Josse Zen Fares - Gutemberg Armando Diniz Guerra

 

Na Casa de Balzac Paris - fonte: autor


Josse Zen Fares[1]

Gutemberg Armando Diniz Guerra

O desconforto com a passagem do tempo aumenta quando temos que ir a velórios e sepultamentos de amigos, colegas, parentes, contemporâneos. As primeiras perdas familiares nos dão a sensação de proximidade e a angústia do desaparecimento aumenta pela imposição do definitivo. Embora seja apenas um sentimento, ele mexe conosco porque é comum a todos nós. Os que ficam sabem que, a partir dali, para os que creem, os que morreram vão continuar existindo em um plano espiritual. Para os que não creem, permanecerão, indubitavelmente, na memória. Inventa-se sempre uma forma de perpetuar os nossos queridos, seja pela religiosidade, seja pela lembrança, uma não excluindo a outra. Criam-se maneiras de dizer suavizando a finitude e a permanência, ambas articuladas, complementares das pessoas que se quer viva. Corpo e espírito, físico e metafísico, plasma e ectoplasma. Morte, falecimento, perecimento, extinção, fim, passagem, viagem, virar estrela, entrar no paraíso, mudar de plano, passar para o lado de lá, descansar, ir para o céu, entrar para a história, passar a ser memória...

É muito estranho ver o corpo de alguém muito querido, conhecido, alegre, risonho, que conviveu conosco, estar inerte, incapaz de movimentar-se por si mesmo, mas permanecer em nossas lembranças com toda a intensidade dos momentos vividos em comum. Nesse confronto, tudo o que se viveu vem à memória, como se fosse mesmo um filme, embora seja muito mais um documentário do qual somos coadjuvantes.

Cheguei em Belém em outubro de 1986 e convivi com Josse Fares e seus familiares durante muitos anos. Aprendi e continuo aprendendo muito com eles. Gratidão é um sentimento que existe em mim por ter sido por ela, Paulo Nunes e toda a rede em que se inseriam, que conheci a força da cultura amazônica através de autores como Milton Hatoum, Lindanor Celina, Dalcidio Jurandir, Bruno de Menezes, Max Martins, Inglês de Souza, Eneida de Moraes, João de Jesus Paes Loureiro e tantos outros... Além desse universo das letras havia o da música, do casario antigo e moderno, das praças e jardins, das ruas com seus nomes significativos e enigmáticos que me fizeram aprender muito dessa cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará.

Pude assistir o grupo Mãos dadas em ação, exposições e debates sobre muitos aspectos da arte, da religiosidade paraense, da forma de educar nas escolas públicas e privadas. Josse, Paulo e João Carlos Pereira me fizeram passear pelas ruas do centro histórico admirando portais de vilas e estátuas emblemáticas como a de Dom Frei Caetano Brandão, plantada no centro da praça em frente à matriz e que, segundo dizia João Carlos, saía nas madrugadas a perambular pela área respirando o ar ribeirinho da cidade mangueirosa. Na Praça do Carmo, vestígios de um antigo cemitério era testemunha de que ali teria havido povos ancestrais indígenas substituídos ou sobrepostos pela colonização cristã. Frequentamos bares, restaurantes e, nas sextas feiras da paixão visitamos igrejas em que se expunham imagens cobertas de roxo e o Cristo flagelado e morto para liberar os humanos das penas contraídas no pecado original.

 Admiramos por do sol da janela do Edifício Abílio Velho, aquela bola vermelha mergulhando por trás das ilhas da Baía do Guajará. Partilhamos muitos sabores que Josse preparava com muita competência na copa-cozinha, admiramos os santos na capelinha improvisada em santuário na sala e contemplamos os quadros expostos pelo apartamento rico em detalhes e afetos. Vimos os meninos Maurício, Mônica e Marcelo se desenvolverem e ganharem o mundo.

Continuamos, quando estivemos distantes, conectados por cartas, cartões postais, panfletos, recortes de jornais e outras formas de nos apropriamos da tecnologia para nos mantermos presentes via fax, e-mails e telegramas, até que um dia nos reunimos em Paris para andar pela cidade curtindo os detalhes históricos da república francesa espalhados pelas ruas. Visitamos museus, igrejas, parques e jardins e gastamos solados nos bulevares, avenidas, becos, passagens, bares, restaurantes, universidades e monumentos da cidade luz. Guardamos ainda as imagens dessas andanças parisienses em que o querido João Carlos Pereira também estava presente.

Josse, luminar de tantas virtudes como mestra, tentou enquadrar sua sabedoria em um doutorado que lhe afanou o sossego. O que para muitos não passa de um exercício acadêmico, para ela se transformou em um pesadelo e lhe exauriu e prostrou. Ela deixou de proferir aulas, mas continuou a ensinar em seus escritos e gestos cada vez mais mansos, seguindo o curso da vida, esse mistério que jamais compreenderemos.

Em homenagem derradeira, seguimos na chuva para aquele lugar onde se plantam saudades. O sepultamento se fez sob lembranças de sua filha Mônica evocando o gosto que ela nutria pela água vinda dos céus. Ali, naquela tarde luminosa de fim de fevereiro, com as gotas de chuva, estava a professora zen celebrada sob árvores frondosas, muitas sombrinhas coloridas e cânticos que ela entoaria junto com seus familiares, amigos e admiradores. Josse Fares vive, agora encantada em algum lugar do cosmos e em nossas memórias plenas de nostalgia e certeza de que a vida vale muito mais quando se tem uma amiga como aquela uma.



                                      Variações: revista de literatura contemporânea 
                  XIV Edição - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências
 Curadoria e Edição: 
Marcos Samuel Costa 
 2026



[1] Encaminhado para Variações Revista de Literatura Contemporânea em 4/3/3036 às 22:30.

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