Adultério e ciúme na obra de Machado de Assis - Valdinar Monteiro de Souza

 



Adultério e ciúme na obra de Machado de Assis

 

Valdinar Monteiro de Souza¹


O adultério, o ciúme e o casamento são temas frequentes na obra de Machado de Assis. Por quê? Ah, as razões talvez sejam muitas e explicá-las não cabe no pequeno espaço de uma crônica. Penso, contudo, que a principal delas – talvez a única – seja o desejo de criticar, tanto na ficção quanto nas crônicas, a sociedade, seus hábitos e seus costumes. Não sem razão, Machado, que sempre foi um arguto analista do homem e da condição humana, disse, logo no início de Memórias póstumas de Brás Cubas, ter escrito com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. Esta, pois, talvez seja a melhor explicação: a firme reação literária à realidade de seu tempo, que, nos hábitos e costumes, não era muito diferente do nosso.

Como escrevi no meu trabalho de conclusão do curso de Letras, Machado de Assis dizia sem dizer, ou – melhor dizendo – dizia dizendo que não dizia. Usava a técnica de dizer que não iria falar disso ou daquilo, mas já estava falando. Muito perspicaz, era na sua escrita, por isso mesmo, crítico e irônico com a mais profunda elegância. Ouvi, certa vez, um colega letrólogo e professor de Letras dizer que, para ele, Machado foi só um copiador. Eu digo o contrário. Não, não foi. Eu discordo completamente disso. Machado foi, em tudo e por tudo, originalíssimo. Para mim, sob qualquer perspectiva, a afirmação do colega é um grande sacrilégio.

Todo texto é uma intertextualidade, pois somos o que pensamos e absorvemos do que lemos, vimos e ouvimos. Isso, todavia, não significa ser mero copiador ou plagiador do que leu. Machado era, por certo, além de muito observador, um leitor voraz e, assim, absorvia criticamente o que lia, via e ouvia. Com efeito, foi influenciado pelos clássicos, por tudo que leu e pelos intelectuais com quem conviveu, mas foi originalíssimo na sua produção. Para conhecer a obra machadiana, aliás, como para conhecer qualquer outra obra, é necessária ir à essência e não ficar apenas na superficialidade. Como diz Caetano Veloso: “De perto, ninguém é normal.” Pois bem, isso é a essência.

Por escrever, sobretudo, acerca do ser humano e de sua condição, Machado de Assis não perde jamais a atualidade: na essência, não se torna anacrônico, quer na ficção, quer nas crônicas. Dá gosto ler nos dias de hoje, pelo frescor de sua atualidade, as crônicas de Machado de Assis, embora já tão distante no tempo a data em que foram escritas e publicadas. A leitura delas faz aflorar o sentimento de que isto ou aquilo que dizem ocorreu ontem ou anteontem, ao nosso redor, à nossa vista. A da ficção também. Não há como negar que, embora hoje sejam outros os valores de então, andam por aí a esbarrar uns nos outros as Capitus, Bentinhos, Escobares e Ezequiéis. E não é diferente com outros temas machadianos.

Machado de Assis, com ironia, humor e sarcasmo, soube explorar e trabalhar como poucos a vaidade, a hipocrisia, o egoísmo, e outros deslizes morais da sociedade de seu tempo. Soube negar com maestria a exaltação romântica da sociedade burguesa, como também as ideias liberais de exaltação do capitalismo. É rica, belíssima e erudita a intertextualidade na obra machadiana, como, por exemplo, a intertextualidade bíblica, na forma de copresença, quando o narrador defunto de Memórias póstumas de Brás Cubas diz que teve a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do próprio rosto. E, para finalizar, que dizer, por exemplo, do enigma sobre o adultério ou não de Capitu em Dom Casmurro? Houve ou não houve adultério?


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¹ Valdinar Monteiro de Souza é natural de São Domingos do Araguaia (São João do Araguaia), Estado do Pará, nascido em 6 de março de 1960. É bacharel em Direito pela Universidade Federal do Pará – Campus de Marabá (2002), especialista em Direito Administrativo pela Universidade Gama Filho (2013), especialista em Direito Constitucional pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (2015), especialista em Direito Médico pela Universidade de Araraquara (2017), e está cursando licenciatura em Letras – Português e Inglês pelo Centro Universitário Senac de São Paulo – Campus de Santo Amaro (do 2.º semestre de 2022 ao 1.º semestre de 2026).



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