RESENHA: "Anatomia das estrelas" de Márcio Maués
RESENHA POÉTICA
MAUÉS, Márcio. Anatomia das estrelas. Ouro Preto, Caravana Grupo Editorial, 2026.
Gutemberg Armando Diniz Guerra
O médico poeta vestido de roupas coloridas de talhe afro deu o tom de elegância ao lançamento do seu sétimo livro de poemas. Livros autografados e acompanhados de uma sacola ecológica de simples tecido de algodão eram distribuídos em retribuição aos que adquiriam o exemplar em português e espanhol, outro toque de humanidade e acolhimento aos que prestigiavam o evento.
O espaço pequenino do velho casarão em que se abriga a poesia ficava mais acolhedor ainda com a cantina que servia quiches, cafés e chocolate quente, enquanto espumante era ofertado como celebração dionisíaca do encontro. Eu estava ali atendendo a convite da colega professora Josi Maués, irmã do poeta, que conheci logo ao chegar em Belém e participar de um edital promovido pela Fundação Cultural Tancredo Neves, do Estado do Pará. Ficáramos juntos em um livro premiado e lançado em 1989, contendo poesia em que também estava associado Flávio Macedo. Dos 14 irmãos que soube serem os Maués daquela linhagem, estavam presentes alguns, entre os quais o Pedro, que fez um belo texto em espanhol, língua que estuda fazendo uma graduação na terra natal da família, Abaetetuba.
Provocado pelo autor do livro em lançamento, o professor, poeta e estrela de primeira grandeza João de Jesus Paes Loureiro abriu a sessão de pronunciamentos, seguido pelo decano dos irmãos do autor, principal estrela da noite. Abaetetuba era o ponto de partida de todos eles. Eu me arrisquei a dizer umas palavras de saudação ao poeta manifestando minha impressão de estar em um reduto de resistência do livro físico, da literatura amazônica e da humanidade manifestada por profissionais que não se deixaram esvaziar de sentimentos e respeito à vida pelas tecnologias modernas, pelo imediatismo e simplificação dos problemas a soluções pragmáticas, mas desprovidas de respeito e sensibilidade.
A noite prosseguiu se enchendo de notas musicais de violão que acompanhava a voz poderosa e interpretação madura da menina jurunense Alba Mariah. Poesia muita e em seu estado mais depurado enchiam o espaço daquela constelação de poetas, músicos e gente feliz. Foi, para mim, um ponto importantíssimo de conhecimento pessoal do poeta médico, ou do médico poeta, Márcio Maués.
Comecei a ler seus poemas ali mesmo, na Livraria que se oferecia como palco, tentado a declamar algum, mas me contive. Não o fiz. Senti que os poema dele têm uma pegada de prosa e metáforas que meu lento raciocínio precisa de tempo para absorver, internalizar, desdobrar em miúdos, porque são de uma densidade que não se revela, a meu ver, de imediato. Além do mais, outras pessoas convidadas por serem de reconhecida maestria na locução, ou na proximidade dos afetos, exibiam seus dotes e a riqueza dos versos mauesinos.
A anatomia presente no título denunciava a profissão do autor. As estrelas o tornavam poeta. O nome da editora – Caravana – instiga a uma viagem pelo mundo das letras e do espaço terrestre ou intergaláctico. As duas línguas entrelaçadas na composição do livro dão uma dimensão luso-hispânica e internacional que amplia em muito as possibilidades de leitura. Dose de erotismo se ensaia nos versos que dão título ao conjunto da obra:
e dá adeus ao bater as asas na companhia das aves e tu não vês.
Apaga-se nesse véu a tradução das chuvas que te lanço daqui
nessa anatomia das minhas saudades em tremuras
nesse coito diário de letras derramadas do alto ao chão
bem perto da lua vermelha do meu coração. (p. 12).
Por que o irmão primogênito escolheu declamar “Testamento”?
Atravessamos o sol do meio dia
E a rua no abandono dos paralelepípedos.
Atravessamos o ar das manhãs tão antigo e recente.
Qualquer mar desenha nosso testamento
frente ao espelho do dia em que se dobra nos acidentes,
nas vertigens do fogo segundo a meteorologia desligada dos
danos. (p. 20).
O médico receita medicamentos, o poeta dá cores à vida e faz tudo parecer saúde.
Receita para colorir horizontes
No meio de tudo a poesia é infindável dentro de mim.
Fecho à chave e a perco no caminho de qualquer rio.
No fim dele é possível colorir horizontes em meio a miúdas
coisas,
Buscar e encontrar as asas que dele a poesia dá.
Desfeito nas nuvens, olho de lá e só vejo as palavras
fatigadas de alvuras,
alvíssaras, alvéolos, calêndulas, flores em profusão.
Ponha um arco-íris no caminho e siga.
Nada que se aproxima é sem luz. (p. 42).
A irmã poetisa recôndita e ainda pouco revelada declamou, no lançamento, “O que temos um do outro”:
Esse âmbar nos olhos adivinha os segredos do tempo
incandescente sobre as costas
antes da chuva,
as predileções do silêncio entre as folhas,
o prenúncio do que nos aguarda sem disfarçar a urgência da
cidade lá fora
Cada dia que finda será para sempre um pouco do que
temos um do outro. (p. 56).
A exploração refinada dos sentidos como recurso estético é marcante no poema de Márcio Maués, tanto quanto a chamada para a empatia, como visto acima. O que toca o leitor, no poema, creio, em boa parte, é esta identificação que ele desnuda e instiga.
Os sentidos são atiçados pelos elementos da natureza, como as folhas dos versos acima, ou a chuva sacralizada em “Gume da Palavra”: “Meus monólogos poéticos são batizados com água de chuva” (p. 58). Água é um elemento muito presente em toda a obra a ponto de me instigar a sugerir outro título ao livro: Estrela d’água ou Água estrela! O fato é que em luz se banham os versos do abaetetubense...
A capa do livro e fotografias internas não tem estrelas, mas águas e a presença de nuvens cumulonimbus dando um tom carregado, anunciando tempestades e rios voadores, expressão que ouvi primeiro do astrofísico Carlos Nobre, em 2013, mas que vem como explicação da imagem de capa com atribuída autoria a Matheus Maués.
A fotografia do poeta na orelha interna da 3ª capa lhe mostra em ambiente em que ressalta capim dourado e o verde que parece ser sua cor de predileção dominante.
Deixei o livro vagando na mesa de trabalho e vez ou outra, voltei nele para folhear ao acaso, abrindo para ver o que ele poderia ainda me mostrar e fazer render esta resenha. A cada abertura e folheada, raios e brisas de interpretações me eram suscitadas como se ali estivessem cintilações e afagos esperando minhas buscas ocasionais pela poesia. Sim, a gente precisa sempre de poesia como de água, brisa e luz para podermos crescer, como plantas nascidas ou sementes germinantes.
Tive que dar um ponto final nessa leitura e dar por concluída minha missão de escriba. Fiquei pensando em quem poderá partilhar comigo, além do próprio autor, um diálogo sobre essa obra que dá sequencia a outras que o poeta já publicou. Não tenho dúvidas de que todos os amantes da poesia em prosa ou da prosa poética vão ter ali uma bela fonte de deleite. Aguardemos as reações!

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