Resenha: O reino do Rei Dom Sebastião na praia dos Lençóis. Belém: Editora Paka-Tatu, 2025.
RAMOS, Miguel. O reino do Rei Dom Sebastião na praia dos Lençóis. Belém: Editora Paka-Tatu, 2025.
Por Gutemberg Armando Diniz Guerra
As encantarias do Rei Dom Sebastião estão espalhadas por muitos lugares o que deixa confuso o observador comum, mas suscita curiosidades e dá asas a investimentos acadêmicos na área da Antropologia da Religião, da religiosidade popular e da literatura ficcional.
Sem conhecer o autor pessoalmente, recebi um exemplar do livro aqui resenhado, com dedicatória, tendo como mensageiro o Lucivaldo, funcionário da Editora Paka-Tatu. Leio tudo o que me cai às mãos – ou aos olhos - e tenho a prática de resenhar o que leio como quem devolve ao autor o que me suscitou o seu esforço literário. Pois vamos lá a essa tarefa pós leitura d’O Reino do Rei Dom Sebastião.
Pela minibiografia apresentada no próprio livro, Miguel Ramos é Biólogo, formado pela Universidade Federal do Pará e muito envolvido com a região de Bragança por ali ter exercido suas atividades profissionais, acadêmicas e administrativas, no Campus da mesma Universidade Federal do Pará, o que nos aproxima desde logo por eu mesmo ter atuado na mesma instituição.
O tema me interessou por afinidade com as dunas que já conheci em minha trajetória de vida, sempre com lendas de encantarias a lhes dar conteúdo, sejam elas acolhedoras de lagos de águas claras, como as das dunas de Salinópolis e as de Algodoal, no Pará, sejam eles de águas escuras, como as de Itapuã, na minha terra, Salvador, cantadas por Dorival Caymmi.
Confesso, de antemão, que tive dificuldades de avançar com celeridade na obra, talvez por ser ela feita de areia em movimento, como as alvas dunas que migram e soterram. Teve também uma série de outros fatores que me reduziram a velocidade no cumprimento da tarefa, sendo uma delas o estilo do autor, muito rico em detalhes e com elementos que fogem à minha compreensão de cético, para não dizer mesmo, de ignorante sobre a saga do Rei Dom Sebastião.
Dei-me, como sempre, a tarefa de ler até o fim e a variação de estilo descritivo, creio, ora me prendia tornando a leitura célere, ora me travava, retardando meu exercício de leitura, exigindo que eu recorresse a informações suplementares para vencer ideias preconcebidas que eu tinha sobre o rei e sua história.
O fato é que depois de ler as 288 páginas divididas em 38 capítulos e vários subtítulos saio com a impressão de saber muito mais do que eu supunha saber sobre a cultura árabe e a história de Portugal, ainda que o autor tenha prevenido sobre a distância entre ficção e realidade contida em sua obra, o que se torna agora o meu problema.
Embora não seja de todo um livro árido, há passagens que chamam a atenção, pelo nível de detalhamento e significativas repetições, mas há outras, como o capítulo 35, que se torna especial por revelar a ligação entre dois mundos, dois planos e com uma linguagem poética encantadora. Quem já esteve em algumas dessas lagoas e dunas litorâneas do Brasil, em particular aquela dos Lençóis maranhenses – porque as de Bragança não conheço ainda - saberá do que estou falando e talvez até se reconheça naquela descrição e paisagem.
Uma das tônicas da narrativa de Miguel Ramos é a luminosidade sempre em contraste com a escuridão ou a penumbra, principalmente quando ele se refere a detalhes da cidade ou terra encantada. Talvez não tenha sido o acaso que lhe tenha feito dar título ao primeiro capítulo com os três elementos chave de sua narrativa: as dunas, a luz e as sombras.
Se considerarmos a exploração dos sentidos como elementos estéticos utilizados em sua obra, é o da visão o que ele mais utiliza em sua narrativa, ainda que em determinados momentos mais dramáticos, o som seja acionado, como na batalha de Alcácer Quibir, e o gosto quando descreve as iguarias das diversas categorias sociais que ele faz questão de distinguir no livro. Estranhei que não se refira com maior incidência à aspereza das areias dos lugares que descreve e da relação que as pessoas findam tendo com elas, sejam grossas ou finas.
Sem nenhum receio de dar pistas e até fazer o leitor antecipar o que vem narrado por Miguel Ramos, tive a impressão de que ele fez um esquema, uma estrutura, um plano de obra que foi sendo construída item por item, de uma maneira planejada didática e muito disciplinadamente. Se percorrermos o sumário, desde então essa ideia se reforçará. Apenas para dar alguns exemplos, ele descreve o ambiente do norte da África, desde a arquitetura dos portais de cidades, até os hábitos do cotidiano, passando pela estética dos utensílios, das indumentárias, das cerimônias, da educação, dos cuidados pessoais, do artesanato, da pesca e das festas, naquela região onde teriam ocorrido as principais cenas dos últimos dias do monarca português.
A imaginação de Miguel Ramos preenche, de forma instigante, todas as dúvidas que alguém possa ter sobre o desaparecimento do jovem e impetuoso nobre que encerra uma dinastia seguindo-se consequências desastrosas tanto para a história de Portugal, quanto da Espanha e indiscutivelmente, para a do Brasil em geral, mas em particular para a Amazônia. Pelo menos seis décadas se passaram com a União Ibérica e muitas expectativas se prolongam por séculos no imaginário português e dos povos lusófonos, a partir de um evento factual que se transfere para o simbólico de uma nação poderosa e muito próspera até então.
Considero o livro importante por vários aspectos, mas destaco os seguintes: a imersão na cultura árabe pelos elementos estéticos explicitados, as especulações sobre o desaparecimento misterioso de um rei em uma batalha sangrenta e as soluções fictícias e de caráter místico que moldaram uma cultura sebastianista que persiste em tantos lugares e por tantos séculos depois do acontecido. Quem tiver fôlego para este mergulho saberá o porquê do que estou escrevendo...


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