UM POEMA INÉDITO DE ALEXANDRE BATISTA

A névoa

 

No canto abrupto dos estorninhos,
a terra suspira, estremunhada,
enquanto o silêncio se desfaz
nos montes incendiados de laranja.
 
Uma lagoa de bruma
assenta sobre a pele eriçada do vale.
Demora-se,
conhece o peso rude da cercania.
 
Pelas encostas, os pinhos calam
um desejo oculto na luz diáfana,
na resina e sombra da caruma adormecida.
 
Entre duas fragas,
abre-se na terra arenosa um trilho ténue.
Não conduz.
Persiste.
Rasto de um vulto morno
na neve derretida.
 
O vento atravessa o esplendor da Beira,
despenteia, arrepia,
afaga a geada
e deixa no chão um hálito rasgado.
 
Traz o que foge das mãos,
apodrece na memória.
 
Cada folha, cada tronco,
tem nos veios o vigor dos lobos.
 
As giestas estremecem sozinhas.
 
Há uma curva na montanha
traçada por um gesto quase humano:
hesitante,
terno.
 
As levadas descem ao rio,
roçam-lhe as margens,
entram pela boca verde dos salgueiros.
 
O sol rompe a névoa sem ruído.
Inclina-se,
bebe o azul brando do orvalho,
prova a primeira água do dia.
 
Fica nos campos um brilho espesso
que cintila nos poros do granito.
 
Mas é no penedo mais alto,
no dorso cinzento da serrania,
que o mundo se recolhe.
 
Nenhum passo.
Nenhuma voz.
 
Só a erva fecunda lá em baixo,
no abrigo escavado:
 
seiva aberta,
vida sem nome,
fundida na névoa.


Névoa, 2026.


                                       Variações: revista de literatura contemporânea

        XIV Edição, ano 5 - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências

                                                              Curadoria e Edição:

                                             Marcos Samuel Costa e Bruno Pacífico

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