UM CONTO SCI-FI DE LUCIA ANDRADE
Feliz aniversário, Terra!
– Você encontrou isso para mim? Uma flor!
– Eu faria tudo por você, sempre. Eu te amo. Eu sabia que esse era o presente que você mais queria, em toda a sua vida. Feliz aniversário! – Ela não se conteve mais e o abraçou, e o beijou. E ficaram abraçados por muitos minutos. Enquanto seus olhos estavam fechados, ela se lembrou de que ela o havia perdido, muitos meses antes. Sua mente voltou no tempo.
– Para quê? Para ver vida artificial? – ela seguiu para a outra ponta do laboratório, dando de costas para ele.
– Não somos artificiais! – ele gritou e parou no meio da sala imensa, com os braços abertos.
– Nós não, mas o que comemos, bebemos e respiramos é. – Eles viviam em um lugar onde a comida e a bebida eram suplementos proteicos. A reprodução era por inseminação artificial e eles, particularmente, trabalhavam no Laboratório da Vida Nova, um setor para gerar humanos híbridos ou androides. Ele suspirou e depois se aproximou dela, pegando-a pelos ombros.
– Olhe para mim – ela o encarou. – Essa é a vida que temos agora. O passado que vimos nos petachips educacionais não existe mais. Temos sorte de estar em um planeta habitável e de estarmos vivos – desvencilhando-se de seus braços, ela se afastou dele novamente.
– Vivos?! Eu não quero esta vida sem cor… sem… sem vida – não adiantava argumentar. Fazia meses, que ela estava assim, depressiva. Ela já tinha até preenchido o formulário de Pedido de Finalização Voluntária e Assistida da Vida e estava aguardando a data ser agendada pelo Setor Finalizador, como era chamado o departamento que cuidava da morte assistida de quem entrava em depressão no planeta. Ele havia achado o formulário preenchido no casulo dela. Pediu, implorou, mas não conseguiu demovê-la da ideia.
Centilov era um planeta tão minúsculo e árido que não cabia todo mundo. Por isso os Pais Primeiros, como eram chamados os administradores, abriram o programa de Finalização e muitos se cadastraram nele porque era comum pessoas entrarem em depressão dentro da redoma, vivendo nos casulos minúsculos, sem poder ter filhos e comendo comidas sem gosto. No início da ocupação, muitas pessoas abriram mão de suas vidas para garantir vaga e comida para filhos ou pais. Foram os primeiros a serem finalizados. E agora a fila era grande.
Era certo que, caso ele não a fizesse mudar de ideia, ele a perderia. E seria para sempre. Apenas ela conseguira fazer com que a vida dele fosse suportável. Inconformado, ele dirigiu-se à cápsula de teletransporte. Sem ela, ele também desistiria. Era o sorriso dela que o fazia sorrir.
Cheio de revolta, apertou o botão da cápsula, mas como sentimentos nocivos eram sempre reprimidos, a cápsula não se ativou. Um aviso luminoso surgiu: Não polua nosso paraíso com sementes nocivas.
– Paraíso?! – Pensou ele. Ela tinha razão, não era o paraíso. Nenhum paraíso usaria petachip implantado em você para te controlar. Definitivamente, ele não queria mais se controlar. Como era possível as pessoas aceitarem a finalização voluntária como uma coisa do paraíso? Ele socou e chutou a maldita cápsula. O aviso luminoso continuava lá, tentando mandar nele. Sem que percebesse, a cápsula se fechou e abriu, mas não no setor de Alegrar a mente, onde eles passavam repetições de imagens bonitas. A porta da cápsula abriu em um lugar. Sim, sem sombra de dúvidas, aquilo não era apenas uma imagem e se era, parecia muito real e linda.
– É o melhor aniversário da minha vida. Nas imagens antigas tinha umas coisas coloridas, mas no nosso tempo nunca teve nada disso. Mas hoje você me deu uma flor e essa coisa aqui, ela pegou um punhado de grama com as mãos, que ele trouxera escondido no bolso. A flor, ele trouxe escondida no peito, por dentro do uniforme.
– Não vamos voltar, vamos ficar aqui.
– Aqui?! – indagou ele, assustado. Mas só vimos um pequeno pedaço. Não sabemos o que tem aqui – ela se aproximou e passou as mãos pelo rosto dele.
– É aqui que eu quero ficar.
– Mas vão rastrear a cápsula e nos encontrar – ela sorriu. O sorriso cheio de vida havia voltado ao rosto dela. Seus olhos brilhavam.
– Então, destruiremos a cápsula… – foi nesse momento que ambos ouviram um som novo. Parecia uma coisa chamada trovoada nas imagens antigas, mas não vinha de cima. Um segurou a mão do outro. Ela o puxou na direção do som. Ele recuou.
– Não! Pode ser um monstro – disse ele baixinho.
– Se fosse já teria engolido a gente. Só agora nos demos conta, mas ele não começou agora – ele assentiu com a cabeça. Ao chegar perto, viram algo que os deslumbrou. Uma coisa que escorria do alto e batia na pele deles. Ela se lembrou da água nas imagens e buscou em seu implante educacional. Aquilo era água, de verdade, assim como a flor. E eles beberam e se banharam, como crianças. Sorridentes como crianças. Foi então que se entreolharam. A cápsula. Precisavam destruir a cápsula antes que os rastreassem.
Após destruírem a cápsula pelo mecanismo de autodestruição, um sistema de segurança programado para as expedições em planetas perigosos, para o caso de algum elemento hostil a invadir e tentar entrar em Centilov, ela perguntou:
– E os implantes?
– Os implantes não são de rastreamento, não aqui, em outro quadrante. Somente dentro da redoma. Mas podemos tirá-los também, depois que aprendermos tudo sobre o novo planeta. Ela assentiu. E assim, a cada dia, eles descobriam coisas novas sobre o lugar que sempre sonharam encontrar. Pelo menos os implantes educacionais ajudaram quanto ao que comer, como plantar, como se abrigar. Mas um dia, eles descobriram uma coisa escrita e estava na língua atual.
ESTE PLANETA SE CHAMA TERRA. ELE ESTÁ SENDO ABANDONADO HOJE PELO ÚLTIMO GRUPO DE HABITANTES, POR ESTAR TOTALMENTE POLUÍDO E CONDENADO. NO ESPAÇO DE TEMPO ENTRE HOJE, 21 DE MARÇO DE 2094, E AS PRÓXIMAS DEZENAS DE ANOS, ELE ENTRARÁ EM ROTA DE COLISÃO COM UM ASTEROIDE GIGANTESCO, QUE O DESTRUIRÁ COMPLETAMENTE. PARTIMOS HOJE RUMO A UM NOVO MUNDO.
Coube a ele quebrar o silêncio.
– Vamos morrer, então – ela estendeu a mão para ele e respondeu.
– O que importa? É melhor do que ser finalizado em uma máquina. Um dia aqui vale mais que mil anos lá. Eles estavam errados, tanto quanto à poluição como quanto ao asteroide. Já se passaram mais de duas centenas de anos. E olhe para isso – ela girou o braço ao redor. – Como diziam os ensinamentos antigos, sem a raça humana, o planeta se reconstruiu e reviveu. Seremos como os primeiros Pais Primeiros: eu sou Eva e você, Adão – dizendo isso, ela se abaixou e beijou um botão de flor que estava próximo.
Lucia Andrade nasceu no Rio de Janeiro, em 20 de novembro de 1965. Aos quatro anos descobriu que tinha Anemia Falciforme. Em 2008 encontrou-se com Conceição Paganele, fundadora da AMAR, como parte das pesquisas de seu livro A ESTRELA DE JEREMIAS, romance vencedor do Prêmio Jorge Amado, no concurso internacional de literatura da UBE/RJ de 2009. Além deste romance tem dois livros infantis em coautoria, um juvenil, cinco livros de poesia, mais um romance e um de miscelânea.
Variações: revista de literatura contemporânea
XIV Edição, ano 5 - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências
Curadoria e Edição:
Marcos Samuel Costa e Bruno Pacífico
2026

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