UMA ENTREVISTA COM O POETA VITOR MIRANDA
Entrevista concedida por Vitor Miranda para Bruno Pacífico, da Revista Variações, em 29 de abril de 2026.
1- Vitor, fale-nos um pouco do teu processo de escrita. Conte-nos sobre o seu percurso como poeta-prosador do sudeste. Quando a tua escrita começa, por que ela começa?
minha escrita começa pela minha vontade de contar histórias como os outros moleques contavam no balãozinho da rua onde cresci no Jaguaré, ou como os amigos de meu pai após o futebol que aos meus doze treze anos já jogava com os adultos, ou convivendo com as mulheres da família, principalmente minha avó paterna Irene que era uma exímia contadora de histórias.
acredito que minha escrita nasce da minha dificuldade de comunicação através da fala. de uma timidez e dicção ruim, ocasionando uma falta de atenção das pessoas. de repente porque desde nascido a gente já é poeta e até achar nosso caminho no mundo o convívio social se dá com pessoas que pouco se interessam pelas coisas irrelevantes da sociedade consumidora em progresso. até porque só fui conviver com poetas e artistas já pelos meus 21 anos numa introspecção causada pela circunstância de não ter conhecimento suficiente para o diálogo intelectual que muitas vezes é cruel.
então, restou-me apenas escrever histórias cotidianas, contar causos feito minha avó, os moleques do Jaguaré, os camaradas do futebol, sobre a vida que eu estava vivendo e com o tempo ir adquirindo experiência e habilidades literárias para começar a brincar seriamente com a linguagem.
2- Seu novo livro, Ódio ao poema, acabou de ser lançado. Conte-nos um pouco sobre ele.
é um poema ensaio sobre a sociedade que nos tornamos, uma sociedade que odeia a poesia que existe em nós, nas coisas, na exatidão dos átomos, nas crianças, em si mesmos. mas também um poema ensaio sobre o próprio poema, sobre nós que escrevemos poemas, sobre nós que estamos assassinando a poesia.
3- Que tema você trará aos leitores e como foi trabalhar com esse tema? Quais percursos te levaram até a produção desse trabalho novo?
comecei a escrever esse livro no dia do show da madonna quando cheguei ao rio de janeiro de ônibus e ao procurar o banheiro da rodoviária me deparei com a cobrança de um valor a se pagar pelo uso. no mesmo dia havia visto a matéria sobre madonna exigir que higienizassem seu banheiro, no hotel, sete vezes por dia. a cidade estava um caos. todos falavam do show da madonna. fiquei hospedado em um hotel com vista para as costas da candelária. o trabalho que fui realizar, filmar uma festa de música eletrônica, era em um prédio histórico em frente à igreja, local onde houve a chacina das crianças.
na festa de música eletrônica o público era de pessoas jovens de alto poder econômico usando drogas. nos morros a guerra ao tráfico. em todos os lugares o assunto era madonna.
nas redes socias só se falava em madonna. já em são paulo vi políticos de direita e artistas de esquerda dividindo a mesma área vip no show da madonna.
e a criança que já é muito presente em alguns poemas de “Exátomos” e é o tema principal dos contos em “Os ratos vão para o céu?”. tem bastante força nesse livro onde o personagem Poema muitas vezes aparece na forma das infâncias odiadas pela sociedade.
na padaria em frente de casa, na segunda-feira, o chapeiro fazia o misto quente. na tv mais uma notícia de feminicídio. do outro lado da rua, na lixeira do prédio onde moro, uma mulher procura comida e outras coisas no lixo. continuei escrevendo.
juntei com trechos de ensaios sobre o poema. respostas às provocações feitas pela poeta Gabriele Rosa para uma matéria sobre o livro Exátomos publicadas na revista Ruído Manifesto.
o último trecho escrevi no dia da chacina comandada por claudio castro no Complexo do Alemão e da Penha após ler a notícia na qual crianças carregavam corpos fuzilados.
Foto de divulgação do livro Ódio ao poema, 2026.
4- Esse novo livro tem alguma relação com os seus outros trabalhos anteriores, ou é algo totalmente novo em sua trajetória como escritor?
volto para uma forma híbrida que já usei em “A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty” mas nesse livro acrescentando o ensaio à prosa narrativa e ao poema. é algo novo nesse sentido de trazer uma visão ensaística, crítica, metalinguística, onde o tema principal é o próprio Poema.
5- Um título nem sempre diz tudo o que o livro é. O Ódio ao poema é sobre o que?
o poeta filósofo Lucas Guimaraens diz no ensaio posfácio que o livro, na verdade, é sobre amor. essa leitura fez muito sentido para mim. o texto é uma revolta em defesa da poesia. acredito que toda luta é movida pelo amor. minha forma de lutar é escrevendo e apesar de muitas vezes parecer uma desistência, talvez seja uma forma de continuar a amar a vida. escrevo para atingir o ódio. uma forma de sair da resistência e partir para o ataque contra quem odeia a beleza da vida. é sobre a espiritualidade de quem acredita que a poesia seja uma das formas de deus.
6- Quais foram as influências para a escrita de Ódio ao poema?
cara, a maior influência foram os governadores e políticos do Rio de Janeiro desses últimos cem anos. os soldados do estado, milicianos, corruptos. toda a nossa hipocrisia burguesa nesse discurso fajuto que carregamos atrás dos engajamentos e de alavancar nossas carreiras. dessa cordialidade em aceitarmos o absurdo com curtidas e compartilhamentos, sendo influenciados por tudo que há de mais covarde e maléfico. sem a existência deles, de nós, talvez não existiria o Ódio ao poema.
7- Tens alguma indicação de filmes ou músicas? Pode ser aquela indicação pessoal ou para ver ou ouvir por causa do livro.
“Ônibus 174” documentário do José Padilha sobre o sequestro do ônibus que o Brasil acompanhou ao vivo pela tv com o Datena narrando num programa jornalístico patrocinado por marcas que consumimos em nossa casa. sequestro esse realizado por Sandro Barbosa, um garoto que cresceu na rua e costumava dormir em frente à igreja da Candelária onde houve o massacre. um dia tenso para o carioca, para o brasileiro, para as crianças que acompanhavam pela tv no programa do Datena no plantão da globo aquelas mulheres trabalhadoras dentro do ônibus e a polícia cometendo erros atrás de erros na condução da situação. e as empresas faturando com o nosso consumo enquanto as crianças de rua continuam a pedir esmola sob a mira dos milicianos. o trabalhador na labuta para pagar impostos que pagam o salário da polícia onde boa parte dos trabalhadores se tornam corruptos e assassinos de crianças em situações de vulnerabilidade social. o diretor da televisão perguntando a todo momento como estava a audiência do ibope. o CEO da empresa querendo os números, os funcionários das empresas querendo saber se bateram a meta para ganhar o bônus.
Vitor Miranda é escritor poeta. Seus livros mais recentes são: O que a gente não faz para vender um livro?, contos; Exátomos, poemas, ambos publicados pelo Selo Neomarginal; Os ratos vão para o céu?, prosa; Ódio ao poema, poema, publicado pela Barraco Editorial. É produtor cultural e criador do Movimento Neomarginal. É letrista com parceiros diversos como Alice Ruiz, Rubi, João Sobral, Touché, João Mantovani, entre outros. Poeta da Banda da Portaria.
Variações: revista de literatura contemporânea
XIV Edição, ano 5 - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências
Curadoria e Edição:
Marcos Samuel Costa e Bruno Pacífico
2026
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