UM POEMA INÉDITO DE ALEXANDRE BATISTA
A névoa
No canto abrupto dos estorninhos,
a terra suspira, estremunhada,
enquanto o silêncio se desfaz
nos montes incendiados de laranja.
Uma lagoa de bruma
assenta sobre a pele eriçada do vale.
Demora-se,
conhece o peso rude da cercania.
Pelas encostas, os pinhos calam
um desejo oculto na luz diáfana,
na resina e sombra da caruma adormecida.
Entre duas fragas,
abre-se na terra arenosa um trilho ténue.
Não conduz.
Persiste.
Rasto de um vulto morno
na neve derretida.
O vento atravessa o esplendor da Beira,
despenteia, arrepia,
afaga a geada
e deixa no chão um hálito rasgado.
Traz o que foge das mãos,
apodrece na memória.
Cada folha, cada tronco,
tem nos veios o vigor dos lobos.
As giestas estremecem sozinhas.
Há uma curva na montanha
traçada por um gesto quase humano:
hesitante,
terno.
As levadas descem ao rio,
roçam-lhe as margens,
entram pela boca verde dos salgueiros.
O sol rompe a névoa sem ruído.
Inclina-se,
bebe o azul brando do orvalho,
prova a primeira água do dia.
Fica nos campos um brilho espesso
que cintila nos poros do granito.
Mas é no penedo mais alto,
no dorso cinzento da serrania,
que o mundo se recolhe.
Nenhum passo.
Nenhuma voz.
Só a erva fecunda lá em baixo,
no abrigo escavado:
seiva aberta,
vida sem nome,
fundida na névoa.


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