde Marta costumava sentar para calçar os sapatos. Não era memória muscular — Paulo nunca se sentara ali antes. Era o quarto insistindo.
Ele começou a falar. Não para Marta, mas para o intervalo deixado por ela.
Falou do trabalho, das notícias repetidas, do vizinho que agora regava plantas às seis da manhã. Falou da vontade de mudar de cidade, embora soubesse que isso era apenas uma forma elegante de tentar fugir de um quarto.
Ao sair, fechou a porta com cuidado, como quem respeita um ritual antigo sem saber sua origem.
Os dias seguintes trouxeram pequenos fenômenos. Nenhum ruído inexplicável, nenhuma sombra fora de lugar. Apenas continuidades indevidas.
A xícara de Marta, guardada no alto do armário, parecia suja todas as manhãs. O espelho do banheiro embaçava mais rápido quando Paulo escovava os dentes. O rádio, desligado há meses, sintonizava sozinho uma estação que tocava músicas que Marta odiava — e que, agora, Paulo também passou a odiar por associação.
Não havia presença. Havia efeito.
Foi então que Paulo compreendeu: a casa estava sendo governada por aquilo que não se resolvera. Marta não era um fantasma; era uma hipótese em aberto. Uma possibilidade que o mundo recusara concluir.
Decidiu escrever.
Não para enviar cartas nem para organizar sentimentos — isso seria ingênuo. Escreveu para dar forma ao que estava sem forma, para criar um corpo provisório para aquilo que insistia em agir sem existir.
Todas as noites, sentava-se à mesa e escrevia cenas que não aconteceram: conversas interrompidas, viagens adiadas, discussões evitadas por cansaço. Escrevia finais alternativos para a mesma história, sabendo que nenhum seria verdadeiro, mas todos eram necessários.
O quarto reagiu.
O ar tornou-se mais leve. A cama deixou de marcar afundamentos estranhos. A xícara apareceu limpa. Não por exorcismo, mas por reconhecimento. A ausência, agora nomeada, perdia força.
Na última noite antes de decidir desmontar o quarto, Paulo entrou e abriu a janela. O vento atravessou o espaço como quem cumpre uma despedida atrasada. Pela primeira vez, sentiu que o quarto não insistia. Apenas existia.
Ao sair, deixou a porta aberta.
Algumas semanas depois, já com o quarto transformado em escritório, Paulo percebeu algo curioso: às vezes, ao escrever, sentia uma ideia que não era exatamente sua. Uma imagem que vinha de outro ritmo, outro modo de ver. Não era Marta — seria injusto reduzi-la a isso. Era o que sobrou dela enquanto pensamento.
Paulo sorriu.
Entendeu, enfim, que certas vidas não se tornam fantasmas por morrerem, mas por não se concluírem. Elas permanecem como sistemas invisíveis, organizando afetos, escolhas e silêncios.
A casa nunca mais foi a mesma.
E ele também não.
Mas ambos aprenderam a conviver com o que não está — não como falta, mas como assombro: aquilo que age porque não pode mais ser.
Mas a casa ainda não havia terminado.
Certa tarde, ao voltar do mercado, Paulo encontrou a porta aberta. Não escancarada — apenas aberta o suficiente para sugerir que alguém soubera exatamente até onde ir. O primeiro impulso foi o medo, esse reflexo antigo que confunde ausência com ameaça. O segundo foi mais estranho: reconhecimento.
Havia alguém sentado à mesa.
Uma mulher de cabelos curtos, óculos de armação fina, folheava o caderno de capa azul — o mesmo que Marta levara. Paulo teve certeza absoluta disso. O caderno não deveria estar ali. Nunca esteve.
— Você não devia ter encontrado isso — disse a mulher, sem levantar os olhos.
A voz não era de Marta. Era mais baixa, mais seca, como quem aprendeu a falar pouco para não desperdiçar sentidos.
— Quem é você? — Perguntou Paulo, sem se mover.
Ela fechou o caderno com cuidado excessivo, como se o objeto pudesse se ferir.
— Meu nome é Helena. Eu… fiquei com isso por um tempo. Depois devolvi.
— Devolveu para quem?
Helena sorriu, um sorriso sem humor.
— Para o lugar certo.
Ela se levantou. Paulo percebeu então que não havia barulho algum: nem passos, nem o arrastar da cadeira. Apenas a sucessão lógica dos movimentos.
— Marta não foi embora como você pensa — disse Helena. — Ela ficou em outro estado. Um estado sem corpo.
Paulo sentiu o estômago se contrair. Não era incredulidade. Era o reconhecimento de algo que sempre soubera, mas evitara formular.
— Marta escreveu tudo aqui — continuou Helena, batendo levemente no caderno. — O que não disse, o que adiou, o que você nunca perguntou. E escreveu uma coisa a mais.
— O quê?
— Que alguém precisava continuar.
Helena caminhou até o quarto — o antigo quarto — agora escritório. Passou a mão pela mesa, pelos papéis espalhados, pelas palavras ainda frescas.
— Ela não queria ser lembrada. Queria ser usada.
Paulo entendeu, então, a reviravolta mais cruel: Marta não era a assombração da casa. Ele era. Permanecera ali como suporte, como campo de ação para algo que precisava existir sem existir.
— E você? — Perguntou. — Quem é você nisso tudo?
Helena hesitou pela primeira vez.
— Sou leitora — disse. — E, às vezes, continuidade.
Ela explicou: fazia parte de um projeto informal, quase clandestino, de textos que não buscavam publicação, mas hospedagem. Escritos de quem precisava desaparecer sem sumir completamente. Marta chegara até eles meses antes de partir. Não deixou endereço, não deixou contato. Apenas o caderno e uma frase final:
“Alguém vai precisar sentir minha falta direito. ”
— Você ficou — disse Paulo, mais como constatação do que acusação.
— Não — corrigiu Helena. — Eu volto. Quando a ausência começa a falhar.
Paulo percebeu que o quarto nunca fora assombrado por Marta, mas preparado por ela. Cada objeto, cada silêncio, cada insistência era um mecanismo de transmissão.
— E agora? — Perguntou.
Helena abriu a porta.
— Agora você decide se isso termina aqui… ou se continua.
Ela saiu. A porta fechou sozinha, sem ruído.
Paulo sentou-se. Abriu o caderno azul. Na última página, havia algo novo, escrito com uma letra que não reconhecia — nem de Marta, nem sua.
“A assombração não acaba. Ela troca de função. ”
Paulo pegou a caneta.
Do lado de fora, a casa permaneceu em silêncio.
Mas, em algum lugar do mundo, alguém começava a sentir uma falta sem saber de quem.
E isso bastava.
Paulo escreveu até a madrugada, sentindo um cansaço que não era físico, mas ontológico. Perguntava-se quantas escolhas da vida tinham sido realmente suas e quantas haviam sido orientadas por ausências mal resolvidas, por palavras nunca ditas, por afetos que se recusaram a morrer. Seria ele autor ou apenas superfície? Havia algo de assustador e, ao mesmo tempo, consolador em perceber que ninguém escreve sozinho — somos sempre atravessados por quem faltou.
Em certo momento, chorou. Não pela perda de Marta, mas pela compreensão tardia de que o amor nem sempre quer permanência; às vezes quer circulação. Marta não desejara ficar, mas continuar. E continuar, descobriu Paulo, dói mais do que ir embora. Porque exige responsabilidade: dar forma ao invisível, sustentar o que age sem corpo, aceitar que algumas relações não terminam — apenas mudam de estado.
Quando o sol nasceu, a casa parecia finalmente neutra. Não vazia, não cheia — apenas disponível. Paulo fechou o caderno azul, não como quem encerra um capítulo, mas como quem aceita um pacto silencioso com o que não se resolve. Lá fora, a cidade acordava sem saber que certas vidas, ao invés de morrerem, aprendem a assombrar com delicadeza. E ele, agora, sabia: viver também é aprender a hospedar fantasmas — não para aprisioná-los, mas para deixá-los agir enquanto ainda significam.
Jean Javarini, nascido em 1977, em Colatina, Espírito Santo, é professor de Matemática, coordenador escolar e escritor comprometido com a formação intelectual e humana. Residente em Linhares, destaca-se pelo trabalho dedicado à promoção de uma educação de excelência, marcada pela ética, sensibilidade e capacidade de inspirar alunos e colegas. Pós-graduado em Gestão Escolar, alia sólida formação técnica a uma atuação pedagógica cuidadosa, sempre orientada pela busca de práticas inovadoras que favoreçam o aprendizado significativo e o desenvolvimento integral dos estudantes. Como autor, possui textos publicados em diversas antologias literárias.

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