A burocratização, mercantilização e fetiche do futebol - Gutemberg Armando Diniz Guerra
A
burocratização, mercantilização e fetiche do futebol[1]
Gutemberg Armando Diniz Guerra
Os tempos mudaram. Os clubes esportivos eram compostos por atletas que moravam nos locais que se faziam representar em ambientes identitários, como bairros, grupos sociais, municípios ou estados. Havia algo de primal, atávico, ligado à representação sentimental de um território ou de uma história que dava substância a uma coesão social construída e que levantava emoções arraigadas. Os nomes dos atletas eram os mesmos que traziam de suas infâncias, de suas inserções familiares ou de vizinhanças, em diminutivos carinhosos, apelidos bem-humorados e até mesmo perversos, racistas, sobre a cor, características físicas anormais, sotaques, formas de falar, referências culturais, religiosas, políticas, misoginias e machismo.
Os tempos mudaram! As equipes são formadas por contratações milionárias, com atletas vindos de lugares longínquos, com acordos constando cláusulas exigindo performances construídas a priori, currículo adensado com número de equipes onde tenham jogado, quantitativos de gols, assistências, bloqueios, desarmes e defesas. Os jogadores são personagens com trajetórias que incluem passagens em times nacionais e internacionais, tatuados com dragões, cruzes e símbolos arrogantes, cabelos e adereços que mais se apropriam a papéis de novela do que a de gladiadores nas arenas que não são mais de areia, mas de relva natural ou sintética.
Apenas para tomar um exemplo, de onde vêm os efetivos titulares e treinador do Esporte Clube Bahia, que jogaram a partida contra o Santos no primeiro turno do campeonato brasileiro deste ano de 2026? Nenhum deles nasceu no Estado da Bahia: o treinador Rogério Ceni é paranaense de Pato Branco, no Paraná, e se notabilizou como jogador do São Paulo; o goleiro titular, Leo Vieira, é natural de Suzano, São Paulo, e atuou no Athletico Paranaense e Chapecoense; Caio Alexandre, o lateral direito que atua como volante, é natural de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, tendo um histórico profissional passando pelo Botafogo, Vancouver Whitecaps e Fortaleza; o zagueiro central Gabriel Xavier nasceu em Andradina, São Paulo, e, depois de passar por equipes de Araçatuba, Mirassol e Famalicão, veio se profissionalizar no Esporte Clube Bahia; o segundo zagueiro central, Santiago Ramos Mingo, nasceu em Tucumán, Argentina; Luciano Juba, que atua pela esquerda, nasceu em Jaboatão, em Pernambuco, e jogou no Sport Recife e Confiança, de Sergipe; o meia esquerda Michel Araújo nasceu em Colônia do Sacramento, Uruguai; Nicolas Acevedo tem naturalidade em Montevidéu, no Uruguai; Jean Lucas nasceu no Rio de Janeiro e já teve passagens pelo Flamengo e Santos; Cristian Oliveira nasceu em Montevidéu, Uruguai; William José é natural de Porto Calvo, em Alagoas, e Erick Pulga é natural de Fortaleza, Ceará. Se ficarmos atualizando a naturalidade dos membros da equipe que se formou em 1931 com atletas nativos, negros escorraçados dos times de elite da capital baiana, cairemos em uma realidade completamente fora daquela que move o torcedor, qual seja a paixão que lhe foi incutida pelo afeto, com lembranças que remontam ao Campo da Graça, que nem existe mais, da Fonte Nova, da relva e coqueiral do Jardim de Alah, que foi palco de treinos, da sede que existiu na Praia da Boca do Rio, do centro de treinamento que funcionou nas dunas do Stiep, área de expansão da cidade que tinha bairros interligados por estradas, entremeados por fazendas e áreas verdes que foram sendo desmatadas e ocupadas por pistas asfaltadas, aglomerados de casas e condomínios horizontais e verticais.
As agremiações eram lideradas por figuras enriquecidas ou líderes caudilhos que manipulavam contratações, remunerações e resultados de maneira espúria e sem nenhum grau de profissionalismo, nem de respeito à legislação ou a relações civilizadas capital x trabalho. Os tempos mudaram e houve alguns avanços na profissionalização dos atletas, o que não é de todo maléfico, e na financeirização do esporte, que alijou a lógica dos torcedores da regência e influência nas decisões das sociedades anônimas em que os clubes vêm se constituindo.
Os times não são mais das torcidas localizadas no território que os clubes representam. Há, mesmo, clubes que vendem seus próprios nomes de origem a marcas comerciais de bancos, bancas de aposta, bebidas alcoólicas, estimulantes energéticos ou qualquer empresa que lhes queira usar como veículos publicitários. Os estádios de cada um, considerados ambientes domésticos, carinhosamente nominados como se fossem suas próprias casas, se venderam e se transformaram em casas de aposta, verdadeiros cassinos, hipódromos, arenas de disputas sangrentas e desumanas.
Tenho a impressão, ao assistir a determinadas partidas, de estar diante de um grupo de burocratas devidamente trajados, cumprindo horários de trabalho por uma obrigação contratual em que lhes são exigidas competências mínimas para receberem, no fim do mês, o seu ganha-pão. Guardadas as devidas proporções, é assim mesmo, mas um ingrediente fundamental do esporte exigido pela torcida é a demonstração de vontade de ganhar e dar como produto um resultado positivo em triunfos, principalmente convertidos em conquistas de títulos.
O que era pautado pela paixão e improviso agora tem planejamento, investimento, infraestrutura física robusta e capacidade financeira para a aquisição dos atletas mais qualificados no universo da modalidade esportiva, estejam eles onde estiverem. Durante as temporadas, se a equipe não satisfaz à torcida, os comentários giram em torno da necessidade de demissões dos que não atenderam às expectativas e contratações de novos quadros. A impressão que tenho é de que, nestas ocasiões, a torcida se comporta como as madames que, em crises de nervos, atacam as lojas em compras volumosas de artigos de luxo e perfumaria, como se estes produtos lhes resolvessem a ansiedade e neurose.
No universo de esportes coletivos, há que se considerar que ali se está a realizar um jogo, em que as variáveis incontroláveis são maiores e mais diversas do que parece ou do que sugere o último resultado do time adversário. Para acalmar o meu próprio coração de torcedor, costumo me repetir algumas frases e bordões muito simples e verdadeiros, tanto quanto a incerteza do resultado que virá: todo jogo começa empatado em 0x0, transcorre com lances de competência, aleatoriedade, probabilidade, determinação e persistência, pois cada competição só acaba quando termina.
E, para falar da seleção brasileira, a representação do canarinho e os símbolos que se inscrevem na camisa de cada jogador delimitam e revelam a quem eles devem obediência: poder-se-ia trocar cada marca daquela por um cifrão, demonstrando que eles, jogadores, e adereços que portam são pura e simplesmente mercadoria, como diria o bacharel em direito, economista e filósofo alemão, Karl Marx. O professor e sociólogo Manuel Malheiros Tourinho resumiu muito bem em um texto recente que há um fetiche no futebol igual ao descrito pelo mesmo citado autor d’O Capital. Quem quiser entender melhor e dialogar sobre o assunto que o leia!

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