O Agente Secreto, filme brasileiro - Gutemberg Armando Diniz Guerra
O Agente Secreto, filme brasileiro
Gutemberg
Armando Diniz Guerra
O
AGENTE SECRETO. Produção CinemaScópio (Brasil) e co-participação francesa,
nerlandesa e alemã. Roteiro e Direção: Kleber Mendonça Filho. Elenco: Wagner
Moura, Tânia Maria, Maria Fernanda
Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Udo Kier e Thomás Aquino. Local de produção: Recife. 18
de maio de 2025.
O Agente Secreto é um filme com um enredo
bem construído, com uma história abrangendo o período da ditadura militar já em
sua fase de distensão ou diástole (como diria Golbery do Couto e Silva), mas
ainda com marcas de crueldade e perseguição acentuada aos que se atrevessem a
contestar ou enfrentar o debate por uma independência ou igualdade de classes e
regiões do país.
Tem como fio da meada a vida de um
professor universitário nordestino, filho de um jovem de 17 anos, de família oligárquica
e uma jovem de 14 anos de origem camponesa, humilde e semi-escravizada. Ele é
criado pelos avós e faz brilhante carreira acadêmica, liderando grupo de
pesquisa e pós-graduação até o momento em que se depara com uma autoridade
governamental que trata com desrespeito a sua companheira e a ele mesmo, em um
jantar diplomático que termina em um conflito físico, em um restaurante da
cidade de Recife. A partir daquele momento a equipe universitária teria se
diluído por interferência do agente governamental e empresário que teria se
apropriado do resultado das pesquisas universitárias em seus projetos pessoais.
O professor perde a companheira e o filho fica sendo criado pelos pais dela.
Esse teria sido o momento de ruptura
familiar em que a companheira do professor desaparece (assassinada?) e ele
entra na clandestinidade, com um nome falso, retorna a Recife para reencontrar
o filho, vivendo em um refúgio que abriga militantes políticos em situações de
ameaças de morte por engajamentos políticos diferenciados.
O ambiente do filme é o da repressão
policialesca e política do período Geisel (1974-1979), nas diversas instancias
da sociedade.
Desde a primeira cena do filme, a presença
do aparelho repressor é marcante. Um cadáver em um posto de gasolina apodrece
na beira da estrada, sem que a polícia civil apareça para o levantamento
cadavérico. Um carro da Polícia Rodoviária Federal entra em cena, exercendo
papel de chantagem e extorsão ao personagem principal. Outros quadros das
polícias civil e militar aparecem com comportamentos deletérios e associados a
matanças de presos comuns e proteção a pessoas de classe social e econômica confortável.
No caso da perseguição ao protagonista, o antagonista se amplia por contratação
de pistoleiros em uma cadeia que se mostra muito mais complexa do que
normalmente se costuma revelar. Os policiais e pistoleiros falam em códigos,
com expressões e cenas que demonstram mortes, ocultação de cadáveres e manobras
para despistar identificação de corpos eliminados e mutilados.
O clima de todo o enredo é de tensão, mas
com tons de estilos diversos. O desenrolar da história se dá ancorado e regido
por fontes reveladas pela participação de duas jovens auxiliares de pesquisa em
uma universidade privada. Elas transcrevem gravações em que a história do
professor é parcialmente registrada, mas que só vai se completar com o encontro
final entre uma das jovens assistentes de pesquisa e o filho do protagonista,
já adulto, médico, trabalhando em uma unidade de saúde no mesmo local em que teria
assistido o filme Tubarão, quando criança, no cinema em que o seu avô
trabalhava como operador do projetor.
É um filme de ficção com enredo de drama
familiar e política muito bem construído, mobilizando aspectos do período
histórico em que se desenvolve, tanto quanto evidencia aspectos de violência policial,
de classe, de gênero, de raça e inter-regional. O realismo das cenas de
violência se explicita pelo sangue de ferimentos à bala, pelas agressões da
Perna Cabeluda, pelas cenas tórridas de sexo e pela atuação de membros de
forças militares e paramilitares que controlam a vida das pessoas.
Quem viveu esse período e teve algum tipo
de contato com personagens críticos ao governo da época identificará
imediatamente o ambiente hostil em que a trama se desenvolve. Os nordestinos
originários de Recife terão empatia pela imersão da produção cinematográfica em
manifestações culturais como o carnaval, além da linguagem com expressões,
sotaques e paisagens típicos daquela cidade.
A narrativa, embora tendo como centro uma
família afetada diretamente pelo regime vigente, incorpora elementos simbólicos
e folclóricos associados a fatos ocorridos e documentados em jornais da grande
imprensa, como a mitológica Perna Cabeluda e o Tubarão, filme que ganhou
notoriedade e popularidade por de ter sido encontrado um exemplar dessa espécie
com uma perna humana em seu interior. Misturam-se induções associando a Perna
Cabeluda como agressora de prostitutas e casais homo e hetero que praticavam
sexo e infrações em locais públicos.
O
título do filme me pareceu distante do que ele narra e não me pareceu adequado.
Considero que poderia ter algum termo ligado à repressão, oposição,
clandestinidade e exílio naqueles anos sombrios ou uma construção simbólica que
fizesse referência ao enfrentamento de pessoas brilhantes ofuscadas pela
ferocidade do regime.
Merecem destaques a performance dos
atores, em particular a de Wagner Moura que faz o papel de protagonista tanto
como o professor perseguido quanto do seu filho, no final da trama. Sua
expressão corporal e facial serenas e firmes, sua voz pausada e grave, seu
olhar atento aos detalhes enriquecem de forma significativa a produção. Tania Maria, representando Dona Sebastiana, é
uma pessoa comum, sem trajetória no mundo da arte dramática, incorporada ao
elenco como uma revelação impressionante pelo seu exemplar desempenho e
inequívoca contribuição à qualidade do filme. A maior demonstração de êxito da
produção são os prêmios amealhados em Cannes, por Wagner Moura, na categoria
Interpretação Masculina, e por Kleber Mendonça Filho como Melhor Diretor.
A construção de personagem heroico,
brasileiro, foge ao padrão macunaímico tanto quanto da proclamação de realizador
de grandes feitos. Ao contrário, é vitima e finda eliminado quando da tentativa
de exilar-se.
Recomendo particularmente aos que atuam em
programas de pós-graduação e pesquisa, tanto quanto aos amantes da produção
cinematográfica com enredos intrigantes e bem elaborados.
XIV Edição - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências
Curadoria e Edição:
Marcos Samuel Costa
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