UM POEMA DE MARY CACHEADO GIRONDI
Rios voadores
De novembro a maio, o céu da Amazônia é dramático
Tal qual as pinturas de Turner,
Barcos se movem debaixo de nuvens num belo fenômeno alado
Os rios voadores correm, brilham e dançam até chover
Cheios de intensidade, inundam represas, florestas e lagos
E ao solo não lhe resta outra coisa, a não ser florescer
Mas esses céus em nada se comparam aos céus mais ao sul
Como o céu estrelado de Van Gogh
São cintilantes, cristalinos e azuis
Sua secura desenha riscos oscilantes
São claros, nítidos e estonteantes
Mas castigam a fauna, a flora e seus habitantes
Apesar da distância, existe o encontro dos extremos
Depois de meses de seca, quando chega novembro,
O suor da Amazônia evapora e corre para o Sul
Carregando água e vida, os rios voam e correm em cor de tofu
E o quadrilátero afortunado por mais algum tempo se mantem
As árvores e flores que davam seus últimos suspiros
Finalmente se renovam e voltam do além
As paisagens do Sul e Sudeste no verde e na cor resplandecem
Tudo cresce, cresce e floresce
A Terra perdoa o tempo,
Deixando-se encharcar, enchendo
Nutrindo, despontando e desabrochando
Armazena água com toda a força
Sempre a fertilizar
Para a nova estiagem enfrentar
A água cai, escorre e a terra absorve
Renovando-se ano a ano
Até a Amazônia cessar.
Mary Ellen Rivera Cacheado Girondi nasceu em Manaus, em 1980, filha da amazonense Maria Rivera Galindo e do pernambucano José Pedro Cacheado. Formou-se em Letras – Língua Inglesa pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em 2003 e partiu para a Inglaterra onde morou por cinco anos. Mestra em Letras – estudos literários pela UFAM 2013, dedica-se à pesquisa e à melhoria do ensino na escola pública. Mary atua como professora da Prefeitura Municipal de Campinas. É casada, tem um filho, um cachorro e duas gatas.
Variações: revista de literatura contemporânea
XIV Edição, ano 5 - Verde-vago-mudanças: poéticas da natureza e suas urgências
Curadoria e Edição:
Marcos Samuel Costa e Bruno Pacífico
2026

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