Resenha: Saltos Ornamentais por Márcia Huber



Saltos Ornamentais
Marcos Samuel Costa
Editora Primata, 2025

 "Saltos Ornamentais", de Marcos Samuel Costa, é um livro em que o amor ousa dizer claramente seu nome (referência a Oscar Wilde mencionada na apresentação da obra). Em diálogo com Tales, o poeta constrói um monólogo atravessado pela memória, pelo corpo e pela morte de alguma coisa que ficou perdida no tempo — justamente o tempo em que os versos são escritos.

As imagens se sucedem com precisão: os ventos nas louças brancas, a rosa amarela, o espelho procurado como possibilidade de identidade. E então, a afirmação contundente:

“Talesco, meu irmão maravilhoso
tens que ser um irmão morto”.

Fiquei muito impactada com a leitura deste livro pela textura encorpada e espessa de seus poemas, que vão muito além do que se lê. A mancha da página, com seus fartos espaços, carrega muito do corpo dos poemas, deixando entrever o silêncio e abrigando o não dito.

“A pele é capaz de tudo.”

A partir dessa ideia — do que este enorme órgão é capaz de fazer ao abraçar o corpo inteiro —, o poeta adensa uma matéria feita de carne, lábios, frutas, roupas brancas e língua, uma língua de fogo. Marcos desenha uma cartografia de corpos, de homens que amam homens, que atravessam territórios de outros homens e compartilham tanto os seus líquidos como os seus afetos.

O erotismo aparece como linguagem de reconhecimento, como forma de pertencimento e como possibilidade de resistência.

Há também uma densidade emocional rara em "Saltos Ornamentais“". O poeta consegue transformar o que tem em mãos em matéria universal, articulando delicadeza e vigor, lirismo e reflexão. Seus versos sustentam um domínio seguro da linguagem e uma capacidade singular de converter a memória do corpo em experiência poética.

Que venham mais e mais poemas como esses! Mais não digo.


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