Árvores de Belém - Gutemberg Armando Diniz Guerra

 

Árvores de Belém

Gutemberg Armando Diniz Guerra



        A maioria das árvores nas ruas mais antigas e emblemáticas de Belém são mangueiras. Elas chamam muito a atenção, mas não são as únicas. Podemos encontrar também muitos oitizeiros, sumaumeiras, amendoeiras, ipês, acácias, fícus, bogaris e muitas outras que, por não serem conhecidos os seus nomes, passam desapercebidas. 

Os troncos e raízes de muitas delas nos impressionam pela espessura indicando ancestralidade e presenças históricas marcantes. Algumas delas, em logradouros turísticos, se constituem em verdadeiras instituições, como as sumaumeiras do Complexo Arquitetônico de Nazaré e as áleas de mangueiras na Avenida Nazaré. Calçadas de cimento e pedras tentam lhes dar contornos que elas, rebeldes, não respeitam e rompem em protesto aquelas camadas de impermeabilizantes inconvenientes para elas. As copas vão sendo desenhadas para se adequar aos perfis de construções e instalações do mundo contemporâneo. Fios condutores de energia elétrica e telefonia lhes atravessam e construções verticais e cada vez mais próximas das ruas obrigam a podas que lhes dão formas estranhas, fazendo-as inclinarem-se para o meio das ruas, desequilibrando-as na busca pela luz do sol. O perigo é que, com o deslocamento do centro de gravidade, no inverno, com os solos saturados pelas chuvas abundantes, tombam provocando prejuízos materiais e obstrução de vias públicas. 

Olhando bem, há formatos de taças, de corações, de pirulitos, de anéis, de forquilha e outros que nossos olhos e imaginação possam associar. Quando emparelhadas de um lado e do outro das avenidas, formam túneis agradabilíssimos de se contemplar. Elas amenizam o calor ambiente e oferecem uma sensação térmica mais amena do que se costuma ter em áreas sem verde. Nos troncos, muitas vezes e durante anos maltratados, há calos em formatos arredondados como cabeças de anjos barrocos ou de pessoas aprisionadas ali como se fossem lembranças ou ex-votos de quem delas cuidou. 

As mangueiras florescem, frutificam a cada ano e, na entrada da estação chuvosa, em novembro, começam a se manifestar em ameaças aos caminhantes e veículos passageiros que recebem suas quedas desvairadas. Há quem viva da colheita dos frutos e oferta em um mercado receptivo e costumeiro nessa cidade mangueirosa. Há os que praguejam e maldizem as deliciosas prendas gratuitas, saborosas e volumosas. Há os que chamam de sujeira as folhas, galhos e frutos que desabam durante dias, semanas e meses, tanto das mangueiras como das outras árvores.

Um dos aspectos que mais me preocupa quando as vejo são as ervas de passarinho que exaurem as árvores mais antigas, sem que lhes seja dado o devido tratamento. Elas são conceituadas como hemiparasitas porque embora façam fotossíntese, sugam a seiva e retiram nutrientes das plantas hospedeiras. São disseminadas pelos pássaros que apreciam os seus frutos e os liberam pelas fezes, propagando-as por onde passam. Há casos em que epífitas como bromélias e jiboias medram e sobem pelos troncos das árvores fazendo verdadeiras coberturas ornamentais dos troncos e galhos.   

É estranho que não seja evidente um planejamento de cuidados dessa flora implantada como ornamento, sombreamento e alimento, contrariando alguns critérios do paisagismo convencional. Há uma diminuição sensível da arborização da cidade de Belém, mas se pode ver o plantio de indivíduos de espécies exóticas e menos promissoras em frutos do que as históricas indianas colocadas pelo intendente no final do século XIX e início do XX. 

O investimento no cuidado das árvores é, aparentemente, insuficiente. Deveria haver poda regular com orientação da formação das copas, coleta regular dos frutos, trituração das partes vegetais resultantes desses tratos e compostagem em alguma área destinada para esse aproveitamento e reciclagem. O planejamento é simples: caminhões adaptados com equipamentos de segurança que permitam a elevação dos operários para fazer a poda, outros que recolheriam o material excedente e os colocaria em veículos preparados para triturar esse material e levar para uma unidade de compostagem e produção de chorume que é um fertilizante poderoso. Um pente fino deve ser feito com varrição para juntar as folhas e galhos menores para dar-lhes o mesmo destino: trituração e encaminhamento para unidade de compostagem.

Há que se ter em conta, e em muito boa conta, que o mais importante de qualquer projeto urbano não é a implantação dos equipamentos e jardins. O item essencial do qual não se pode dispensar cuidados e captação de recursos é a manutenção. Paisagismo, principalmente no item jardinagem, exige trabalho diário para capinar, roçar, podar, eliminar plantas indesejáveis, recolher os resíduos e dar-lhes o adequado destino. Jardins malcuidados e sem o devido tratamento fazem o efeito estético contrário, enfeando o ambiente ao invés de lhe enfeitar.

 Belém sofreu intervenções significativas no período imediatamente anterior e em que se realizou a COP 30, sendo muito criticadas por terem sido concentradas em áreas de maior circulação de pessoas no centro da cidade. Passado o evento internacional, vencido o tempo da maquiagem, árvores, canais, parques e ruas voltam ao estado anterior, justificando a pertinências das críticas feitas. 

No caso das árvores, elas não são apenas elementos estéticos, mas também abrigam vida animal, seja de aves seja de outros gêneros que merecem atenção e cuidados. Será que os gestores da metrópole estão atentos a esses aspectos? Esperemos que sim e estejam se preparando para fazer melhor e mais bonito nas próximas vezes!


Variações: revista de literatura contemporânea 

Edição - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências

 Curadoria e Edição: 

Marcos Samuel Costa 

 2026

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