Moradores de rua - Gutemberg Armando Diniz Guerra




 Moradores de rua


Gutemberg Armando Diniz Guerra



Paredes nunca,
Camas de papelão quando há,
Cobertores de panos ordinários,
Relento de dia e de noite
Em cantos de ruas,
Embaixo de marquises.
Vidas nuas.
Pessoas passam em passos apressados, 
Vendo e sem venda fingindo não ver,
Não param nem encaram,
Mesmo quando imploradas
Por uma caridade,
Pelo amor de Deus,
Pela voz chorosa,
Implorosa,
Implorante,
Ou por mensagens escritas de qualquer jeito,
Em qualquer linguagem correta ou com erros,
Exibidas nos semáforos,
Em substratos de qualquer matéria,
Contando história
De pais desempregados,
De mães famintas,
De desgraças invalidantes,
Errantes
Em exílio distante da terra de origem.
Qualquer doação é agradecida
Qualquer olhar é bem-vindo
Qualquer palavra é bendita
Agradecida.
Engrandecida.
Quem são os moradores de rua de Belém?
Que origens têm?
Que fomes carregam?
Que sofrimentos?
Ferimentos?
Mazelas?
As falas da maioria lhes atribuem pecados que não se sabe se fizeram.
Desejos têm?
Têm esperança?
Salvação têm?
Têm pais?
Mães têm?
Têm irmãos?
Parentes têm?
Que parte de nossas posses podemos partilhar com essa gente?
Olhar?
Tempo?
Palavra?
Mão?
Farinha?
Água?
Atenção?
Abrigo?
Moradores de ruas de Belém,
Meu coração partido não bate por você,
Nem por mim,
Nem por ninguém!
Não tenho coração!
Nem pulmão!
Nem ar!
Nem piedade de mim que sofro de te ver
Todos os dias no meu caminho,
No meu campo de visão,
No chão,
Rastejando com estendida mão
Para colher o nada,
O não, mudo,
Calado,
Ensurdecedor.
Morador de rua cor de cobre,
Zinabre,
Azedo,
Incômodo 
e medo.
Morador de rua
Grito denúncia de falso segredo de guerra e degredo.


Variações: revista de literatura contemporânea

        XIV Edição, ano 5 - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências

                Curadoria e Edição:

                  Marcos Samuel Costa e Bruno Pacífico

                                                                         2026

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